Art & Culture

/ Published on May 1, 2026

Oncologia pediátrica

O cuidado que vai além da medicina

Uma reflexão narrativa da Dra. Caroline Christianson sobre sua maternidade durante a especialização em oncologia pediátrica, a presença, a vulnerabilidade e os encontros que sustentam o cuidado.

Author: Caroline Christianson

Fuente: JAMA. 2026;335(6):491–492.

Engravidei no meio da minha especialização em oncologia pediátrica, transitando entre dois mundos. Em casa, tudo avançava — os chutes na barriga se tornando mais fortes, o riso do meu filho pequeno ecoando pelo corredor. No hospital, o tempo parecia suspenso: corredores silenciosos, pais à beira dos leitos, crianças dormindo. Esse contraste entre movimento e quietude aguçava minha atenção, tornando visível o que antes talvez passasse despercebido.

Nos quartos, os pais permaneciam exaustos, mas atentos a qualquer mudança. A esperança apoiava‑se em exames, tratamentos e silêncios que carregavam seu próprio peso. Ainda assim, nesse espaço de sofrimento, os pais encontravam palavras não apenas para seus próprios medos, mas também para a vida que gerava dentro de mim, perguntando em relação à chegada do bebê e à minha famíliae falavam sobre as pequenas alegrias que me esperavam além daquelas paredes.

As perguntas me desconcertavam. Como podiam abrir espaço para mim quando os próprios mundos deles estavam desmoronando? Falar sobre mim, não como médica, mas como mãe, parecia deslocado diante da doença de seus filhos, e muitas vezes eu recuava para o prontuário, erguendo um escudo entre a minha alegria e a dor deles. Mas minha barriga em crescimento permanecia ali, uma presença silenciosa, testemunhando vulnerabilidade, amor e perda.

Aos poucos, deixei que minhas respostas se estendessem além da medicina. Em uma ocasião, testando os limites do que podia ser compartilhado, confessei meu receio de lidar com dois filhos. Uma mãe respondeu refletindo sobre o vínculo entre os próprios filhos — uma proximidade que a distância imposta pelo tratamento não havia desfeito: desenhos trocados, “boa‑noites” sussurrados ao telefone, abraços apertados. O que começou com perguntas sobre mim transformou‑se em reflexões sobre o amor das crianças, estendido entre passado e presente.

O contraste era gritante, quase insuportável: uma vida se agitando dentro de mim, enquanto outra, na minha frente, estava em equilíbrio frágil.  Ainda assim, esse contraste não silenciou nossas conversas, ao contrário, pareceu aprofundá‑las. Pais cujo amor por seus filhos moldava cada decisão ao longo do tratamento conseguiram voltar esse mesmo amor para fora, estendendo‑o a mim e ao meu filho que crescia em minha barriga. A generosidade deles parecia um ato de coragem, uma audácia que desafiava a lógica, olhar para fora com compaixão mesmo quando suas próprias vidas se desfaziam. Não era apenas resiliência, era uma esperança desafiadora, uma recusa em deixar que o sofrimento fechasse o círculo do cuidado.

Essa reciprocidade tornou‑se uma troca mútua de presença. Eu oferecia cuidados médicos, mas, sobretudo, permanecia por perto: sentando‑me em silêncio, escutando o que não era dito. Em troca, os pais cuidavam de mim, perguntando como eu estava, se o bebê se mexia. Esses pequenos gestos afrouxaram os limites que eu havia traçado, permitindo‑me compartilhar mais de mim e receber mais deles. Dessas trocas emergiu um espaço honesto o suficiente para o luto e aberto o bastante para que algo mais duradouro pudesse crescer.

Nós, médicos, somos treinados a pensar nos limites na medicina como impermeáveis, sustentando o sofrimento alheio enquanto protegemos nossas próprias vidas. Mas essa experiência me mostrou algo diferente: a confiança na medicina não repousa apenas na habilidade e nos desfechos, mas também em momentos em que as famílias vislumbram nossa humanidade e nós permitimos que nos vejam. Pais que precisam confiar a saúde de seus filhos a nós não medem nossa capacidade apenas por métricas clínicas; eles também observam se estamos dispostos a ser conhecidos. O cuidado centrado na relação nos lembra que a confiança se aprofunda quando as interações vão além da troca de informações e se tornam encontros de presença e honestidade. Quando os pais estenderam sua preocupação a mim e eu permiti responder, nossas relações se transformaram. Não éramos apenas médica e cuidadores, mas companheiros, construindo uma confiança capaz de nos sustentar nas incertezas e decisões que definem o cuidado oncológico pediátrico.

Ao refletir sobre esses encontros à beira do leito, impressiona‑me como tamanha generosidade não surgiu apesar das circunstâncias, mas precisamente por causa delas. A mesma reserva de amor que conduzia os pais pelas exigências de cuidar de uma criança doente também lhes permitia estender cuidado para fora, sustentando aqueles de nós que caminhávamos ao lado deles. Muitas noites, eu levava essas perguntas para casa, pensando nos pais que nunca mais sentiriam o peso de seus filhos nos braços e que, ainda assim, encontraram graça para perguntar sobre os meus. Essa gentileza permaneceu comigo, transformando a maneira como permaneço à soleira do sofrimento — ficando um pouco mais, permitindo que o silêncio se acomode e, às vezes, oferecendo com cuidado uma história minha.

Na oncologia, falamos frequentemente de prognóstico, tratamento e cura. Com menos frequência nomeamos o paradoxo que as famílias nos ensinam: que, mesmo diante do colapso de realidades impossíveis, o próprio amor não colapsa. Em vez disso, ele transborda, resistindo à escassez, insistindo na conexão e nos entrelaçando no tecido compartilhado da humanidade. As famílias nos mostram que seu amor é capaz de nos sustentar. Cabe a nós permitir que ele nos alcance.


Fonte: A Parent’s Love | Humanities | JAMA | JAMA Network