A internet se converteu, nos últimos tempos, como a principal fonte de informação de saúde, que geralmente se obtém através de buscas no “Dr. Google”. A pesquisa on-line teve um efeito fortalecedor, permitindo fácil acesso a informações de saúde que até então eram difíceis de serem encontradas. No entanto, também pode se tornar problemático e levar à cibercondria.
A cibercondria é uma pesquisa on-line sobre saúde excessiva ou repetida que se associa com uma maior angústia e ansiedade e persiste apesar da interferência no funcionamento e consequências negativas. Este último pode incluir rupturas nas relações com os médicos e nos padrões habituais de procurar e receber cuidados de saúde.
Foi sugerido que a cibercondria representa uma forma compulsiva do “uso problemático da internet”, tendo como tema chave um controle precário sobre a pesquisa de saúde on-line. Estas buscas são impulsionadas pela necessidade de aliviar a ansiedade, que, no entanto, aumenta com a pesquisa persistente e caminha para a perca de controle. Estudos confirmaram fortes relações entre a cibercondria e a ansiedade, o uso problemático da internet e os sintomas do transtorno obsessivo-compulsivo.
A prevenção desta condição pode implicar uma melhora na alfabetização em pesquisas sobre saúde on-line, pois pessoas com maior alfabetização têm níveis mais baixos de cibercondria. Além disso, é necessário abordar os fatores que aumentam o risco de cibercondria, incluindo expectativas equivocadas da Internet, manuseio incorreto da sobrecarga de informações, incerteza e confusão sobre a confiabilidade das fontes de informações.
Um programa de intervenção necessita, em primeiro lugar, esclarecer o que a Internet pode e não pode fazer.
É importante desacreditar nas expectativas pouco realistas, por exemplo, que a Internet pode proporcionar explicações definitivas para todas as consultas relacionadas a saúde. A acumulação de informação não se traduz necessariamente em uma melhor compreensão ou mais conhecimento. No contexto da pesquisa, ter mais informação não é o mesmo que ter também uma explicação, por exemplo, um diagnóstico. A tentativa de autodiagnóstico por meio do Dr. Google deve ser desencorajada, pois pode sair do controle, causar mais sofrimento e, portanto, levar à cibercondria.
Em segundo lugar, uma grande quantidade de informações de saúde on-line durante a busca de saúde, especialmente quando essas informações são inconsistentes ou conflitantes, pode levar a uma sensação de estar "travado" ou perder o controle durante a leitura. Fornecer educação sobre os efeitos da sobrecarga de informações e melhorar o gerenciamento dessa pode fornecer proteção contra a cibercondria.
Em terceiro lugar, o gerenciamento adequado da incerteza também pode desempenhar um papel importante na prevenção da cibercondria. As informações de saúde costumam ser ambíguas e podem ser confusas, aumentando a incerteza. A intolerância a tal incerteza e a tentativa de enfrentá-la por meio de novas tentativas de chegar ao "encerramento" (por exemplo, um diagnóstico) abre caminho para um círculo vicioso de busca de segurança. Portanto, se a procura não avança e parece gerar apenas angústia, a estratégia deve mudar e as informações devem ser obtidas de uma fonte alternativa, inclusive pelo médico.
Em quarto lugar, a capacidade de distinguir entre fontes confiáveis e não confiáveis fornece uma camada adicional de segurança ao conduzir uma pesquisa. As informações de saúde obtidas de fontes confiáveis (por exemplo, organizações acadêmicas e de pesquisa ou governos) costumam ser mais confiáveis, embora possam ser "impessoais". As informações de saúde encontradas em fóruns e blogs geralmente refletem a experiência pessoal e podem ser valiosas como tal, mas não são necessariamente aplicáveis a outras pessoas.
As pessoas com cibercondria geralmente não procuram ajuda diretamente, talvez pela percepção de que não é uma condição "reconhecida". Em vez disso, eles tendem a se apresentar aos serviços clínicos com hipocondria, transtornos de ansiedade, uso problemático da Internet ou mesmo "vício em Internet".
Os objetivos comuns do tratamento na cibercondria incluem certas facetas da psicopatologia (por exemplo, ansiedade e sintomas obsessivo-compulsivo), traços de personalidade (por exemplo, perfeccionismo, desequilíbrio confiança/desconfiança, intolerância à incerteza e má gestão do tempo), respostas comportamentais a situações que causam ansiedade ou estímulos angustiantes (por exemplo, busca de conforto ou evitação), problemas de gerenciamento de informações e aspectos específicos de interações de computador e Internet (por exemplo, expectativas irrealistas). Esses objetivos podem ser alcançados usando uma combinação de abordagens educacionais e psicoterapêuticas.
Os métodos psicoterapêuticos existentes podem ser adaptados para tratar a cibercondria. Um estudo mostrou que uma terapia cognitivo-comportamental (TCC) fornecida pela Internet modificada para hipocondria/ansiedade relacionada à saúde, que também abordou a cibercondria, foi eficaz no tratamento de ambos . Nesse estudo, os componentes específicos da cibercondria da CBT incluíram medidas que melhoraram a alfabetização em informações de saúde on-line e a psicoeducação sobre maneiras de tornar a pesquisa produtiva e evitar informações excessivas e desnecessárias.
A cibercondria é considerada cada vez mais como uma problema de saúde pública que está única e principalmente relacionada com seu potencial para afetar a atenção médica. Deve-se priorizar o desenvolvimento de programas de prevenção e manejo desta condição e provar sua eficácia.