Nos Estados Unidos, o panorama da saúde reprodutiva varia de acordo com o estado. Por exemplo, treze deles implementaram proibições totais ao aborto e outros seis estabeleceram restrições baseadas na idade gestacional, limitando o procedimento a períodos entre seis e 15 semanas. Além de infringirem a autonomia corporal, essas restrições forçam as pessoas grávidas a assumirem os riscos de saúde substancialmente maiores associados à continuidade de uma gestação, o que motivou um intenso debate nacional sobre o papel fundamental do acesso ao aborto na preservação da saúde materna.
Historicamente, o dado mais utilizado nessas discussões era baseado em um estudo publicado em 2012 por Raymond e Grimes, que indicava que o risco de morte no parto era cerca de 14 vezes superior ao do aborto. Contudo, essa estatística utilizava dados coletados entre 1998 e 2005 e poderia não mais refletir a realidade clínica atual.
Entre os fatores que justificam a atualização desses dados, destaca-se a revisão do certificado de óbito nos EUA, totalmente implementada em 2018, que incluiu um campo específico para identificar se a falecida esteve grávida no último ano, melhorando drasticamente a detecção de mortes maternas anteriormente subnotificadas. Somado a isso, a pandemia da COVID-19 aumentou os riscos de morbimortalidade durante a gravidez e o parto nos anos de 2020 e 2021. No entanto, a segurança do aborto legal tendeu a aumentar devido ao crescimento das interrupções realizadas muito precocemente (antes da 7ª semana), período em que os riscos são minimizados.
Com o objetivo de reestimar a razão de mortalidade relacionada à gravidez em comparação ao aborto, Steeland e colaboradores (2026) realizaram um estudo transversal utilizando dados de 2018 a 2021. Para mensurar as mortes relacionadas à gravidez, os autores utilizaram dados do National Vital Statistics System (NVSS). A mortalidade relacionada à gravidez foi definida como o óbito ocorrido durante a gestação ou em até um ano após o seu término, devido a condições agravadas pelo estado gravídico. Para a mortalidade relacionada ao aborto, os dados foram extraídos do Pregnancy Mortality Surveillance System (PMSS). O número total de abortos foi obtido através do Guttmacher Institute.
Durante o período de 2018 a 2021, os pesquisadores contabilizaram um total de 14.902.571 nascimentos (incluindo nascidos vivos e natimortos) e 3.662.580 abortos nos Estados Unidos. No que tange às mortes relacionadas à gravidez, os pesquisadores identificaram 4.945 óbitos. Após a aplicação dos critérios de exclusão metodológicos para refinar os dados, restaram 4.815 mortes ao excluir desfechos abortivos. Ao remover as causas inespecíficas com maior potencial de erro de classificação, o número ajustou-se para 3.662 e, finalmente, ao excluir os óbitos associados à COVID-19, restaram 3.065 mortes relacionadas à gestação. Em contraste, o sistema de vigilância identificou apenas 17 mortes relacionadas ao aborto em todo o período analisado.
A análise principal revelou que a razão média de mortalidade entre gravidez e aborto foi de 69,6, apresentando uma variação anual considerável, com um pico de 105,2 em 2018 e uma mínima de 52,9 em 2020. Mesmo nos cenários de análise de sensibilidade mais conservadores, os números permaneceram elevados: ao excluir causas inespecíficas, a razão média foi de 52,9; e ao excluir tanto causas inespecíficas quanto a COVID-19, a razão média situou-se em 44,3.
O achado mais impactante para a prática clínica e para as políticas de saúde pública é que a razão de mortalidade encontrada (entre 44,3 e 69,6) foi pelo menos três vezes superior à razão de 14,7 calculada no estudo de referência de 2012. Esse aumento na disparidade de risco foi impulsionado tanto por taxas de mortalidade relacionada à gravidez mais altas (variando de 20,6 a 32,3 contra 10,4 no estudo anterior) quanto por uma redução na taxa de mortalidade por aborto (0,46 contra 0,60 por 100.000 procedimentos). Esses resultados reforçaram que o risco de mortalidade associado à continuidade da gestação foi substancialmente maior do que o risco de um aborto induzido.
Em suma, Steeland e colaboradores (2026) indicaram que o risco de mortalidade associado à continuidade da gestação foi muito superior ao risco relacionado ao aborto induzido no contexto contemporâneo dos Estados Unidos. A pesquisa revelou que a razão de mortalidade entre gravidez e aborto variou entre 44,3 e 69,6, um valor que é, pelo menos, três vezes superior à estimativa de 14,7 amplamente utilizada em debates anteriores. Assim, o acesso ao aborto é um componente fundamental para a preservação da saúde materna, dado que a gestação a termo impõe um risco de morte drasticamente superior ao do procedimento de interrupção legal.