| Introdução |
A doença cardiovascular aterosclerótica é uma das principais causas de morte e incapacidade. Acredita-se que a microbiota do trato gastrointestinal afeta a progressão da doença através de três mecanismos potenciais. Primeiro, os metabolitos podem interferir no metabolismo do hospedeiro, incluindo o lipídico. Em segundo lugar, a translocação de bactérias vivas ou de seus componentes estruturais (por exemplo, endotoxinas) para a corrente sanguínea pode contribuir para a inflamação sistêmica de baixo grau, exacerbando assim o processo de doença. Em terceiro lugar, a descoberta de DNA bacteriano dentro de placas ateroscleróticas levou à proposta de que as bactérias podem infectar diretamente as placas e acelerar a progressão da doença. No entanto, existem poucos estudos que avaliem diretamente essa relação.
Por isso, Sayols-Baixeras e colaboradores (2023) realizaram um estudo com objetivo de identificar associações entre a microbiota intestinal e medidas baseadas em tomografia computadorizada de aterosclerose coronariana subclínica em uma grande coorte de participantes de meia-idade.
| Métodos |
Realizaram-se um estudo transversal de 8.973 participantes (50 a 65 anos de idade) sem doença aterosclerótica evidente do SCAPIS (Estudo Sueco de Bioimagem Cardiopulmonar) de base populacional. A aterosclerose coronariana foi medida usando escore de cálcio arterial coronariano e angiotomografia coronariana. A abundância de espécies da microbiota intestinal e o potencial funcional foram avaliados com sequenciamento metagenômico shotgun de amostras fecais, e as associações com aterosclerose coronariana foram avaliadas com modelos de regressão multivariada ajustados para fatores de risco cardiovascular. As espécies associadas foram avaliadas quanto à associação com marcadores inflamatórios, metabólitos e espécies correspondentes na saliva.
| Resultados |
A média de idade da amostra do estudo foi de 57,4 anos e 53,7% eram do sexo feminino. Calcificação arterial coronariana foi detectada em 40,3% e 5,4% apresentavam pelo menos uma estenose com oclusão >50%.
O sequenciamento metagenômico shotgun de amostras fecais dos participantes do estudo identificou 1.985 espécies na microbiota intestinal. Entre elas, 64 espécies foram positivamente ou negativamente ligadas ao escore CAC, independentemente dos fatores de risco cardiovascular – mais fortemente Streptococcus anginosus e Streptococcus oralis subsp oralis. Dessas espécies, dezenove, incluindo aquelas tipicamente encontradas na boca, mostraram associações com concentrações plasmáticas de proteína C reativa de alta sensibilidade (PCR-as), e 16 mostraram associações com contagens de neutrófilos.
Outra análise concentrou-se nas 54 espécies que tiveram uma ligação positiva com a pontuação CAC. Neste grupo, 13 espécies foram associadas a níveis mais elevados de PCR-as, 10 a contagens mais elevadas de leucócitos e 11 a contagens mais elevadas de neutrófilos – sugerindo que tanto a inflamação como a resposta à infecção desempenhavam um papel.
Análises adicionais apontaram para a possibilidade de que a composição da microbiota intestinal também possa influenciar a aterogênese, alterando o metabolismo do hospedeiro, dizem os investigadores.
E, finalmente, utilizando dados do Malmö Offspring Dental Study, verificaram novamente se as bactérias intestinais correspondiam aos tipos de espécies encontradas na boca. Cinco das espécies que foram associadas ao escore CAC tiveram uma correlação positiva entre amostras fecais e de saliva (entre elas estavam S. anginosus, mas não S. oralis subsp oralis). Três dos cinco estavam ligados a cavidades/obturações 4 a 12 meses após a coleta das amostras de fezes.
| Discussão |
Aproveitando os dados da coorte do Estudo Sueco de Bioimagem Cardiopulmonar (SCAPIS), os resultados do estudo forneceram evidências de associações de Streptococcus anginosus e Streptococcusoralis subsp oralis com aterosclerose coronária subclínica.
Essas bactérias poderiam atuar por meio de efeitos no metabolismo, aumentando a inflamação sistemicamente ou potencialmente infectando placas ateroscleróticas. No entanto, o aumento da sua abundância pode não ser causa da aterosclerose e apenas atuar como um biomarcador para outro processo, como problemas de saúde oral.
Os resultados forneceram dados sólidos que apoiam uma ligação entre a microbiota intestinal e os riscos de doenças cardiovasculares. É importante que estudos futuros que analisem se os metabólitos relacionados à microbiota no sangue, urina ou outras assinaturas predizem o desenvolvimento incidente (futuro) de eventos cardiovasculares como ataque cardíaco, acidente vascular cerebral ou morte.
Além disso, é necessário que outros estudos investiguem se os resultados dos testes da microbiota podem ser usados no atendimento ao paciente para orientar os esforços de prevenção que tenham um efeito sobre os resultados concretos a longo prazo.
| Conclusão |
Sendo assim, o estudo forneceu evidências de uma associação de uma composição da microbiota intestinal caracterizada pelo aumento da abundância de Streptococcus spp e outras espécies comumente encontradas na cavidade oral com aterosclerose coronariana e marcadores de inflamação sistêmica. Mais estudos longitudinais e experimentais são necessários para explorar as implicações potenciais de um componente bacteriano na aterogênese.