| Introdução |
A prevalência de obesidade aumentou dramaticamente nas últimas décadas, com uma estimativa de 1,9 bilhão de adultos com excesso de peso (índice de massa corporal [IMC] ≥ 25 kg/m2), dos quais 650 milhões têm obesidade (IMC ≥ 30 kg/m2). Fatores de risco modificáveis importantes para a obesidade incluem comportamentos alimentares não saudáveis, não dormir o suficiente e falta de atividade física. Em relação aos comportamentos alimentares, um campo crescente de pesquisa conhecido como "crononutrição" concentra-se nos impactos na saúde de quando comemos, além do que comemos.
O sistema circadiano regula os ciclos sono-vigília e alimentação-jejum, organizando uma sequência de processos fisiológicos ao longo do dia, sincronizados todos os dias com os marcadores de tempo externos através dos núcleos supraquiasmáticos no hipotálamo. A ingestão de alimentos é outro sinal externo importante para esses relógios periféricos. A comunicação entre os relógios circadianos central e periféricos ocorre através de vias neurais e hormonais, garantindo a sincronização das funções e comportamentos corporais com o ciclo diário claro-escuro. Padrões alimentares incomuns (por exemplo, comer de madrugada) podem perturbar o sistema circadiano através do desacoplamento dos osciladores periféricos, com isso, levando a uma perturbação dos processos metabólicos e hormônios reguladores do apetite. Esse desalinhamento pode levar a consequências metabólicas adversas e a um risco aumentado de obesidade.
Diversos estudos sugeriram que o consumo do café da manhã desempenha um papel importante na manutenção do controle homeostático, com o hábito de pular essa refeição estando associado à desregulação metabólica e inflamatória e com um risco aumentado de sobrepeso, obesidade, um perfil metabólico adverso e doenças cardiovasculares. Dados comportamentais mostraram que tomar café da manhã reduziu a ingestão geral de gordura e minimizou o consumo compulsivo de lanches. Embora ensaios de intervenção de curto prazo (~8 semanas) sugeriram que pular o café da manhã pode ajudar a perder peso, estudos de longo prazo mostraram que o consumo dessa refeição e fazer a maior refeição pela manhã, combinado com um período apropriado de jejum noturno, pode ser eficaz para prevenir o ganho de peso a longo prazo.
Por outro lado, a ingestão de alimentos perto da hora de dormir pode estar associada à má qualidade do sono e ao despertar noturno. A restrição do sono também aumentou a ingestão de calorias de lanches e a ingestão geral de energia em adultos. Estudos de intervenção mostraram que comer um jantar mais cedo pode ajudar a alcançar uma redução no peso corporal e na gordura. Apesar destas evidências, existe uma falta de evidência descritiva de padrões crono-nutricionais na população e sua relação com a adiposidade.
Por isso, Pons-Muzzo e colaboradores (2024) realizaram um estudo para descrever padrões crono-nutricionais e avaliar sua relação com o IMC, e explorar o papel do sono (qualidade e quantidade) como um mediador potencial nesta associação. Como diferenças de sexo podem impor diferenças nesses padrões, eles investigaram essas relações separadamente entre homens e mulheres.
| Métodos |
Para o estudo, eles utilizaram dados do questionário de 2018 da coorte Genomes for Life (GCAT) (n = 7.074), baseada na população, de adultos com idades entre 40 e 65 anos na Catalunha, Espanha, para análise transversal, e os dados do questionário de acompanhamento em 2023 (n = 3.128) para análise longitudinal. Eles realizaram regressões lineares multivariadas para explorar a associação entre variáveis de horário das refeições mutuamente ajustadas (horário da primeira refeição, número de ocasiões de alimentação, duração do jejum noturno) e IMC, levando em consideração a duração e a qualidade do sono, e confundidores relevantes adicionais, incluindo a adesão a uma dieta mediterrânea. Finalmente, a análise de cluster foi realizada para identificar padrões crono-nutricionais, separadamente para homens e mulheres, e as características sociodemográficas e de estilo de vida foram comparadas entre os clusters e analisadas quanto às associações com o IMC.
| Resultados |
Na análise transversal, foram incluídos 7.074 participantes, 58,9% eram mulheres, a idade média foi de 50,8 anos, e a mediana geral do IMC foi de 26,2 kg/m2. Em comparação com os homens, as mulheres tinham maior probabilidade de ter alta adesão a uma dieta mediterrânea, menor probabilidade de consumir álcool, pior saúde mental, maior percentual de cuidar da casa ou da família e um IMC mais baixo. Em comparação com os participantes com peso normal, os com obesidade (21,0%) tiveram um menor escore de dieta mediterrânea, eram mais propensos a estar em situação de desemprego, a ter um cronotipo mais tardio e uma pior saúde mental. Ademais, eles tiveram um horário mediano mais tardio da primeira refeição do que os participantes com IMC normal e sobrepeso e tiveram a maior duração do jejum noturno.
Na análise transversal, um horário mais tardio da primeira refeição mostrou uma associação mais forte com um IMC mais alto, enquanto uma duração mais longa do jejum noturno foi associada a um IMC mais baixo. Ao ajustar o tempo e a qualidade do sono, os resultados foram ligeiramente atenuados. Nos homens, apenas a associação com o horário da primeira refeição foi estatisticamente significativa, e foi atenuada ao ajustar o modelo para variáveis de sono. Nas mulheres, o mesmo padrão foi observado como em toda a população e, adicionalmente, mais ocasiões de alimentação e um horário de sono mais tardio mostraram uma associação com um IMC mais alto. No grupo de pós-menopausa, apenas um maior número de ocasiões de alimentação foi associado a um IMC mais alto. Na pré-menopausa, o horário da primeira refeição e as horas de jejum noturno foram associados ao IMC, e essas associações foram atenuadas ao ajustar para variáveis de sono, com insatisfação e um horário de sono mais tardio sendo associados a um IMC mais alto.
Houve uma interação significativa entre o horário da primeira refeição e a duração do jejum e, ao estratificar, os pesquisadores descobriram que essa associação só era aparentes para pessoas que fazem sua primeira refeição após as 8h30, particularmente em mulheres.
Para a análise longitudinal, o tamanho da amostra foi de 3.128 pessoas, nas quais 40% eram homens, a idade média foi de 50,9 anos e os participantes tinham hábitos geralmente mais saudáveis do que aqueles na amostra transversal. A média da mediana do IMC diminuiu 0,26 kg/m2 entre 2018 e 2023. Horas de jejum mais longas foram associadas a uma menor mudança no IMC e um horário mais tardio da primeira refeição foi associado a uma maior mudança no IMC. Nas mulheres, as associações foram mais fracas e não foram estatisticamente significativas. Ao estratificar esses resultados por horário da primeira refeição, as associações só foram aparentes para pessoas que fazem sua primeira refeição após as 8h30, particularmente em homens.
Ambos os sexos foram separados de acordo com o horário da primeira refeição e o número de refeições ao longo do dia. As mulheres do Cluster 1 foram caracterizadas pelo horário mediano mais cedo da primeira refeição (entre 07:00 e 08:00), menor duração do jejum noturno e ter três ocasiões de alimentação. Elas tiveram maior pontuação de dieta mediterrânea, a maior porcentagem de pessoas com alta escolaridade e empregadas, a menor frequência de má saúde mental e o menor IMC. O Cluster 2 foi formado por mulheres que habitualmente tinham quatro ocasiões de alimentação, que eram mais jovens, tinham níveis mais altos de atividade física e tinham o horário mais tardio da última e um IMC mediano de 25,6 kg/m2. O último Cluster foi caracterizado pelo horário mediano mais tardio da primeira refeição (entre 09:00 e 10:00), três ocasiões de alimentação, a menor adesão a uma dieta mediterrânea e a maior porcentagem de desempregados e donas de casa, além da pior saúde mental e um cronotipo mais tardio. Em comparação com o cluster 1, as mulheres do grupo 3 tiveram um IMC significativamente maior.
Nos homens, o cluster 1 foi caracterizado por quatro ocasiões de alimentação, o horário mais cedo da primeira refeição (entre 07:00 e 9:00) e a menor duração do jejum noturno. Eles eram mais propensos a ter um alto escore de dieta mediterrânea, um cronotipo matutino, ser não fumantes e tiveram o menor consumo médio de álcool. No cluster 2, quase todos consumiam café da manhã, o horário da última refeição foi o mais cedo e a mediana de ocasiões de alimentação foi três. O último grupo foi caracterizado por aqueles que tinham um horário mediano mais tardio da primeira refeição e relatavam pular café da manhã, com apenas duas ocasiões de alimentação. Eles eram mais propensos a ter uma escolaridade mais baixa, estar desempregados, ter um baixo escore de dieta mediterrânea, ter pior saúde mental e maior consumo de álcool e tabaco, e relataram um cronotipo mais noturno. Nos homens, não encontramos associações estatisticamente significativas entre os clusters.
Em conclusão, os resultados indicaram que um horário mais tardio da primeira refeição e uma duração mais curta do jejum noturno foram associados a um IMC mais alto, tanto em análises transversais quanto longitudinais. Na análise transversal, um maior número de ocasiões de alimentação e um horário de sono mais tardio também mostraram associações com um IMC mais alto. Dado que os padrões de horário das refeições são comportamentos modificáveis, eles podem ser o alvo para criar recomendações de saúde pública crono-nutricionais que seriam custo-efetivas e fáceis de alcançar a população. No entanto, a literatura ainda é muito nova sobre este tópico e mais estudos prospectivos e de intervenção em larga escala são necessários.