A obesidade é uma doença complexa, crônica e estigmatizada, na qual o excesso ou a quantidade anormal de gordura corporal pode prejudicar a saúde ou aumentar o risco de complicações médicas, além de reduzir a qualidade de vida e diminuir a expectativa de vida em crianças e famílias. A Associação Médica Canadense (AMC) desenvolveu uma diretriz com objetivo de fornecer recomendações baseadas em evidências sobre opções para o tratamento da obesidade pediátrica, que apoiem a tomada de decisões compartilhadas entre as crianças suas famílias e seus profissionais de saúde. Abaixo, é apresentado um resumo do documento.
| Recomendações clínicas |
> Intervenções comportamentais e psicológicas
Foram definidas como intervenções com objetivos de saúde ou comportamento saudável, como, por exemplo, melhora na nutrição, atividade física e/ou hábitos de sono.
A AMC recomendou o uso de intervenções multicomponentes (ou seja, pelo menos duas de atividade física, nutrição, psicologia e intervenções tecnológicas) para o tratamento da obesidade em crianças e adolescentes de até 18 anos. Esse tratamento demonstrou benefícios na ansiedade, nos resultados antropométricos e nos cardiometabólicos. Além disso, apresenta nenhum evento adverso grave.
Ademais, a associação preconizou o uso de intervenções nutricionais. Essas incluíram aconselhamento ou educação nutricional, bem como as que envolveram mudanças nos padrões alimentares, como dietas com baixo teor de gordura, baixo índice glicêmico e estilo mediterrâneo. No entanto, essas apresentaram pequeno efeito no índice de massa corporal (IMC), mas nenhum na qualidade de vida, depressão ou ansiedade. Entretanto, foram intervenções que não apresentaram eventos adversos importantes.
As atividades físicas também foram recomendadas no controle da obesidade. O treino combinado (associação entre exercício aeróbico e de resistência) foi superior às atividades isoladas. Ademais, exercícios de maior intensidade foram comumente relatados como mais eficazes quando comparados aos de baixa intensidade. Essa intervenção mostrou melhoria nos resultados antropométricos e nos cardiometabólicos. Os eventos adversos relatados envolveram lesões músculo esqueléticas ou desconforto, como, por exemplo, mal-estar pós-esforço.
A AMC preconizou o uso de intervenções psicológicas. Essas incluíram aconselhamento individual, frequentemente com entrevista motivacional e educação em grupo para famílias. Em relação aos efeitos, essas intervenções tiveram pouco efeito na depressão, enquanto não demonstrou resultados significativos nos outros parâmetros analisados.
Por fim, com a nova imersão na era digital, a associação não recomendou contra o uso de intervenções tecnológicas para o manejo da obesidade. Esse incluiu websites e aplicativos de smartphone (por exemplo, pedômetro, FitBit) concebidos para monitorizar e melhorar comportamentos saudáveis. Para essa intervenção, o painel de diretrizes considerou que tanto os efeitos desejáveis globais previstos quanto os indesejáveis eram insignificantes.
Em suma, as intervenções comportamentais e psicológicas tiveram efeitos positivos na ansiedade e depressão, IMC, peso e resultados cardiovasculares. Se as mudanças comportamentais não forem mantidas, os benefícios derivados da intervenção não serão sustentados a longo prazo.
> Intervenções farmacológicas
A AMC recomendou que os agonistas do receptor do peptídeo-1 semelhante ao glucagon (GLP-1RAs) sejam considerados, em combinação com intervenções comportamentais e psicológicas, para controlar a obesidade em crianças com 12 anos ou mais. Esses fármacos não demonstraram resultados importantes na qualidade de vida ou na depressão e ansiedade. No entanto, em relação ao IMC, peso e eventos cardiovasculares, os GLP-1Ras mostraram resultados promissores. Os eventos adversos mais relatados foram diarreia, náusea, vômito e dor abdominal. Quando comparado os tratamentos, a semaglutida teve efeitos benéficos maiores do que outros GLP-1Ras.
As biguanidas também devem ser consideradas, em combinação com intervenções comportamentais e psicológicas, para o tratamento da obesidade em crianças com 12 anos ou mais. O painel julgou, que para esses medicamentos, os efeitos desejáveis gerais previstos eram moderados e os efeitos indesejáveis eram pequenos. Esses fármacos demonstraram resultados importantes no IMC, peso e eventos cardiovasculares. Os principais efeitos adversos relatados foram náuseas, diarreia ou vômitos.
Os inibidores de lipase não foram recomendados pois seus efeitos desejáveis foram triviais e os indesejáveis eram moderados.
Em suma, os profissionais de saúde devem discutir com às famílias que consideram o uso do GLP-1RAs, orientando que as informações à longo prazo são limitadas. No entanto, que são abordagens interessantes quando as intervenções comportamentais e psicológicas isoladas se mostrarem ineficazes. Provavelmente, a descontinuação do medicamento leve ao reganho de peso e à regressão das melhorias nos resultados de saúde, destacando a importância de intervenções multicomponentes de longo prazo para o controle da obesidade como uma doença crônica.
> Intervenções cirúrgicas
A AMC orientou que a gastrectomia vertical laparoscópica seja considerada, em combinação com intervenções comportamentais e psicológicas, para o tratamento da obesidade em crianças com 13 anos ou mais, consideradas elegíveis com base numa avaliação abrangente da saúde por uma equipe multidisciplinar especializada. Para essa, o painel julgou que os efeitos desejáveis globais previstos eram grandes e os efeitos indesejáveis como pequenos a moderados. Esse procedimento demonstrou resultados benéficos no IMC, peso e nos eventos cardiovasculares. Os eventos adversos foram leves a moderados, como náuseas e diarreia.
O bypass gástrico em Y-de-Roux também foi recomendado, em combinação com intervenções comportamentais e psicológicas, para o tratamento da obesidade em crianças com 13 anos ou mais que sejam consideradas candidatas elegíveis com base numa avaliação abrangente da saúde por uma equipe multidisciplinar especializada. Os seus efeitos desejáveis globais foram grandes e os indesejáveis moderados. O procedimento resultou em um grande efeito benéfico na qualidade de vida, peso, IMC e eventos cardiovasculares. Os eventos adversos mais comuns foram infecção e inflamação, estenose, prolapso ou obstrução intestinal, além de dor abdominal, náuseas, vômitos, deficiência de B12 e ferro.
Em suma, as recomendações se concentraram na gastrectomia vertical laparoscópica e na cirurgia de bypass gástrico em Y-de-Roux porque são os principais procedimentos oferecidos pela maioria dos programas. Atualmente, existem poucas evidências para informar o perfil dos pacientes com maior probabilidade de se beneficiarem de intervenções cirúrgicas e do momento ideal da cirurgia. Na ausência de tais dados, é razoável que os profissionais de saúde apresentem as evidências disponíveis às famílias para considerar a cirurgia quando as intervenções comportamentais e psicológicas isoladas são ineficazes para melhorar os resultados de saúde relacionados à obesidade.