| Introdução |
Durante a gravidez, o metabolismo lipoprotéico sofre adaptações para acomodar o crescimento e desenvolvimento fetal. Essas mudanças consistem em níveis elevados de lipídeos, incluindo o colesterol da lipoproteína de baixa densidade (LDL-C). Entretanto, esse aumento é um importante fator de risco causal para a doença cardiovascular aterosclerótica (DCVA) e contribui para a carga total de colesterol ao longo da vida.
Nos últimos anos, vários estudos relataram a associação entre o perfil lipídico aterogênico durante a gravidez e resultados adversos de curto e longo prazo para a mãe e a criança. Por isso, Mulder e colaboradores (2024) resumiram as alterações no perfil lipídico materno na gestação e o impacto da dislipidemia nos resultados de curto e longo prazo para a mãe e a criança.
| Perfil lipídico durante a gestação |
No início da gravidez, os níveis de colesterol total, LDL-C, triglicerídeos e apolipoproteína B (apoB) diminuem ligeiramente e aumentam do segundo trimestre até o final da gestação. Os níveis do colesterol lipoproteico de alta densidade (HDL-C) e apolipoproteína A1 (apoA1) aumentam 20-40% desde o início da gravidez e se estabilizam por volta das 20-24 semanas.
No último trimestre da gestação das mulheres, o metabolismo lipídico muda para a fase catabólica, com declínio do acúmulo de gordura. Essa é caracterizada pelo aumento da lipólise e mobilização de triglicerídeos dos adipócitos. O aumento da produção da lipoproteína de muito baixa densidade (VLDL), em combinação com a atividade prejudicada da lipoproteína lipase (LPL), leva à depuração ineficiente de lipoproteínas ricas em triglicerídeos (TRLs), como VLDL e remanescentes de VLDL, resultando em níveis aumentados de triglicerídeos.
Entretanto, é importante ressaltar que tanto os níveis lipídicos na gravidez quanto a magnitude dessas mudanças são influenciados por muitos fatores, incluindo os níveis lipídicos e o IMC pré-gestacionais, idade, dieta e etnia.
Mulheres com hipercolesterolemia famíliar (HF) apresentam a doença devido a mutações em genes envolvidos no metabolismo lipídico, resultando em níveis elevados de LDL-C e risco precoce de DCVA. As com a enfermidade heterozigota apresentam níveis de colesterol total e LDL-C aproximadamente duas vezes mais altos em comparação com mulheres sem HF.
| Dislipidemia na gestação: consequências para a mãe |
A alteração perfil lipídico aterogênico aumenta o risco de dano endotelial por meio de mecanismos de estresse oxidativo na parede vascular arterial. Em mulheres grávidas, isso poderia levar à (pré)hipertensão gestacional e resultar em hipertensão sustentada no pós-parto.
Em um estudo de coorte prospectivo, Adank e colaboradores (2019) observaram que os níveis lipídicos gestacionais iniciais não foram associados à hipertensão gestacional, enquanto o colesterol total, LDL-C, não-HDL-C e, especialmente, os triglicerídeos foram positivamente correlacionados à pressão arterial durante a gravidez e 6 e 9 anos após a gravidez. Além disso, os triglicerídeos foram positivamente correlacionados à hipertensão sustentada 6 e 9 anos após a gravidez. Eles concluíram que níveis lipídicos no início da gravidez foram relacionados a uma carga cardiovascular para a mãe, aumentando o risco de pré-eclâmpsia e hipertensão sustentada, e podem, portanto, servir como um marcador precoce para doenças cardiovasculares na vida adulta.
| Rastreamento de futuras mães |
Como estudos mostraram que os níveis lipídicos gestacionais precoces estão associados a resultados de curto e longo prazo para a mãe, o primeiro trimestre poderia ser um momento oportuno para realizar o rastreamento lipídico gestacional.
| Dislipidemia durante a gravidez: consequências para o feto |
Em estudos de autópsia em fetos abortados espontaneamente, os bebês de mães com hipercolesterolemia apresentaram lesões pré ateroscleróticas significativamente mais numerosas e maiores da aorta do que os de mães com níveis normais de colesterol.
A hiperlipidemia tem sido considerada um fator desencadeante de inflamação e estresse oxidativo e sugerida como associada a resultados adversos da gravidez, incluindo parto prematuro.
Acredita-se que o aumento dos níveis de colesterol durante a gravidez seja associado ao sobrepeso na prole, mas esse resultado não foi confirmado em estudos.
Um grande estudo de indivíduos, incluindo crianças e adultos, não mostrou um perfil lipídico mais aterogênico ou maior espessura íntima-média carotídea, um marcador de aterosclerose, nos bebês de mães com HF. Por outro lado, uma associação significativa entre a herança materna e o aumento das pontuações de cálcio na artéria coronária foi observada em 1350 pacientes franceses, mas sem diferença na prevalência de eventos cardiovasculares.
| Conclusão |
Mulder e colaboradores (2024) revisaram as alterações no metabolismo lipídico durante a gravidez, destacando o aumento dos níveis de colesterol total, LDL-C e triglicerídeos, principalmente a partir do segundo trimestre. Esses, embora fisiológicos, estão associados a um perfil lipídico mais aterogênico, aumentando o risco de danos endoteliais por meio de mecanismos de estresse oxidativo. Considerando a complexidade dessas relações, e a necessidade de mais pesquisas para elucidar os mecanismos subjacentes, o estudo ressaltou a importância do monitoramento do perfil lipídico durante a gravidez.