A osteoartrite (OA) é uma das doenças musculoesqueléticas mais comuns, caracterizada pela degeneração da cartilagem articular, remodelação óssea subcondral e inflamação da membrana sinovial. Seus principais sintomas são como dor, rigidez matinal, inchaço, amplitude limitada de movimento articular e má função física, afetando significativamente a qualidade de vida dos pacientes.
A microbiota intestinal, composta por diversas populações de micróbios, desempenha papel fundamental nas funções metabólicas, imunológicas, estruturais e neurológicas. Sua alteração, conhecida como disbiose, pode contribuir para os mecanismos fisiopatológicos da OA. Por isso, Hao et al. (2021) revisaram evidências que sustentam a hipótese do eixo "articulação-intestino" e as interações entre a microbiota intestinal e os fatores relevantes para a osteoartrite, além de examinarem o potencial das terapias direcionadas à microbiota no tratamento da doença articular.
| Hipótese do eixo “intestino-articulação” na OA |
O conceito do eixo "intestino-articulação" sugere uma comunicação entre o intestino e as articulações, onde a microbiota intestinal desempenha um papel crucial na produção de várias moléculas, como enzimas, ácidos graxos de cadeia curta (AGCC) e outros metabólitos. Estes, incluindo o lipopolissacarídeo (LPS), podem atravessar a barreira intestinal comprometida e entrar na circulação sistêmica, promovendo a inflamação.
A elevação dos níveis de LPS está associada à obesidade e à síndrome metabólica, fatores de risco significativos para a OA. Assim, é plausível que a microbiota intestinal desempenhe um papel na doença articular, pelo menos, através da indução de inflamação de baixo grau, endotoxemia metabólica, ativação de macrófagos e danos articulares.
| Interações entre a microbiota intestinal e fatores relevantes para a OA |
> Idade
À medida que envelhecemos, nossa microbiota intestinal muda, apresentando menos diversidade, menos espécies dominantes e mais espécies subdominantes, além de um aumento rápido de bactérias que quebram proteínas e açúcares. Como o envelhecimento é constante, essas diferenças na microbiota intestinal e no estado inflamatório podem ser importantes para o desenvolvimento e progressão da osteoartrite.
> Gênero
Alguns estudos indicaram que as mulheres têm um risco maior de desenvolver osteoartrite nos joelhos, quadris e mãos em comparação com os homens, e esses casos tendem a ser mais graves. Essa diferença pode estar relacionada à composição diferente da microbiota intestinal entre homens e mulheres, que pode ser influenciada pelos hormônios sexuais. Alguns pesquisadores sugeriram uma conexão entre hormônios sexuais, perda óssea e microbiota intestinal. Um estudo demonstrou que a falta de hormônios sexuais resultou em aumento da permeabilidade intestinal e perda óssea, sendo esta última dependente da microbiota intestinal. Como a perda óssea subcondral é um fenótipo da osteoartrite, essa evidência sugeriu que a microbiota intestinal pode desempenhar um papel na doença.
> Obesidade e síndrome metabólica
A obesidade é um fator de risco estabelecido para osteoartrite (OA) não apenas em articulações que suportam peso, como joelhos e quadris, mas também nas que não suportam, como mãos e articulações temporomandibulares. Sugerindo que a obesidade contribui para fatores sistêmicos relevantes para a OA. A conexão mais aceita entre osteoartrite, obesidade e síndrome metabólica é a inflamação crônica de baixo grau, parcialmente induzida pelos elevados metabólitos pró-inflamatórios derivados da microbiota, incluindo componentes como o LPS.
> Sistema nervoso central (SNC)
Por algum tempo, tem sido reconhecido que o sistema nervoso central (SNC) desempenha um papel na dor crônica de pacientes com osteoartrite. A microbiota intestinal é considerada crucial no eixo intestino-cérebro, que é uma área de pesquisa ativa que requer mais investigação. Abordar a microbiota intestinal para restaurar o equilíbrio do eixo intestino-cérebro pode abrir caminho para novas terapias modificadoras da doença para pacientes com OA.
| Modulação da microbiota intestinal como tratamento da OA |
> Probióticos e prebióticos
Os probióticos são compostos por microrganismos vivos, como bactérias do ácido lático, que desempenham um papel importante na manutenção da microbiota intestinal saudável. Estudos sugeriram que esses podem ser uma estratégia de tratamento benéfica para a osteoartrite. Por exemplo, um estudo mostrou que pacientes com OA no joelho que consumiram leite desnatado com Lactobacillus casei Shirota (LcS) apresentaram melhorias significativas nos sintomas após 6 meses, em comparação com o grupo placebo.
Os prebióticos, que são carboidratos não digeríveis que estimulam o crescimento de bactérias benéficas no intestino, também têm potencial terapêutico para OA. Um estudo mostrou que a suplementação com fibra prebiótica de oligofrutose (FOS) reverteu os efeitos adversos de dietas ricas em gordura na microbiota intestinal, resultando em redução da inflamação sistêmica e preservação da cartilagem articular em modelos animais de OA induzida pela obesidade.
> Nutracêuticos
Os efeitos clínicos do sulfato de glucosamina (GS) e sulfato de condroitina (CS) no tratamento da osteoartrite (OA) são controversos, embora algumas revisões sistemáticas sugiram efeitos sintomáticos e modificadores de estrutura, possivelmente devido a efeitos anti-inflamatórios na cartilagem.
Estudos mostraram que a suplementação de CS pode aumentar a abundância de Bacteroides, com potenciais efeitos anti-inflamatórios e protetores intestinais. Os efeitos do GS no microbioma são menos claros. Esses suplementos também são componentes importantes da mucina intestinal, que atua como uma barreira de defesa no intestino. A compreensão aprofundada desses mecanismos pode fornecer insights sobre o uso potencial de GS e CS no tratamento da OA.
> Transplante de microbiota fecal (FMT)
A FMT é uma técnica que envolve a transferência de fezes de um doador saudável para o trato gastrointestinal de um paciente receptor, com o objetivo de tratar doenças relacionadas à microbiota intestinal. Estudos promissores indicaram que a FMT é eficaz no tratamento da infecção por Clostridium difficile e está sendo investigada como uma opção terapêutica para a doença inflamatória intestinal. Além disso, evidências emergentes sugerem que a FMT pode ser aplicável ao tratamento da osteoartrite (OA). Um estudo mostrou que o transplante de microbiota de pacientes com OA de joelho e síndrome metabólica para camundongos resultou em um aumento na gravidade da doença, indicando que um microbioma adverso pode exacerbar a doença. Embora esses resultados sejam promissores, são necessários estudos adicionais devido ao número limitado de amostras analisadas.
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Considerações finais A compreensão dos mecanismos da patogênese da osteoartrite é fundamental para o desenvolvimento de novas intervenções terapêuticas preventivas e modificadoras da doença. A influência da microbiota intestinal nos diferentes subtipos de OA pode variar. Embora os mecanismos detalhados do "eixo intestino-articulação" ainda não estejam totalmente elucidados, há a crença de que a microbiota intestinal influencie as articulações ao regular a inflamação e o metabolismo. Estudos futuros serão essenciais para a compreensão aprofundada desses mecanismos complexos e para o desenvolvimento de novas abordagens terapêuticas. |