| Introdução |
A obesidade é uma epidemia global associada a um risco aumentado de uma multiplicidade de doenças devastadoras, incluindo diabetes mellitus tipo 2 (DMT2) e doença cardiovascular (DCV), entre outras. Uma perda de peso modesta é considerada benéfica devido ao seu impacto na redução do risco de doenças. No entanto, o gerenciamento de peso bem-sucedido, que inclui não apenas a perda de peso, mas também a sua manutenção, é desafiador. Restrição calórica e aumento da atividade física são as pedras angulares dos programas tradicionais, mas frequentemente não levam a uma perda de peso significativa e sustentada isoladamente. Suplementos dietéticos, particularmente aqueles com propriedades termogênicas, lipotrópicas ou de saciedade, são usados por muitos consumidores para apoiar programas de dieta e estilo de vida para gerenciamento de peso. Entretanto, a segurança desses produtos é frequentemente questionada.
Dado o contínuo alto interesse em estratégias para o gerenciamento de peso bem-sucedido por meio de abordagens de dieta e estilo de vida, bem como questões recentes sobre a segurança de produtos, Mah e colaboradores (2022) identificaram seis componentes comumente usados que representam a amplitude da categoria.
| Cafeína |
A cafeína (1,3,7-trimetilxantina) é conhecida como um estimulante do sistema nervoso central, além de ser proposta para aumentar a termogênese e a oxidação de gordura. Vários estudos sobre a sua ingestão foram realizados, geralmente abordando fontes de bebidas. Em um resumo, o consumo médio de cafeína foi de 23,7 mg/dia, 36,6 mg/dia, 83,2 mg/dia e 122,1–225,5 mg/dia para bebês, crianças, adolescentes e adultos, respectivamente.
Atualmente, recomenda-se o consumo de até 400 mg/dia de cafeína em indivíduos adultos saudáveis. Para mulheres grávidas ou que estejam amamentando, o consumo deve ser ≤300 mg/dia pois pequenas quantidades de cafeína podem passar através do leite, mas essa quantidade não afeta adversamente o bebê.
A ingestão aguda de cafeína > 500 mg/dia pode resultar em vários eventos indesejáveis, como dor de cabeça, nervosismo, agitação, ansiedade, tontura e zumbido. Quando consumido acima de 1.200 mg, pode ocasionar efeitos adversos como taquicardia, arritmia ventricular e convulsões. As respostas são variáveis e provavelmente dependem da sensibilidade individual à cafeína, da existência de comorbidades e da ingestão de medicamentos ou suplementos concomitantes.
A cafeína tem sido utilizada como uma abordagem no gerenciamento de peso devido à sua capacidade de estimular as secreções de noradrenalina e dopamina, o que, por sua vez, pode diminuir o peso corporal (PC) e a gordura corporal (GC), bem como aumentar a termogênese. Uma meta-análise de 13 estudos fornecendo 60–4000 mg de cafeína/dia por 4–36 semanas mostrou que a ingestão de cafeína levou a uma redução no PC, GC e índice de massa corporal (IMC), e que esse efeito foi dependente da dose. No entanto, todos, exceto três dos 13 estudos incluídos, forneceram cafeína com outras substâncias com potenciais propriedades de perda de peso. Daqueles com a substância isolada, dois relataram perda de peso modesta, enquanto o outro não relatou. Em conjunto, pode haver um efeito modesto da cafeína no gerenciamento de peso, mas mais evidências clínicas da substância sozinha são necessárias para confirmação.
Algumas evidências sugeririam que a cafeína pode ser protetora contra Diabetes Mellitus tipo 2 (DM2) em adultos e adolescentes, entretanto, mais estudos são necessários.
| Chá verde |
Devido à associação do consumo de chá verde (Camellia sinensis) com uma ampla gama de benefícios para a saúde, suplementos formulados com seu extrato (ECV) foram popularizados. Extraído do chá verde, o pó de ECV fornece polifenóis, que incluem flavonoides (45–90%) e cafeína (0,4–10%). Dentre os flavonoides, o principal é a catequina que inclui epicatequina, galato de epigalocatequina, galato de epicatequina-3 e galato de epigalocatequina-3 (EGCG). Uma revisão indicou que produtos com ECV ou EGCG, quando consumidos sob as porções recomendadas pelos fabricantes, variaram de 100–1200 mg/dia e 27–350 mg/dia, respectivamente. Alguns desses também forneceram 20–400 mg/dia de cafeína.
O consumo de infusões de chá verde tem sido tradicionalmente considerado seguro, mesmo em níveis de >5 xícaras/dia. No entanto, foram levantadas preocupações sobre uma ligação entre o ECV e a função hepática.
Estudos clínicos com bebidas fortificadas com ECV em ingestões de até 498,6 mg de EGCG/pessoa/dia e durações de até 1 ano (mediana de 12 semanas) foram publicados e não mostram evidências de hepatotoxicidade. Em uma revisão com 15 estudos sobre bebidas contendo ECV (100–704 mg de EGCG/dia; 1–24 semanas), apenas cinco relataram eventos adversos gastrointestinais (ou seja, dor e desconforto abdominal, diarreia e dispepsia/indigestão) e nenhum relatou eventos relacionados ao fígado.
O potencial de gerenciamento de peso do chá verde tem sido postulado como associado a múltiplos mecanismos de ação, por exemplo, controle do apetite, inibição da adipogênese, aumento do gasto energético e modulação da oxidação do substrato. A eficácia do chá verde ou ECV tem sido extensivamente pesquisada e, em sua maioria, os resultados são favoráveis. Diversos estudos demonstraram o efeito do ECV na redução de PC, IMC, GC e circunferência da cintura (CC). Ademais, em uma revisão analisou o efeito do chá verde/ECV de 583–714 mg/dia associado a cafeína e demonstrou que essa combinação levou a uma diminuição adicional no PC, IMC e CC em comparação com a cafeína sozinha durante uma mediana de 12 semanas.
Ademais, os constituintes do ECV podem ser benéficos para a saúde cardiometabólica. A redução na glicemia de jejum (GJ) após o seu foi apoiado em diversos estudos, embora a dose eficaz e a duração da suplementação não sejam claras.
Além disso, meta-análises mostraram que o chá verde/ECV reduz o colesterol total (CT) e o colesterol LDL (LDL-C), mas não o colesterol HDL (HDL-C) em indivíduos com peso normal e com sobrepeso/obesidade. Em contraste, uma meta-análise mostrou que o ECV melhorou os triglicerídeos (TG) sanguíneos, mas não o colesterol sanguíneo em pacientes com DMT2 quando fornecido em ≥800 mg/dia por ≥8 semanas.
O efeito benéfico do chá verde/ECV na pressão arterial (PA) é apoiado por várias meta-análises. Uma meta-análise recente com 24 estudos fornecendo 208–1344 mg de catequinas/dia mostrou que o chá verde/ECV reduziu a PA sistólica (PAS) e a PA diastólica (PAD) independentemente do teor de cafeína.
| Extrato deo grão de café verde (GCBE) |
Os extratos de grão de café verde (GCBE) são considerados a fonte mais rica de ácido clorogênico (CGA) na natureza, contendo cerca de 6–12% p/p de CGA total. O CGA tem diversas bioações, incluindo atividades antioxidante, anti-inflamatória, reguladora do metabolismo da glicose e lipídios e protetora cardiovascular.
Nenhum relatório oficial de segurança foi identificado especificamente para o GCBE; no entanto, os humanos têm uma alta capacidade metabólica para CGA, sem evidências de saturação das vias metabólicas para doses ≤ 2 g/dia. Dentre os efeitos colaterais relatados nos estudos, uma dose de 800 mg de GCBE (372 mg de CGA)/dia por oito semanas provou irritação estomacal e tontura em um participante e uma dose de 200 mg de CGA/dia por 6 semanas provocou náusea e dor de cabeça.
A cafeína e o CGA no GCBE podem estimular a oxidação de ácidos graxos e inibir a lipogênese, o que, por sua vez, diminui o acúmulo de gordura no corpo. Uma meta-análise de 15 ensaios clínicos randomizados mostrou que o GCBE em quantidades variando de 90–6000 mg/dia contendo 30–1200 mg/dia de CGA por 1–12 semanas reduziu significativamente o PC, o IMC e a CC em comparação com o grupo controle, mas não afetou a GC e a relação cintura-quadril. O GCBE parece eficaz para apoiar o gerenciamento de peso, mas estudos clínicos com intervenções > 12 semanas são necessários para comprovar a eficácia para perda e manutenção de peso.
Em relação aos fatores de risco cardiometabólicos dos produtos do GCBE, diversos estudos foram realizados. Duas meta-análises de estudos randomizados mostraram que GCBE ou CGA entre 200–2000 mg/dia por 2–24 semanas reduziu significativamente GJ e insulina, e isso não foi influenciado pelo nível da dose. No entanto, os resultados de outra meta-análise encontraram uma diminuição significativa na GJ, mas não na insulina, e que essa redução foi significativa apenas para GCBE ≥400 mg/dia. Em relação ao perfil lipídico, uma meta-análise de 13 estudos randomizados mostrou que GCBE ou CGA entre 200 e 2000 mg/dia por 2–24 semanas reduziu significativamente o TC no sangue em jejum, mas não TG, LDL-C ou HDL-C. Finalmente, o efeito benéfico do GCBE em PAS e PAD foi demonstrado em uma meta-análise, em que o tamanho do efeito em PAS foi maior com doses de GCBE ≥400 mg/dia.
| Colina |
A colina é um micronutriente que exerce diversas funções na manutenção e crescimento celular ao longo da vida. Especificamente está envolvida em vias metabólicas para a síntese de acetilcolina, betaína, fosfolipídios e trimetilamina, que, por sua vez, desempenham papéis no transporte de lipídios, síntese de membranas, neurotransmissão e metabolismo de um carbono. É uma substância particularmente importante para o desenvolvimento do cérebro fetal, e a sua deficiência está associado a resultados negativos de saúde. O Relatório de Ingestão Dietética de Referência da NASEM sobre colina definiu ingestões adequadas (IA) para a população dos EUA que variam entre 425–550 mg/dia para adultos, 375–550 mg/dia para adolescentes de 14–18 anos, 250 mg/dia para crianças de 4–8 anos, 200 mg/dia para crianças pequenas (1–3 anos) e 125–150 mg/dia para bebês até 1 ano de idade.
Em suplementos alimentares, a colina é fornecida em diferentes formas, incluindo fosfatidilcolina, CDP-colina (citicolina), L-alfa-glicerilfosforilcolina (alfa-GPC) e sais de colina (por exemplo, bitartarato de colina, cloreto de colina).
Entre os produtos que listaram a quantidade de colina por porção, a maioria fornece <300 mg/dia, com o mais alto fornecendo <993 mg/dia. Enquanto isso, a maioria dos suplementos de colina mais vendidos são comercializados para cognição e fornecem entre 200–500 mg de colina/dia, sendo o mais alto 1000 mg/dia.
A administração oral diária de altos níveis de colina, como 10 g de cloreto de colina (7,5 g de colina), pode produzir um leve efeito hipotensor, além de odor corporal de peixe, vômitos, salivação, sudorese e efeitos gastrointestinais.
As evidências clínicas sobre colina e perda de peso são escassas e conflitantes, sem relatórios oficiais ou revisões sistemáticas abordando especificamente este tópico. Entretanto, algumas evidências estão disponíveis sobre o impacto da colina em condições relacionadas à obesidade. Por exemplo, a substância desempenha um papel fundamental no metabolismo da gordura no fígado por meio da fosfatidilcolina. Embora as evidências clínicas sobre a eficácia da suplementação de colina na proteção contra o desenvolvimento e progressão da doença hepática gordurosa não alcoólica (DHGNA) sejam insuficientes, as evidências atuais sugerem o potencial da substância para suporte nutricional e gerenciamento da doença.
| Glucomannan |
O glucomannan é um carboidrato não digerível que foi aprovado para rotulagem como fibra dietética pela Food and Drug Admininstration (FDA) com base em sua capacidade de atenuar os níveis de colesterol.Como fibra, não é digerido no trato gastrointestinal superior e, portanto, está disponível para fermentação pela microbiota intestinal.
Tem sido promovido pelos seus efeitos no controlo do peso e benefícios associados, tais como a redução da glucose e do colesterol, atividades laxantes, prebióticas e anti-inflamatórias. É uma fibra higroscópica capaz de formar um grande volume de mucilagem após a absorção de água no trato gastrointestinal superior. Por isso, pode, então, afetar a saciedade, bem como a digestão, absorção e metabolismo de nutrientes no trato gastrointestinal.
Não foram identificados problemas de segurança com a ingestão de <3 g/dia de glucomannan para a população em geral, e observou que desconforto abdominal, incluindo diarreia ou prisão de ventre, pode ocorrer após esta dose diária em adultos. Normalmente, estes sintomas gastrointestinais, caso ocorram, são ligeiros a moderados e transitórios, e não representam um problema de segurança.
Em 2010, a Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar (EFSA) aprovou uma alegação de redução de peso corporal (PC) para o glucomannan numa dose diária de ≥3 g consumida em três ocasiões ao longo do dia e no contexto de uma dieta com restrição energética em adultos com excesso de peso. No entanto, duas meta-análises publicadas após essa aprovação relataram resultados inconsistentes.
O papel da microbiota no controle de peso saudável é de grande interesse e estudos in vitro mostraram que o glucomannan pode alterar beneficamente esse conjunto de micro-organismos; no entanto, os dados humanos sobre indivíduos com sobrepeso/obesos são escassos.
Manter a massa muscular magra é uma questão importante nos regimes de controlo de peso. A suplementação de 3 g/dia de glucomannan com 300 mg de carbonato de cálcio durante 60 dias diminuiu o PC em 1,2 kg e a GC em 1,1 kg, mantendo a massa muscular magra em participantes com excesso de peso em comparação com o placebo (300 mg de carbonato de cálcio isoladamente). Entretanto, mais estudos são necessários para confirmar esses achados.
Em relação à saúde metabólica, o glucomannan demonstrou uma redução no CT e/ou LDL-C em seis estudos. As evidências incluíram crianças e adultos com hipercolesterolemia, com quantidades de glucomannan entre 2–13 g/dia administradas em cápsulas ou em um produto alimentar, durante 3–8 semanas. Os resultados de outra meta-análise com quantidades de glucomannan variando de 1,2–15,1 g/dia mostraram diminuições significativas na glicose em jejum, CT, LDL-C, não-HDL-C e triglicerídeos numa população diversificada, incluindo adultos obesos, hiperlipidêmicos e diabéticos.
| Capsaicinoides e capsinoides |
São uma família de alcaloides que incluem capsaicina, diidrocapsaicina, nordiidrocapsaicina, homocapsaicina e homodiidrocapsaicina, sendo a o primeiro o dominante. A capsaicina tem sido tradicionalmente utilizada para dores musculares, dores de cabeça e proteção gastrointestinal, além de melhorar a circulação. Mais recentemente, os capsaicinoides têm sido investigados por seu impacto em vários resultados de saúde relacionados ao estilo de vida, incluindo o controle de peso e condições relacionadas à obesidade.
Um grupo semelhante, mas independente, de compostos chamados capsinoides também tem sido investigado em vários ensaios clínicos sobre controle de peso. Esses incluem capsiato (4-hidroxi-3-metoxibenzil [E]-8-metil-6-nonenoato), diidrocapsiato e nordiidrocapsiato.
Poucos relatórios governamentais e de autoridades relacionados à segurança dos capsaicinoides foram publicados. O Office of Dietary Supplements afirmou que poucas preocupações de segurança foram relatadas para ≤33 mg/dia durante 4 semanas ou 4 mg/dia durante 12 semanas de capsaicina e outros capsaicinoides.
O consumo de alimentos contendo capsaicinoides tem sido associado a uma menor incidência de obesidade. Uma meta-análise relatou uma diminuição no PC e no IMC ao avaliar os resultados de quatro e cinco estudos, respectivamente.
O efeito dos capsaicinoides também foi explorado para ajudar a promover um balanço energético negativo através do aumento do gasto energético (GE) e do aumento da oxidação de gordura. Por exemplo, uma meta-análise de nove estudos mostrou que os capsaicinoides aumentaram significativamente a oxidação de gordura e o GE (+58,56 kcal/dia)
Ademais, podem afetar a ingestão de alimentos, e uma meta-análise de oito estudos mostrou que a ingestão de capsaicinoides com uma dose mínima de 2 mg antes de uma refeição diminuiu significativamente a caloria ad libitum (−74,0 kcal) durante a refeição, sugerindo um efeito de supressão do apetite.
Por fim, evidências pré-clínicas mostraram que os capsaicinoides podem modular a homeostase da glicose e o metabolismo lipídico. Nenhuma alteração significativa no perfil lipídico foi relatada em adultos com sobrepeso após 12 semanas de suplementação com capsaicinoides a 2 ou 4 mg/dia T12. No entanto, o HDL-C aumentou e os TG diminuíram após 4 mg de capsaicina/dia por 3 meses em adultos com baixo HDL-C. Resultados nulos foram relatados para a Pressão Arterial Sistólica (PAS) e Pressão Arterial Diastólica (PAD) em duas meta-análises de estudos em participantes normotensos. Em conjunto, as evidências de capsaicinoides e alimentos contendo capsaicinoides na regulação da glicose e perfil lipídico são equívocas, por isso, mais estudos são justificados, particularmente em populações com sobrepeso e obesidade.
| Conclusão |
Embora exista uma ampla gama de suplementos alimentares usados para o controle de peso, Mah e colaboradores (2022) selecionaram seis desses para avaliar quanto à sua segurança e eficácia. Em resumo, suplementos que fornecem cafeína, GTE, GCBE, colina, glucomanano e/ou capsaicinoides e capsinoides podem fornecer algum benefício para o controle de peso e medidas relacionadas à saúde metabólica e são geralmente seguros quando usados de acordo com as instruções dos fabricantes.