Articles

/ Published on February 5, 2026

Alergia alimentar

O espectro oculto da alergia alimentar em adultos

Estudo clínico revelou que quase 200 alimentos podem causar alergia alimentar em adultos, com reações graves associadas a sementes, frutas e leguminosas.

Author: Kallen, Emily J.J. et al.

Fuente: Journal of Allergy and Clinical Immunology: Global, V. 5, N. 2, 2025. Frequency and severity of 192 foods causing food allergy in adults

A alergia alimentar (AA) constitui um importante problema de saúde. Dados epidemiológicos demonstraram um aumento progressivo da sua prevalência ao longo das últimas décadas, com expectativa de crescimento contínuo nos próximos anos. Embora, teoricamente, qualquer alimento possa desencadear uma reação alérgica, a maior parte dos estudos concentra-se nos chamados “big eight ou, em sua tradução, os oito principais alérgenos”, que são leite de vaca, ovo de galinha, trigo, soja, amendoim, nozes, peixes e crustáceos. Entretanto, evidências recentes indicaram que alimentos fora desse grupo podem representar causas relevantes de AA. Frutas como kiwi, pêssego e maçã, por exemplo, têm sido cada vez mais reconhecidas como desencadeadoras de sintomas clinicamente significativos.

Do ponto de vista diagnóstico, o teste de provocação oral permanece o padrão-ouro para confirmação da AA. Contudo, sua aplicação rotineira é frequentemente limitada na prática clínica, especialmente quando múltiplos alimentos estão envolvidos. Testes de sensibilização, como o teste cutâneo e a dosagem de IgE específica, podem auxiliar no diagnóstico, mas não estão disponíveis para todos os alimentos e apresentam limitações importantes, sobretudo no contexto de comidas menos comuns ou novas. Dessa forma, a história clínica detalhada, conduzida por especialistas experientes em alergologia, assume papel central na avaliação diagnóstica.

Na literatura, muitos trabalhos relataram apenas dados referentes à chamada AA “provável”, isto é, aquela em que há concordância entre sintomas clínicos e evidência de sensibilização. No entanto, informações sobre AA “possível”, definida pela presença de sintomas sugestivos independentemente da confirmação laboratorial, também são clinicamente relevantes, pois refletem lacunas diagnósticas frequentemente encontradas na prática diária. A ausência de testes comerciais validados para diversos alimentos reforça a necessidade de considerar ambos os cenários. Nesse contexto, Kallen e colaboradores (2025) propuseram integrar dados de AA possível e provável, buscando oferecer uma visão mais abrangente da frequência e da gravidade das reações alérgicas associadas a todos os alimentos relatados por pacientes adultos atendidos em um ambulatório especializado.

Para isso, eles adotaram um delineamento observacional retrospectivo que incluiu pacientes adultos que relataram sintomas sugestivos de reação alérgica a alimentos com início em até duas horas após a sua ingestão. A coleta de dados foi realizada a partir dos prontuários eletrônicos.

A gravidade das reações alérgicas foi classificada como leve, moderada e grave por meio do escore validado Ordinal Food Allergy Severity Score 3 (oFASS‑3). A avaliação de sensibilização aos alimentos suspeitos foi realizada por meio de testes cutâneos de puntura, testes prick-to-prick e dosagem sérica de IgE específica, incluindo diagnóstico molecular baseado em componentes alergênicos, quando disponíveis.

Com base nesses dados, a AA “possível” foi definida exclusivamente pela presença de sintomas relatados após ingestão do alimento, independentemente da confirmação de sensibilização. Enquanto isso, a AA “provável” exigiu a combinação de sintomas clínicos compatíveis com evidência de sensibilização IgE-mediada ao alimento correspondente.

No total, foram incluídos 1.085 participantes que relataram sintomas compatíveis de AA, associados a um total de 192 alimentos diferentes. A maioria dos participantes era do sexo feminino e apresentava comorbidades atópicas, especialmente rinite alérgica. Cada paciente relatou, em mediana, reações a cinco alimentos distintos, e mais de 40% apresentaram pelo menos uma reação classificada como grave, evidenciando a relevância clínica da população avaliada.

Do total de pacientes, 66,9% foram classificados como portadores de AA provável, definida pela presença de sintomas associada à sensibilização IgE-mediada, enquanto 33,1% apresentaram AA possível, baseada apenas no relato clínico. Para 45 alimentos, havia dados suficientes de sensibilização que permitiram a análise comparativa entre alergia possível e provável.

Em relação à frequência, os alimentos de origem vegetal predominaram amplamente. As frutas foram o grupo mais frequentemente associado a sintomas, seguidas por nozes, leguminosas, vegetais e sementes ou caroços. Entre os alimentos individuais, maçã foi o mais frequentemente relatado, seguida por kiwi, avelã, nozes, amendoim e outras frutas e nuts comuns. Embora cerca de 80% das reações tenham sido atribuídas a apenas 30 alimentos, um número expressivo de alimentos menos comuns também foi implicado, incluindo vários relatados por poucos pacientes, o que ressalta a diversidade do espectro da AA em adultos.

Quanto à gravidade, sementes e caroços foram o grupo alimentar com maior proporção de reações graves, seguidos por peixes, leguminosas, nozes e crustáceos. As frutas, embora tradicionalmente associadas a sintomas leves, destacaram-se por causar um número absoluto elevado de reações graves, em razão de sua alta frequência de consumo e de relatos. Entre os alimentos específicos, sementes como girassol e pinhão, além de nuts como castanha-do-pará, castanha de caju e pistache, apresentaram as maiores proporções de reações graves, especialmente nos casos de AA provável.

A análise por grupos alimentares mostrou diferenças importantes dentro de cada categoria. No grupo das nozes, a frequência variou amplamente entre os diferentes tipos, mas a gravidade foi relativamente homogênea. Já entre as leguminosas, observou-se grande heterogeneidade, com o amendoim sendo o alimento mais frequentemente associado a reações graves, enquanto outros tipos, especialmente produtos de soja mais processados, apresentaram menor gravidade clínica.

As análises de coalergias revelaram padrões assimétricos relevantes. Pacientes com sintomas a sementes e caroços frequentemente apresentaram reações concomitantes a nozes, enquanto o inverso foi menos comum. No grupo das leguminosas, indivíduos com alergia a outras leguminosas frequentemente também relatavam sintomas ao amendoim, mas o inverso raramente acontecia. Entre frutas e vegetais, as coalergias foram menos frequentes e ocorreram principalmente entre alimentos botanicamente relacionados, como frutas da família Rosaceae ou frutas tropicais específicas.

Em suma, Kallen e colaboradores (2025) concluíram que a AA apresenta um espectro muito mais amplo do que o tradicionalmente representado pelos “big eight”, podendo ser causado por quase 200 alimentos diferentes. Entre os principais achados, destacou-se que sementes e caroços foram os alimentos mais frequentemente associados a reações graves, configurando um importante risco clínico. As leguminosas demonstraram grande variabilidade quanto à frequência e à gravidade das reações, enquanto as frutas, especialmente as tropicais, mostraram-se relevantes causas de reações graves em termos absolutos. Esses resultados reforçaram a necessidade de ampliar o foco das pesquisas, da prática clínica e das políticas de segurança alimentar para além dos alérgenos clássicos.