A incidência global de malignidades gastrintestinais (GI) está aumentando, impondo desafios significativos aos sistemas de saúde e exigindo abordagens cada vez mais multidisciplinares. Pacientes acometidos por esses cânceres enfrentam não apenas os efeitos diretos da doença e suas consequências sistêmicas, como também complicações decorrentes dos tratamentos, como imunossupressão e reações adversas a medicamentos.
Nesse contexto, as manifestações dermatológicas têm emergido como elementos significantes, tanto por seu potencial de sinalizar precocemente a presença de neoplasias ocultas, quanto por seu impacto direto na qualidade de vida dos pacientes. A identificação e o manejo adequado dessas alterações cutâneas oferecem aos dermatologistas papel crucial na condução clínica desses casos, contribuindo para o diagnóstico precoce e para o cuidado integral.
Diante disso, o estudo de Dermici e colaboradores (2025) investigou essas manifestações com o objetivo de aprimorar estratégias de detecção e tratamento, visando melhores desfechos clínicos e a qualidade de vida dos indivíduos com cânceres GI.
Foi realizado exame dermatológico abrangente de corpo inteiro em 150 pacientes diagnosticados com malignidades gastrointestinais, atendidos entre abril de 2021 e abril de 2022. Dados sociodemográficos, hábitos de vida, comorbidades e informações detalhadas sobre o câncer primário foram coletados por meio de formulário padronizado.
A análise revelou predominância do sexo masculino (64%), idade média de 62 anos, índice de massa corporal (IMC) médio de 25,86 e tipos de pele mais comuns classificados como Fitzpatrick 3 e 4. As neoplasias mais frequentes foram de cólon (32,7%), estômago (32%) e reto (16,7%), sendo o adenocarcinoma o subtipo histológico predominante (93,3%). A maioria dos pacientes apresentava doença avançada e pouco mais da metade recebia quimioterapia.
A xerose foi a condição dermatológica mais prevalente, afetando 92% dos pacientes, com associação significativa com idade acima da média. O prurido foi relatado por 31,3%, sendo mais comum em adenocarcinomas colorretais e gástricos. As manifestações paraneoplásicas mais frequentes foram ceratose seborreica eruptiva (20,7%) e acantose nigricans (10,7%), ambas associadas ao IMC elevado e idade avançada. Ictiose adquirida e hipertricose lanuginosa também foram observadas em 5,3% e 4% dos participantes, respectivamente, sendo esta última mais prevalente em mulheres. Rosácea facial foi identificada em 38,7% dos pacientes, principalmente do subtipo eritemato-telangiectásico, com associação ao adenocarcinoma colorretal. Dermatite seborreica afetou 6,7%, predominando também no sexo feminino. Neoplasias cutâneas pré-malignas e malignas foram raras, com ceratoses actínicas múltiplas em 3,3% e doença de Bowen e carcinoma basocelular em 0,7%.
Outras alterações incluíram acrocórdons (6%), nevos rubi (21,3%), telangiectasias palmares (4%) e diversas dermatoses com menor prevalência.
Infecções fúngicas foram comuns, com tinea ungueal (68,7%) e tinea pedis (62%) liderando. Candidíase oral foi observada em 34,7%, além de herpes-zóster em 6,7%, com alguns casos precedendo o diagnóstico oncológico. Alopecia androgenética foi o distúrbio capilar mais frequente (58,7%), seguida por eflúvio anágeno (21,3%). Distúrbios ungueais incluíram crista longitudinal (20,7%), onicosquizia (9,3%) e outras alterações menos comuns.
Na mucosa oral, a candidíase foi predominante, seguida por glossite atrófica e outras alterações como língua fissurada, língua geográfica e úlceras aftosas.
Em resumo, o estudo reforçou o papel das manifestações dermatológicas como indicadores clínicos relevantes em pacientes com cânceres GI, destacando condições como prurido, xerose, ceratose seborreica eruptiva e acantose nigricans, frequentemente associadas a malignidades subjacentes. A alta prevalência dessas alterações cutâneas, somada à incidência significativa de infecções fúngicas e alterações capilares, evidencia a necessidade de triagem dermatológica sistemática como parte do cuidado oncológico integral.