A pressão arterial (PA) sofre modulação circadiana, apresentando níveis mais baixos durante o sono — fase em que se mostra um preditor mais sensível de eventos cardiovasculares. Conceitualmente, a PA elevada pode representar maior risco cardiovascular à noite devido às diferenças entre os estados metabólicos diurnos e noturnos.
Considerando que medicamentos anti-hipertensivos podem reduzir preferencialmente a PA noturna quando administrados na hora de dormir, o momento da administração pode influenciar o grau de redução do risco cardiovascular que esses medicamentos oferecem.
Nesse sentido, três grandes ensaios clínicos randomizados compararam o uso de anti-hipertensivos pela manhã e pela noite. O primeiro mostrou uma redução de 61% em eventos cardiovasculares maiores com administração noturna, enquanto o segundo apontou uma redução de 45% — ambos favorecendo o uso à noite. No entanto, os resultados foram considerados controversos, e especialistas pediram confirmação independente antes da adoção ampla dessa estratégia. O terceiro estudo, TIME trial, não encontrou benefícios associados ao uso noturno, resultado atribuído à baixa adesão e ao perfil de baixo risco da população estudada.
Diante disso, Garrison e colaboradores (2025) conduziram um novo ensaio para comparar os desfechos de mortalidade e morbidade cardiovascular entre pacientes que tomaram anti-hipertensivos pela manhã ou à noite, com o objetivo de avaliar se o horário de administração influencia o risco cardiovascular, independentemente do controle da PA.
O BedMed foi um ensaio clínico randomizado, pragmático, multicêntrico e aberto, com avaliação cega dos desfechos, realizado no Canadá entre 2017 e 2023. Foram incluídos participantes adultos com hipertensão tratados na atenção primária e em uso de pelo menos um anti-hipertensivo de dose única diária.
Entre os 5073 indivíduos triados, 3357 foram randomizados para tomar os medicamentos pela manhã ou à noite, com orientações graduais e ajustes conforme tolerância. A idade mediana foi de 67 anos, 56% eram mulheres, e cerca de metade usava monoterapia. Ao longo de 4,6 anos, 3% dos participantes foram completamente perdidos para seguimento e 15,8% passaram a ser acompanhados apenas por dados administrativos.
O estudo documentou 336 desfechos primários — morte por qualquer causa ou atendimento por eventos cardiovasculares graves — sem diferença estatística entre os grupos, com taxas de 2,3 e 2,4 por 100 pacientes-ano para os grupos noturno e matinal, respectivamente. Análises ajustadas e por subgrupos confirmaram ausência de benefício clínico relevante do uso noturno. Além disso, uma análise de sensibilidade em participantes que não usavam β-bloqueadores ou diuréticos também não encontrou diferença entre os grupos.
Aos 6 meses, a maioria dos participantes estava aderente ao horário designado: 83% no grupo noturno e 95% no grupo matinal. Embora a PA noturna tenha sido significativamente menor no grupo que tomava os medicamentos à noite, não houve diferença estatística na PA diurna entre os dois. Enquanto isso, o controle da PA diurna conforme as diretrizes foi numericamente superior no grupo noturno, mas sem significância estatística.
Os desfechos secundários e de segurança, que incluíram hospitalizações não planejadas, declínio cognitivo, eventos relacionados à visão, quedas e fraturas, não apresentaram diferenças entre os grupos. Da mesma forma, a pontuação de saúde geral autorrelatado após 1 ano foi semelhante em ambos.
Em conclusão, a administração de anti-hipertensivos à noite foi segura, mas não ofereceu benefício clínico adicional em relação ao uso matinal. Assim, o horário ideal deve ser definido com base na preferência do paciente, sem comprometer a eficácia do tratamento.