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/ Published on October 19, 2023

Estudo transversal

O impacto das mídias sociais no tratamento da acne vulgar

Os resultados mostraram grande impacto, principalmente da rede social Instagram.

A noção de beleza varia conforme diferentes regiões e está intrinsecamente ligada à cultura e aos valores sociais que são impostos. A internet, especialmente as redes sociais, viabilizou a interação entre vendedores e consumidores, que compartilham experiências e recomendam produtos de beleza, procedimentos estéticos e medicamentos, muitas vezes sem a devida orientação médica. A glorificação da aparência externa seguindo um "padrão de beleza ideal" coloca uma pressão significativa sobre as pessoas que não se encaixam nesses critérios. Isso afeta especialmente aqueles que têm problemas de pele, como a acne vulgar, causando impactos psicológicos consideráveis.

A acne vulgar é uma das queixas dermatológicas mais comuns na prática médica, afetando até 95% dos adolescentes em fase puberal. Essa doença crônica, influenciada por diversos fatores, afeta o folículo pilossebáceo e resulta em formações não inflamatórias, incluindo pápulas, pústulas e lesões nódulo-císticas. A falta de reconhecimento da gravidade da condição na vida das pessoas que a apresentam, aliada à insatisfação gerada pelo ideal de beleza imposto, leva muitas vezes os pacientes a buscar soluções em fontes não confiáveis, como dicas de influenciadores digitais, especialmente nas redes sociais, como o Instagram.

Na dermatologia, é comum deparar-se com pacientes que apresentam complicações decorrentes do uso indiscriminado de esteroides tópicos potentes, o que pode resultar em complicações físicas e piora do quadro clínico. Portanto, é de extrema importância compreender o papel das mídias sociais no tratamento da acne vulgar.

Por isso, Lima e colaboradores (2023) realizaram um estudo com objetivo de caracterizar a influência das mídias sociais na escolha do tratamento da acne vulgar sem orientação médica, identificar complicações do manejo inadequado, destacar a mídia social mais influente para esta finalidade e a qualidade de vida desses pacientes.

Métodos

Foi realizado um estudo de abordagem quantitativa, de natureza exploratória e descritiva constituído por 306 usuários de mídias sociais maiores de 18 anos, com dados coletados por via remota, através de um formulário autoaplicável na plataforma Google Forms

> Foram incluídos no questionário de investigação os seguintes itens:

  • Identificação (sexo, idade e grau de escolaridade);
  • Conhecimentos gerais sobre acne vulgar;
  • Identificação de possível influência das mídias sociais para o manejo correto da acne vulgar;
  • Questionamentos sobre como a acne está sendo conduzida pelo paciente;
  • Identificação das complicações por procedimentos ou automedicação por influência das mídias sociais;
  • Aplicação do questionário “Índice de Qualidade de Vida em Dermatologia DLQI-BRA”. O questionário, composto por 10 perguntas, avaliou o quanto o problema de pele interfere na qualidade de vida e nas atividades diárias do paciente durante a semana.
Resultados

A população do estudo foi constituída por 306 pessoas, havendo uma maior incidência do sexo feminino (88%). Quando avaliados os conhecimentos gerais sobre acne, 29,41% dos entrevistados disseram que a acne é uma condição da pele malcuidada, enquanto 70,58% afirmaram ser uma doença. Ademais, 58,16% afirmam possuir acne, enquanto 13,07% responderam “talvez” e 28,75% negaram possuir a condição.

Além disso, 83,33% dos entrevistados relataram que recorreram às mídias sociais para receber indicações sobre produtos ou medicamentos para o manejo da acne. Dentre eles, a Internet foi o meio mais citado, totalizando 82,35%, seguido pela busca em revistas, com 0,65% e, por último, a televisão com 0,32%. Em relação aos que afirmaram utilizar a Internet para obter informações sobre manejo de acne, a rede social mais frequente usada para tal finalidade foi o Instagram, com 65%, seguido pelo Google, com 19% e YouTube com 11%.

Quando questionados sobre a quem recorrem para obter informações sobre cuidados com a acne, 61% afirmaram seguir indicações de dermatologistas; 17% preferem informações de influenciadores digitais; e 12% costumam recorrer a amigos próximos.

No que se refere a complicações após procedimentos ou uso de automedicação influenciada pelas redes sociais, 10,13% afirmaram ter passado por tal situação. Dentre as principais queixas, pode-se citar: irritação da pele, piora da acne e queixa com manchas.

De acordo com o Questionário de Qualidade de Vida em Dermatologia (DLQI-BRA), 20% da população total do estudo afirmou se sentir constrangidos ou limitados devido à condição de sua pele durante a última semana e 10% marcaram “realmente muito”.


Figura 1: Distribuição percentual dos entrevistados que procuraram as mídias sociais para indicações sobre manejo da acne. Imagem retirada de Lima e colaboradores (2023).

Figura 2: Distribuição percentual de qual é a rede social de escolha para obtenção de informações sobre produtos/procedimentos para manejo da acne. Imagem retirada de Lima e colaboradores (2023).

Discussão

O estudo evidenciou que as mídias sociais exercem uma influência considerável no manejo da acne. A preferência pelas plataformas online pode ser devido às mesmas fornecerem informações rápidas e de fácil compreensão. O Instagram se destacou como a mais predominante, com 65% de preferência entre os entrevistados, devido à sua heterogeneidade de qualidade de mensagem, a possibilidade de escolha da fonte de informação e o uso de hashtags.

Dermatologistas em redes sociais tiveram destaque como fonte de informações acerca do manejo da acne. Mais da metade dos entrevistados recorreram a esses para obtenção de conhecimento sobre o assunto, o que pode ter contribuído ao vasto entendimento da acne como uma doença multifatorial (70%). Além disso, a pouca procura por atendimento presencial ressaltou a importância da presença online do profissional para a educação pública a fim de reduzir automedicações e suas consequentes complicações.

 As complicações decorrentes de procedimentos inadequados ou da automedicação, influenciadas pelas mídias sociais, constituíram apenas uma parcela reduzida do grupo de entrevistados (10%), indicando possivelmente a preferência do público por informações de alta qualidade provenientes de fontes com embasamento científico sólido.

Outro indicador relevante foi o "Índice de Qualidade de Vida em Dermatologia" (DLQI). Os entrevistados não relataram um impacto significativo da acne em suas atividades diárias, porém, um número considerável (60%) afirmou que, em algum momento da vida, a acne havia sido um problema em contextos como a escola ou o ambiente de trabalho. Isso pode estar relacionado ao controle atual da doença e à satisfação com o tratamento em curso.


Conclusão

A facilidade de encontrar produtos para acne na internet muitas vezes substitui as consultas presenciais com dermatologistas, o que pode aumentar o risco de cicatrizes e irritação na pele. Nesse contexto, torna-se imperativo desenvolver ferramentas de verificação de confiabilidade das informações sobre a acne vulgar e outras condições dermatológicas. Além disso, é essencial promover uma maior participação de profissionais qualificados na divulgação de informações.