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Published on July 23, 2021

Gestão de doenças não transmissíveis

Inovação social e tecnológica durante a COVID-19

Desenvolvimentos de telemedicina e telessaúde para fortalecer laços e preservar a saúde em tempos difíceis

Author: Melchor Alpízar Salazar1*, Miguel Alejandro Trejo Rangel1, Tamara Daniela Frydman1, Antonio Sámano Ángeles2 and Humberto Muñoz Grandé2

Fuente: AJBSR.MS.ID.00156 2020 - 10(6)

O objetivo do artigo foi analisar os dados disponíveis sobre o uso da telemedicina em nível global e nacional para considerar sua utilidade no cuidado de doenças não transmissíveis. Para isso, foi realizada uma revisão da literatura, constatando que a viabilidade é agradável para a implementação da telemedicina no Brasil. Algumas dificuldades para seu uso são relatadas em outros estudos, porém, conhecê-las tornará mais fácil evitá-las e obter resultados ótimos.

Introdução

A pandemia COVID-19 representou um enorme desafio para os sistemas de saúde mundiais, não apenas por causa da doença causada pelo vírus SARS-CoV-2, mas também porque a pandemia causou a interrupção dos serviços de saúde por doenças não transmissíveis.

Recentemente, a OMS realizou uma avaliação rápida da prestação de serviços para doenças não transmissíveis durante a pandemia de COVID-19, que mostrou que os serviços de saúde foram parcialmente ou totalmente interrompidos em muitos países como resultado da pandemia.

Mais da metade (53%) dos países pesquisados ​​interromperam parcialmente ou totalmente os serviços de tratamento da hipertensão; 49% para o tratamento de diabetes e complicações relacionadas ao diabetes; 42% para tratamento de câncer e 31% para emergências cardiovasculares.1

O exposto é contraproducente, uma vez que o tratamento preventivo e curativo dessas doenças não transmissíveis é essencial para que a população mais vulnerável à pandemia seja protegida com um estado de saúde ótimo para combater qualquer infecção. Além disso, sabe-se que casos com maiores complicações associadas a COVID-19 ocorreram em pacientes com comorbidades como obesidade, hipertensão e diabetes.2

Vários antecedentes de esforços privados e governamentais não produziram os resultados esperados para fornecer acesso a cuidados de saúde e controle de doenças crônico-degenerativas em toda a população.3

Com base nessas informações, surge a pergunta: Que estratégia inovadora pode ser implementada para fortalecer a prevenção e o cuidado de doenças não transmissíveis durante a pandemia de SARS-CoV-2? Uma proposta atual e inovadora é a da telemedicina.

Marco conceitual

Existem dois tipos diferentes de inovação, social e tecnológica.

Embora possa esperar que os serviços de saúde sejam restaurados à medida que o risco de contágio diminui e as medidas de prevenção são relaxadas, agora mais do que nunca é importante inovar para gerar novas estratégias que permitam a intervenção remota para o manejo e controle dessas doenças.

Como já foi assinalado em outras ocasiões, existem dois tipos diferentes de inovação, social e tecnológica. Foi sugerido que a inovação tecnológica explica até 25% do sucesso em inovação, enquanto a inovação social constitui 75%.4

No contexto da pandemia COVID-19, o objetivo da inovação social deve ser atingir os grupos mais vulneráveis ​​usando a tecnologia disponível. Os grupos vulneráveis ​​podem ser entendidos como aqueles pacientes que apresentam condições que aumentam o risco de adoecimento mais grave se contraírem o vírus SARS-CoV-2. Nesse sentido, a telemedicina e a telessaúde podem representar as melhores formas de atingir esse objetivo.

A telemedicina refere-se ao diagnóstico e tratamento remoto de pacientes por profissionais médicos, ou seja, é a versão virtual do que aconteceria durante uma visita ao consultório médico.

A telemedicina facilitou o acesso aos serviços de saúde em um momento em que a pandemia restringiu severamente a capacidade dos pacientes de consultar seus médicos. Essa dificuldade dos pacientes em marcar consulta com o médico não se deve apenas às restrições de mobilidade impostas em cada país, mas também ao fato de muitos desses pacientes terem medo de pegar o vírus SARS-CoV-2 se saírem de casa. Esse medo é mais pronunciado em pacientes que pertencem a um grupo vulnerável, trazendo até consequências psicológicas em pacientes com diabetes, hipertensão, câncer, asma, entre outros.

Antes da pandemia, o Conselho Federal de Medicina (CFM) não permitia essa modalidade de atendimento por entender que a consulta presencial teria mais valor que a consulta à distância. Em março de 2020, o CFM admitiu a prática em caráter de excepcionalidade e apenas enquanto durar o enfrentamento do cornavírus.

A comunicação entre o médico, o paciente e seus familiares tem sido difícil durante a atual pandemia.

Isso porque em muitos casos os familiares não podem entrar nas consultas e internações devido ao alto risco de contágio pela COVID-19. Isso levantou a necessidade de implementar estratégias de telemedicina para esse fim. Um exemplo é a iniciativa que têm demonstrado os residentes do Hospital Geral do México Dr. Eduardo Liceaga.

Esses médicos conseguiram vincular seus pacientes a suas famílias por meio de videochamadas, por meio de um sistema prioritário em que, em primeiro lugar, estão os pacientes em estado crítico, os pacientes críticos que serão submetidos a um procedimento invasivo e os que estiverem em piora.

Na segunda categoria de prioridade estão aqueles com transtornos psicológicos associados à hospitalização, aqueles com longa permanência hospitalar e, por fim, os pacientes geralmente hospitalizados. O protocolo sempre considera a desinfecção imediata dos equipamentos eletrônicos após sua utilização para videochamadas. 9

Metodologia

Realizou-se uma mini-revisão da literatura na base de dados Google Scholar, utilizando as palavras-chave "Telemedicina", "Telessaúde", "COVID-19", "Pandemia", "Inovação Tecnológica", "Inovação Social" e “Doença crônica”. Todos os artigos encontrados dentro desses critérios foram revisados ​​e considerados para o artigo, por se tratar de um tema tão recente, não houve muitos resultados.

Resultados e discussão

Os sistemas de saúde que investem em serviços de telemedicina devem prosperar após a pandemia de COVID-19. Isso não se traduz apenas em um benefício econômico para quem presta esses serviços, mas também em um benefício para a sociedade, ao permitir que um número maior de pessoas recupere o controle e o monitoramento de sua doença.

Obviamente, o uso da telemedicina acarreta desafios que incluem a melhoria contínua no atendimento ao cliente, treinamento e acompanhamento, bem como riscos relacionados ao direito à confidencialidade dos dados do paciente e à proteção dos direitos do médico e do paciente.10,11 Apesar disso, a telemedicina tem mostrado algum sucesso no monitoramento de doenças como diabetes, hipertensão e câncer.12,13,14

Nos Estados Unidos da América, apesar de a telemedicina já ser uma prática conhecida por alguns médicos e pacientes, na pandemia começou a ser usada de forma massiva. É por isso que autoridades e usuários têm definido os recursos e as considerações necessárias para o sucesso na telemedicina. Alguns deles são descritos abaixo.

Em primeiro lugar, os comitês de ética da saúde designaram vários programas e aplicativos alternativos para a telemedicina, sem comprometer o anonimato e a segurança do paciente. Os pacientes devem possuir um dispositivo com áudio e câmera, além de conexão à Internet, e devem designar um contato próximo que atuará como "especialista em tecnologia" para tal eventualidade.

Nos casos em que o acesso a esse tipo de dispositivo ou à internet for impossível, o telefone pode se tornar uma alternativa viável. Certifique-se de que o profissional de saúde mantenha um ambiente profissional durante a consulta e que o paciente e seu acompanhante entendam o que estão tentando comunicar, pois às vezes é mais difícil se fazer entender quando a interação não é presencial.15

A Organização Mundial da Saúde (OMS) identificou alguns elementos que a telemedicina deve considerar, quais são; fornecer algum tipo de suporte clínico, superar a barreira da proximidade, utilizar algum tipo de tecnologia de comunicação e informação, e que o benefício do paciente seja o objetivo principal.16

Cada vez mais, a utilização desta ferramenta é fundamental para o alcance do acesso à saúde para todos os tipos de populações, principalmente para aquelas que têm dificuldades em se deslocar a um centro de saúde, por falta de tempo, dinheiro, acesso e nestes tempos de pandemia, risco de contrair outras doenças.

Portanto, Kruse et al. realizaram uma revisão sistemática para avaliar as barreiras e desafios mais frequentes que surgem na implementação da telemedicina em vários países. Entre os resultados, constataram que vários são os fatores que contribuem para a dificuldade de implantação da telemedicina em muitos países, como convencer líderes do investimento necessário, ensinar aos pacientes a metodologia para esse tipo de atendimento, bem como aos profissionais de saúde e internet acesso para todas as populações visadas por essas estratégias.

Conhecendo essas informações, o objetivo é poder evitar os problemas relacionados a esses fatores para ter sucesso no uso da telemedicina. Os autores também mencionam que, em suas descobertas, eles descobriram que há certas áreas da saúde nas quais a telemedicina é mais eficaz e uma delas é em pacientes com diabetes.17

O ideal é que a manutenção da saúde não se concentre apenas no tratamento das doenças, mas também na sua prevenção. Para abranger a prevenção de doenças, um termo mais amplo do que telemedicina deve ser usado, o que pode ser englobado no conceito de telessaúde.

A telessaúde é uma categoria mais ampla que transcende a relação médico-paciente para incluir serviços como treinamento e promoção da saúde da população por um prestador de cuidados. Aplicativos de telefone celular que incentivam modificação do estilo de vida, como promoção de uma dieta melhor, exercícios, gerenciamento de sintomas e adesão à medicação são considerados parte da telessaúde.

No Brasil, as estratégias nacionais de telemedicina vêm crescendo no século 21. Além da possibilidade de as informações chegarem virtualmente a outros locais, outra vantagem é que é positiva a formação de grupos de paciente ou de grupos de promoção à saúde para troca de experiências. Um dos problemas sé que o Brasil ainda não universalizou a internet em todos os territórios, o que restringe principalmente as regiões periféricas e rurais. Outra questão é que pode ocorrer vazamento de dados e informações.

A Universidade federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) criou o TelessaúdeRS em 2007 com objetivo de qualificar profissionais da atenção primária do estado e apoiar a tomada de decisão dos médicos. Desde o iníciodo projeto, foram realizadas mais de 200 mil teleconsultorias com o Brasil todo. Em 2020, o serviço somava mais de 50 mil atendimentos de teleconsultoria, sendo 17% relacionadas a COVID-19. Nestes casos, 66% das vezes, o encaminhamento ao hospital é cancelado, já que dois a cada três pacientes são mantidos na atenção primária, sem se expor aos riscos e custos do deslocamento e sem ocupar vagas na atenção ambulatorial.

A telemedicina também foi adotada pelo Laboratório de Pesquisa Clínica em DST e Aids do Instituto Nacional de Infectonologia (INI), da Fiocruz, para dar continuidade aos programas de Profilaxia Pré-exposição ao HIV durante a pandemia. Cerca de 1,6 mil pessoas fazem uso do programa e elas relatam uma boa experiencia da adoção da telemedicina.

O RegulaSUS tem como objetivo regular a fila de espera dos pacientes de Porto Alegre para consultas especializadas. Os médicos analisam os encaminhamentos que foram realizados e verificam se realmente são necessários, fazendo com que seja evitado encaminhamentos desnecessários.

Conclusão

Neste momento crítico para a saúde da população, a implementação desse tipo de estratégia deve ser iminente. O objetivo é conseguir que a comunidade de especialistas em saúde forme uma rede de apoio em que sejam prestados conselhos remotos sobre planos de alimentação, programas de atividade física e recomendações personalizadas de acordo com as patologias e o grau de controle das mesmas.

Poderá ser proposta uma base de dados com os especialistas em saúde disponibilizados para que cada pessoa que adentre para atendimento ou aconselhamento deste tipo seja encaminhada a um profissional de saúde que possa atender às suas necessidades. Dessa forma, os profissionais não ficariam saturados e os pacientes não negariam seu atendimento por medo ou dificuldade de acesso a centros de saúde e hospitais.

O chamado para o apoio desses profissionais deve ser nacional, assim como as campanhas para que toda a população conheça este programa. Para isso é possível ir a todos os meios de propaganda como rádio, televisão, internet e espetacular. Como qualquer programa de intervenção, tem um certo custo que deve ser coberto, mas a proposta poderia incluir o apoio de empresas privadas e também do governo para a realização do projeto e também da população.

Dado o nível de penetração das tecnologias de comunicação na população, é sensato esperar que seu uso restaure os serviços de saúde para doenças não transmissíveis e ofereça um caminho alternativo para a promoção da saúde durante a pandemia COVID-19.