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Publicado el 14 de junio de 2026

Hipertensão pré-gestacional

Impacto da hipertensão pré-gestacional nos desfechos da fertilização in vitro

Estudo de coorte com mais de 43 mil mulheres revelou como a hipertensão estágio 1 e 2, segundo as novas diretrizes, impactou negativamente o sucesso da FIV e aumentou os riscos de complicações obstétricas.

Autor/a: Fang Y., Wang Z. Li Y., et al.

Fuente: Hypertension, V. 83, N. 4, 2026 Association Between Prepregnancy Blood Pressure and Reproductive Outcomes of In Vitro Fertilization

Estudo de coorte com mais de 43 mil mulheres revelou como a hipertensão estágio 1 e 2, segundo as novas diretrizes, impactou negativamente o sucesso da FIV e aumentou os riscos de complicações obstétricas.

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A hipertensão arterial é classicamente definida por níveis de pressão arterial sistólica (PAS) ≥140 mmHg ou pressão arterial diastólica (PAD) ≥90 mmHg. No entanto, as diretrizes do American College of Cardiology (ACC) e da American Heart Association (AHA) reduziram o limiar diagnóstico, classificando:

·       PAS entre 120–129 mmHg com PAD <80 mmHg como pressão arterial elevada.

·       PAS entre 130–139 mmHg ou PAD entre 80–89 mmHg como hipertensão estágio 1.

Essa nova classificação fundamentou-se primordialmente nos riscos de doenças cardiovasculares a longo prazo na população geral. No entanto, ainda não está claro se essa reclassificação da hipertensão possui implicações diretas nos desfechos reprodutivos.

Embora diversos estudos tenham avaliado a associação entre a hipertensão no início da gestação (antes da 20ª semana) e o risco de complicações obstétricas em concepções naturais, a relação entre a hipertensão pré-gestacional e os resultados reprodutivos raramente foram investigados. Nesse cenário, mulheres submetidas ao tratamento de fertilização in vitro (FIV) constituem um modelo clínico robusto para avaliar o impacto da pressão arterial pré-concepcional. Portanto, Fang e colaboradores (2026) realizaram um estudo de coorte em larga escala com o objetivo de investigar a relação entre a pressão arterial pré-gestacional materna e os desfechos reprodutivos em mulheres submetidas à FIV. Além disso, os pesquisadores tentaram identificar os valores de corte ideais para PAS e PAD em relação a esses desfechos.

O estudo de coorte retrospectivo foi conduzido no Centro de Medicina Reprodutiva da Universidade de Shandong, na China, seguindo as diretrizes STROBE. A população incluiu 43.629 mulheres que realizaram sua primeira transferência embrionária dentro do primeiro ciclo de FIV, com ou sem injeção intracitoplasmática de espermatozoides (ICSI), entre janeiro de 2017 e agosto de 2023. Foram excluídas aquelas que realizaram ciclos de teste genético pré-implantacional, maturação in vitro ou com óvulos doados, além de mulheres com anormalidades uterinas, histórico de aborto espontâneo recorrente (≥2 perdas antes da 20ª semana) ou dados pressóricos incompletos.

A aferição da pressão arterial (PA) foi realizada de forma padronizada por enfermeiros treinados, utilizando monitores automáticos antes do início da estimulação ovariana. O protocolo exigiu que as pacientes estivessem em repouso por pelo menos 5 minutos, sentadas e com a bexiga vazia, tendo evitado cafeína e exercícios nos 30 minutos anteriores. Foram feitas duas medições com intervalo de 5 minutos, utilizando-se a média aritmética para a classificação final. Com base nas diretrizes de 2025 do ACC/AHA, as mulheres foram categorizadas em quatro grupos: PA normal (PAS <120 e PAD <80 mmHg), elevada (PAS 120–129 e PAD <80 mmHg), hipertensão estágio 1 (PAS 130–139 ou PAD 80–89 mmHg) e estágio 2 (PAS ≥140 ou PAD ≥90 mmHg).

O desfecho primário analisado foi a taxa de nascimento vivo, definido como o parto de pelo menos um neonato vivo com 24 semanas de gestação ou mais. Os secundários abrangeram gravidez bioquímica, clínica e em curso, bem como perdas gestacionais, gravidez ectópica e complicações maternas (como pré-eclâmpsia e diabetes gestacional) e neonatais.

O modelo de análise foi rigorosamente ajustado para uma vasta gama de variáveis confundidoras, incluindo idade materna, índice de massa corporal (IMC), espessura endometrial, tipo e estágio do embrião transferido, número de oócitos recuperados, diagnóstico de síndrome dos ovários policísticos (SOP), níveis de hormônio antimülleriano (AMH) e contagem de folículos antrais. Além disso, a PA foi analisada como variável contínua e por meio de splines cúbicos restritos para identificar possíveis pontos de inflexão nos desfechos reprodutivos.

A análise incluiu um total de 43.629 mulheres, das quais 70,5% apresentavam PA normal, 14,2% PA elevada, 12,8% hipertensão estágio 1 e 2,5% hipertensão estágio 2. Observou-se que aquelas nos grupos de PA elevada ou hipertensão tenderam a ter um IMC mais alto e uma maior prevalência de SOP em comparação ao grupo de PA normal. Quanto ao desfecho primário, a taxa de nascimento vivo apresentou uma redução dose-dependente conforme o aumento dos níveis pressóricos: 49,2% no grupo normal, 47,9% no grupo elevado, 46,1% no estágio 1 e 41,4% no estágio 2. Após o ajuste para variáveis de confusão no modelo multivariável, tanto a hipertensão estágio 1 quanto a de estágio 2 permaneceram significativamente associados a menores chances de nascimento vivo.

Em relação aos desfechos secundários, a hipertensão estágio 2 foi associada a uma redução na taxa de gravidez clínica e a um aumento significativo no risco de perda gestacional bioquímica. Tanto o estágio 1 quanto o estágio 2 de hipertensão mostraram-se preditores de um risco elevado de perda gestacional total e de perdas especificamente no primeiro trimestre.

No que tange às complicações obstétricas, as mulheres com hipertensão pré-gestacional estágio 1 e 2 apresentaram riscos substancialmente maiores de parto prematuro e de pré-eclâmpsia. Adicionalmente, a hipertensão estágio 1 foi um forte preditor para o desenvolvimento de hipertensão gestacional.

A análise da PA como variável contínua revelou que cada incremento de 10 mmHg na PAS foi associado a uma redução de 1% na chance de nascimento vivo. Foram identificados pontos de inflexão visíveis nos gráficos de tendência em 130 mmHg para a PAS, 80 mmHg para a PAD e 90 mmHg para a pressão arterial média (PAM). A partir desses valores, as taxas de gravidez clínica e nascimento vivo declinaram de forma acentuada

No âmbito neonatal, a hipertensão estágio 2 foi associada a um risco significativamente maior de recém-nascidos pequenos para a idade gestacional e com baixo peso ao nascer em gestações únicas. Análises de sensibilidade estratificadas por tipo de transferência (a fresco ou congelado) e estágio embrionário confirmaram a robustez desses achados principais.

Em conclusão, Fang e colaboradores (2026) demonstraram que a hipertensão pré-gestacional, especificamente nos estágios 1 e 2 definidos, foi associada de forma independente a uma menor taxa de nascimento vivo em mulheres submetidas ao tratamento de FIV. Além de impactar o sucesso da concepção, níveis pressóricos elevados antes da gravidez correlacionaram-se a riscos significativamente maiores de complicações obstétricas e neonatais, incluindo perda gestacional total, pré-eclâmpsia e parto prematuro.

Diante desses achados, os pesquisadores reforçaram a necessidade de uma colaboração interdisciplinar estreita entre endocrinologistas reprodutivos e cardiologistas para o manejo rigoroso da pressão arterial em mulheres em idade fértil. A detecção precoce e a implementação de estratégias de intervenção antes da concepção, mesmo para pacientes com hipertensão estágio 1, podem ser cruciais para mitigar riscos e otimizar os resultados de saúde materna e infantil.