| Introdução |
Uma transição epidemiológica em que a mortalidade por câncer supera a mortalidade por doenças cardiovasculares (DCV) tem sido observada em muitos países. Diferente das DCVs, que compartilham um conjunto de fatores de risco comuns, o câncer é caracterizado como um grupo de doenças heterogêneas com etiologia e períodos de latência distintos, o que pode em parte explicar as dificuldades na prevenção e controle do câncer.
No Brasil, os avanços na saúde pública e o acesso aos cuidados de saúde resultaram em um aumento da expectativa de vida de 53 anos no início da década de 1960 para 73 anos em 2021, embora com notáveis disparidades regionais e socioeconômicas. No país, a taxa de mortalidade por DCV diminuiu acentuadamente em 39% entre 2000 e 2019, enquanto a por câncer diminuiu apenas 10% no mesmo período, sugerindo que esse pode superar as DCV como principal causa de morte em um futuro próximo.
Como um país com amplas desigualdades socioeconômicas e geográficas, espera-se que essa transição varie entre as diferentes regiões e municípios brasileiros – especialmente devido às diferenças socioeconômicas prevalentes. Entre 1980 e 2017, a mortalidade por DCV diminuiu em todo o país, enquanto a mortalidade por câncer diminuiu nas regiões mais desenvolvidas, mas aumentou nas mais pobres. Embora vários estudos tenham documentado tendências de mortalidade por DCV e câncer em diferentes regiões do Brasil ao longo do tempo, uma análise nacional da transição epidemiológica para a predominância do câncer sobre as DCV no Brasil é ausente.
Por isso, Rache e colaboradores (2024) utilizaram dados de 5.570 municípios para fornecer uma análise nacional da transição para a predominância da mortalidade por câncer sobre a mortalidade por DCV no Brasil.
| Métodos |
Para o estudo, foram utilizados dados de 5.570 municípios por meio do Sistema de Informações sobre Mortalidade e as causas de morte foram classificadas utilizando os códigos da CID-10. As taxas de mortalidade por DCV e câncer, padronizadas por idade, foram calculadas anualmente entre 2000 e 2019. As razões das taxas de mortalidade (MRRs = taxas de DCV divididas pelas taxas de câncer) descreveram a predominância da mortalidade por câncer ou DCV nos municípios e estados. Mapas coropléticos mostraram as MRRs específicas por estado e a transição na causa predominante de morte ao longo do tempo.
| Resultados |
Em todos os 27 estados brasileiros, a taxa de mortalidade por DCV era maior do que por câncer em 2000. A tendência na mortalidade por DCV foi negativa, enquanto a por câncer foi positiva. A diferença nas tendências entre a mortalidade por câncer e por DCV foi estatisticamente, indicando que a cada ano a mortalidade por câncer aumenta em 3,8811 (por 100.000 indivíduos) em relação à mortalidade por DCV.
De 2000 a 2019, a taxa de mortalidade por DCV diminuiu em 25 estados brasileiros, destacando-se Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Espírito Santo e São Paulo. A taxa de mortalidade por câncer aumentou em 15 estados, especialmente na Paraíba, Tocantins, Piauí e Maranhão. No total, isso reflete a transição para a predominância do câncer nesse período de 20 anos. Em 12 estados, houve uma redução na taxa de mortalidade para ambas as doenças.
No geral, embora os estados tenham passado por uma transição em direção à predominância do câncer sobre a DCV de 2000 a 2019, nenhum havia completado essa transição até 2019. Em 2000, os estados das regiões Nordeste e Centro-Oeste apresentaram valores de MRR mais altos em comparação com outras regiões. O estado da Paraíba teve a MRR específica mais alta, indicando que a taxa de mortalidade por DCV era 4,07 vezes maior do que a taxa de mortalidade por câncer.
Em 2019, o estado de Alagoas apresentou a MRR específica mais alta, indicando que a mortalidade por DCV era 2,54 vezes maior do que a por câncer. Alagoas foi seguido por Maranhão, Piauí, Tocantins, Pará e Pernambuco. O estado do Rio Grande do Sul teve a menor MRR, indicando que a taxa de mortalidade por DCV era apenas 7% maior do que a por câncer. Ele foi seguido pelo Distrito Federal, Santa Catarina, Paraná, Amazonas e Minas Gerais.

Figura 1: Taxas de mortalidade padronizadas por idade por DCV e câncer (por 100.000 indivíduos) e razão de taxa de mortalidade (MRR) entre DCV e câncer no Brasil por ano e estado. Imagem retirada de Rache e colaboradores (2024).
Dos 5.570 municípios brasileiros, a maioria apresentou MMR padronizada inferior a 1 ao longo dos anos do estudo, indicando uma tendência de predominância do câncer no país. Enquanto apenas 366 dos municípios existentes tinham MRR inferior a 1 em 2000, em 2019 esse número quase dobrou, alcançando 727. As tendências nas taxas de mortalidade por DCV e câncer, bem como a tendência diferencial entre as duas doenças, foram estatisticamente significativas nos municípios.
A transição para a predominância do câncer ocorreu em todos os municípios, independentemente dos quintis de renda entre 2000 e 2019. No entanto, observou-se um gradiente de renda na MRR entre os municípios, com maiores rendas domiciliares per capita apresentando valores de MRR menores.
As taxas de mortalidade prematura (30 a 69 anos) por DCV e câncer foram calculadas para 2000–2019, assim como a MRR, e analisadas em nível nacional, estadual e municipal. Em 2000, a taxa era superior à do câncer, com uma MRR de 1,8. De 2000 a 2019, essa diminuiu 29%, de 202 em 2000 para 143 em 2019. Por outro lado, as taxas de mortalidade prematura por câncer aumentaram 9%, de 115 em 2000 para 125 em 2019.
Em 2019, a taxa de mortalidade prematura por DCV ainda era superior à do câncer no Brasil, mas a MRR caiu para 1,1, sugerindo uma transição para a predominância da mortalidade prematura por câncer. Em 2019, seis (Amazonas, Amapá, Distrito Federal, Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina) dos 26 estados apresentaram mortalidade prematura por câncer superior à por DCV.
| Conclusão |
A transição epidemiológica em que a mortalidade por câncer ultrapassa a mortalidade por DCV nos estados e municípios brasileiros reflete uma mudança em andamento, com notáveis disparidades econômicas e regionais. Os achados sobre a mortalidade prematura sugeriram que o envelhecimento populacional por si só não explica a transição epidemiológica em curso, sendo, portanto, fundamental um programa nacional coordenado para reduzir a mortalidade prematura por câncer.