Um conhecimento consolidado é que a obesidade aumenta o risco de desenvolvimento de diversos tipos de câncer, no entanto os especialistas nunca souberam responder o porquê. Desvendar esse mistério poderia contribuir na prevenção e na criação de novos remédios.
Mais de 200 variedades de tumores são conhecidas, e, agora, a ciência descobriu o elo entre a obesidade e 13 tipos da doença, como os de rim, ovário, estomago e vesícula biliar.
Liu et al. (2022) ajudaram a desvendar esse enigma. Segundo o estudo publicado na revista Nature Communications, a adaptação celular é governada pelo ácido palmítico, derivado da gordura. Essa adaptação produz alterações genéticas nas células-tronco que se tornam carcinogênicas. Esse processo é governado epigeneticamente através do aumento da ocupação da cromatina do fator de transcrição CCAAT/ proteína beta de ligação (C/EBPB). A ativação induzida pela obesidade de C/EBPb regula as células tronco, modulando a expressão.
Ainda existem mecanismos que precisam ser esclarecidos, mas, pelo menos, três razões são capazes de explicar por que o excesso de gordura aumenta o risco de surgimento de células malignas.
- Pacientes obesos tem maior resistência à insulina, com isso o corpo a produzir maior quantidade do hormônio, provocando ativação de mecanismos que promovem a duplicação celular, podendo desencadear tumores.
- O tecido gorduroso também produz hormônios femininos. Caso mulheres na pós-menopausa, por exemplo, fiquem mais tempo expostas a alguns tipos de hormônios, o risco de câncer de mama e de endométrio aumenta.
- O último fator importante é a inflamação crônica. A obesidade desencadeia a produção de algumas citocinas que deixam a pessoa em um permanente estado inflamatório, aumentando o risco de câncer.
| Prevenção |
A obesidade também parece aumentar o risco de recorrência dos tumores. Trabalhos epidemiológicos indicam que mulheres obesas ou que engordam depois do tratamento enfrentam um risco mais elevado de retorno da doença. A explicação recai, novamente, sobre os níveis elevados de estrogênio. Por isso, os médicos devem sempre orientar aos pacientes a manter um estilo de vida saudável, perder peso e fazer atividade física.
| Diagnóstico |
O câncer de estômago é um dos tipos de tumor que tem elo com a obesidade. Atualmente, o é o terceiro tipo mais frequente no Brasil em homens e o quinto entre mulheres. Estima-se que cerca de 625 mil casos da doença são descobertos no país. Um equipamento, parecido com o bafômetro, está sendo desenvolvido para detectar esse tumor.
O aparelho analisa o “rastro químico” deixado pelas células no estomago. Elas são responsáveis por liberar moléculas que soltam compostos orgânicos voláteis, que ao serem comparadas com as células saudáveis, as cancerosas se diferem por liberarem compostos diferentes, identificados pelo aparelho. Além de lembrar um bafômetro, o uso também é semelhante: o paciente enche o pulmão e dá um sopro no equipamento.
O estudou clínico iniciou em meados de janeiro no A.C Camargo Câncer Center, em São Paulo e analisará 300 participantes até final de 2022. Na fase inicial, o aparelho mostrou ter uma precisão de 90%. Descoberta que, quando precoce, faz toda a diferença no tratamento e nas chances de sobrevida do paciente.
Incorporar a ferramenta no dia a dia do médico seria fantástico, porque o exame mais precoce para câncer de estômago é a biópsia endoscópica, uma investigação desconfortável, que exige jejum e sedação, custosa e que nem sempre está disponível a população. Esse novo método pode facilitar o diagnóstico e diminuir o custo para a saúde, principalmente no SUS.