Puntos de vista

Publicado el 20 de marzo de 2025

Legislação e saúde

O álcool deve ter rótulos de advertência sobre câncer?

As associações entre consumo de álcool e câncer são cientificamente bem estabelecidas, mas o público geralmente desconhece as ligações.

Autor/a: Devi, Sharmila

Fuente: The Lancet, Volume 405, Issue 10476, 366 - 367 Should alcohol carry cancer warning labels?

Um editorial da Lancet escrito há 35 anos levantou o risco de álcool causar câncer, concluindo: "Talvez campanhas de saúde pública que aconselham a sociedade sobre os perigos do álcool devam abranger o risco de câncer". Durante as décadas seguintes, os governos foram "negligentes" por não exigir rótulos de advertência sobre o álcool como fazem para o tabaco.

Agora, sabe-se que o álcool é uma causa bem estabelecida e evitável de câncer, responsável por cerca de 100.000 casos do tumor e 20.000 mortes por câncer anualmente nos Estados Unidos — maior do que as 13.500 fatalidades em acidentes de trânsito associadas ao álcool por ano no país. A bebida tem ligação direta com pelo menos sete tipos de câncer, incluindo o de mama, cólon, esôfago, fígado, boca, garganta e laringe.

Recentemente, um número crescente de países vem abordando os riscos de câncer do álcool, embora ele permaneça atrás do tabaco e da obesidade como prioridade de saúde pública. No entanto, ainda há dúvidas se o congresso aprovaria alguma legislação de rotulagem para essas bebidas.

As diretrizes dietéticas do Estados Unidos serão atualizadas ainda esse ano – em 2025 – entretanto, o primeiro relatório elaborado pela Academias Nacionais de Ciências, Engenharia e Medicina relatou que não havia evidências suficientes para vincular o álcool a outros tipos de câncer, além do de mama. No entanto, ele afirmou que o seu consumo moderado foi relacionado a menos ataques cardíacos e mortes por derrame. O segundo relatório do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA, divulgado em 16 de janeiro de 2025, foi mais ousado e disse que apenas uma bebida alcoólica por dia está relacionada a efeitos negativos à saúde, incluindo câncer.

No Brasil, também não há rotulagem obrigatório à produtos alcoólicos. Entretanto, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) dissemina para os diversos públicos as evidências científicas de que qualquer tipo de bebida alcoólica – seja cerveja, vinho, bebida destilada ou outras contendo álcool – aumenta o risco de câncer. Entretanto, nos últimos anos, o seu consumo vem aumentando no país. No período de 2013 a 2019, dobrou em homens e quadriplicou nas mulheres. Em 2012, 17 mil casos novos de câncer (3,8% do total) e 9 mil óbitos pela doença (4,5% do total) foram atribuíveis ao uso de bebidas alcoólicas no nosso país.

Entretanto, desde 1988, a OMS identificou bebidas alcoólicas como um carcinógeno do grupo 1. Ainda segundo seus relatórios, em 2020 houve 741.300 casos de câncer em todo o mundo atribuíveis ao consumo de álcool. Para frear o avanço da bebida, a organização propôs algumas técnicas para a redução dos danos relacionados ao álcool como: restringir sua disponibilidade no varejo, proibir ou restringir a abrangente à publicidade, colocar nos rótulos os seus malefícios e aumentar o preço do álcool.

A Irlanda foi o primeiro país a obrigar legalmente os produtores de álcool a fornecerem avisos abrangentes sobre seus produtos. Os recipientes terão que conter avisos em letras maiúsculas vermelhas proeminentes dizendo: "EXISTE UMA LIGAÇÃO DIRETA ENTRE ÁLCOOL E CÂNCER FATAIS" e "BEBER ÁLCOOL CAUSA DOENÇA HEPÁTICA".

A Coreia do Sul tem um aviso de rótulo sobre câncer de fígado, mas os produtores podem usar rótulos alternativos que não mencionam o câncer. Outros países que estão desenvolvendo avisos sobre câncer incluem Noruega, Tailândia e Canadá. Cerca de um quarto dos países têm outros rótulos de risco à saúde no álcool, de acordo com um estudo de 2020.

Essas informações nutricionais são importantes para que a população conheça sobre os malefícios da bebida alcoólica. Apenas uma em cada quatro mulheres nos EUA está ciente da ligação entre o consumo de álcool e o câncer de mama. As pessoas têm o direito de saber informações básicas sobre essa substância nos rótulos.

O lobby da indústria do álcool é um dos fatores por trás do lento progresso na disseminação dos riscos à saúde pública do consumo da bebida. É necessário que os médicos encorajem os formuladores de políticas a garantirem que a influência comercial da indústria não prejudique a saúde pública. Além disso, é importante que os médicos orientem seus pacientes, informando os riscos de álcool e também o seu conteúdo calórico.

A Irlanda teve que superar vários obstáculos para promulgar sua política de rotulagem, inclusive no final de 2022, quando um grupo de países europeus exportadores de álcool se opôs à Comissão Europeia, dizendo que os rótulos não eram proporcionais ao objetivo de reduzir os danos do álcool. Grupos comerciais e países, incluindo os EUA, também levantaram objeções ao livre comércio na Organização Mundial do Comércio.