| Introdução |
O manejo clínico da obesidade é concentrado na perda e manutenção do peso, combinando atividade física, terapia comportamental e, em certos casos, farmacoterapia ou cirurgia. Nesse cenário, o jejum intermitente surge como um novo paradigma de abordagem médica, envolvendo padrões alimentares que alternam períodos de ingestão calórica mínima ou nula com períodos de alimentação normal. As principais modalidades incluem a alimentação com restrição de tempo (janelas diárias de alimentação ≤ 10 horas), jejum periódico (um a dois dias por semana) e o jejum em dias alternados, em suas formas normal ou modificadas.
Os mecanismos fisiológicos propostos para a perda de peso com o jejum intermitente estão relacionados à restrição calórica, ao aumento do metabolismo de gorduras, à melhora da sensibilidade à insulina e à otimização do metabolismo da glicose. Durante o jejum, a quebra de triglicerídeos em ácidos graxos e glicerol resulta na produção de corpos cetônicos pelo fígado, que servem como fonte de energia e podem promover a perda de gordura e restauração celular. Além disso, acredita-se que a intervenção possa influenciar positivamente os relógios circadianos endógenos e a diversidade da microbiota intestinal. Contudo, a prática não é isenta de riscos, podendo causar efeitos adversos como desidratação, hipoglicemia, fadiga, tontura e cefaleia, exigindo cautela especial em pacientes com transtornos alimentares ou doenças mentais.
Como há um aumento nas taxas de sobrepeso e obesidade globalmente, Garegnani e colaboradores (2026) realizaram uma revisão para avaliar a eficácia e os riscos do jejum intermitente em adultos com sobrepeso ou obesidade.
| Métodos |
Para a revisão, foram incluídos apenas ensaios clínicos randomizados (ECRs) e ECRs em clusters realizados em adultos com sobrepeso ou obesidade, definidos por um índice de massa corporal (IMC) de 25 kg/m² a 29,9 kg/m² e ≥ 30 kg/m², respectivamente, que apresentavam ou não comorbidades associadas. Como critério temporal, estabeleceu-se uma duração mínima de intervenção de quatro semanas e um período de acompanhamento de, pelo menos, seis meses, ponto em que a perda de peso tende a atingir um platô.
A intervenção avaliada foi o jejum intermitente em suas diversas formas, incluindo alimentação com restrição de tempo, jejum periódico e em dias alternados. Essas estratégias foram comparadas ao aconselhamento dietético regular (como restrição calórica padrão ou dietas específicas) e à ausência de intervenção. A busca por evidências foi realizada em bases de dados eletrônicas, incluindo CENTRAL, MEDLINE (Ovid) e registros da Organização Mundial da Saúde (OMS) e ClinicalTrials.gov, sem restrições de idioma. Os resultados analisados incluíram perda de peso (priorizando a mudança percentual), qualidade de vida e eventos adversos.
| Resultados |
No total, foram incluídos 22 estudos com 1.995 participantes. Os resultados mostraram que o jejum intermitente não apresentou superioridade clínica clara quando comparado a outras intervenções dietéticas para adultos com sobrepeso ou obesidade. No que concerne à comparação com o aconselhamento dietético regular, os resultados sugeriram que o jejum resultou em pouca ou nenhuma diferença na porcentagem de perda de peso em relação ao peso inicial, com uma diferença de média de apenas -0,33%. Além disso, as evidências foram consideradas incertas sobre a capacidade desta intervenção em promover uma redução de pelo menos 5% no peso corporal.
Quanto à percepção de bem-estar e segurança, o jejum intermitente promoveu pouca ou nenhuma alteração nos escores de qualidade de vida quando comparado às dietas convencionais. Os dados sobre eventos adversos nesta comparação foram classificados como de certeza muito baixa, impossibilitando conclusões definitivas sobre a segurança relativa, embora os relatos incluam náusea, cefaleia, tontura, fome, constipação e irritabilidade. No perfil lipídico, não foram detectados efeitos significativos nos níveis de colesterol total, HDL ou triglicerídeos.
Em relação à comparação com a ausência de intervenção, os achados indicaram que o jejum intermitente provavelmente resultou em pouca ou nenhuma diferença real na perda de peso percentual, apresentando uma diferença de média de -3,42% com certeza moderada. Os resultados para qualidade de vida e segurança nesta categoria permaneceram extremamente incertos devido à imprecisão dos dados e ao reduzido número de participantes. Um achado pontual nesta comparação foi o possível aumento nos níveis de HDL, embora sem impacto correspondente no colesterol total ou nos triglicerídeos.
As análises de subgrupo não identificaram variações significativas nos efeitos do jejum com base no gênero ou na renda do país de origem dos participantes. No entanto, observou-se que modalidades como o jejum em dias alternados podem estar associadas a um maior risco de eventos adversos em comparação com a alimentação com restrição de tempo. É fundamental ressaltar que houve uma lacuna crítica de dados nos estudos analisados, uma vez que nenhum deles reportou informações sobre a satisfação dos participantes, o status do diabetes ou medidas gerais de comorbidades, o que limitou a avaliação da viabilidade e aceitabilidade do jejum intermitente a longo prazo.
Em termos de implicações para a prática clínica, os achados corroboraram a visão de que o jejum intermitente não é superior à restrição calórica contínua, o que está em harmonia com a maioria das diretrizes de prática. Sendo assim, é importante que médicos e pacientes conversem sobre a implementação dessa estratégia com base na praticidade individual e na prontidão do paciente para sustentar o método. Para pesquisas futuras, estudos que garantam o acompanhamento além de um ano, avaliem a perda de massa magra e utilizem ferramentas validadas para medir a satisfação e a qualidade de vida são necessários.