A pesquisa, conduzida pela Universidade de Bristol e pelo IRCCS MultiMedica, identificou genes que ajudam a manter o coração e os vasos sanguíneos saudáveis durante o envelhecimento e que podem reverter os danos causados por essa doença limitante. Este é o primeiro estudo, publicado na revista Signal Transduction and Targeted Therapy, a demonstrar que um gene de pessoas longevas pode retardar o envelhecimento cardíaco em um modelo de progeria.
Também conhecida como síndrome de Hutchinson-Gilford (HGPS), a progeria é uma condição genética rara e fatal que causa "envelhecimento acelerado" em crianças.
A HGPS é causada por uma mutação no gene LMNA, que leva à produção de uma proteína tóxica chamada progerina. A maioria dos indivíduos afetados morre na adolescência devido a problemas cardíacos, embora alguns, como Sammy Basso — a pessoa mais velha conhecida com progeria — tenham vivido mais. Infelizmente, Sammy faleceu no final do ano passado, aos 28 anos.
A progerina danifica as células ao desorganizar a estrutura do núcleo — o "centro de controle" da célula — levando a sinais precoces de envelhecimento, especialmente no coração e nos vasos sanguíneos.
Atualmente, o único tratamento aprovado pela FDA (Agência de Alimentos e Medicamentos dos EUA) é um medicamento chamado lonafarnibe, que ajuda a reduzir o acúmulo de progerina. Um novo ensaio clínico está testando o lonafarnibe em combinação com outro medicamento chamado Progerinin, para verificar se a combinação é mais eficaz.
Neste estudo, os pesquisadores do Bristol Heart Institute, Dr. Yan Qiu e Professor Paolo Madeddu, em colaboração com a equipe do Professor Annibale Puca no IRCCS MultiMedica, na Itália, buscaram explorar se genes de supercentenários poderiam ajudar a proteger crianças com progeria dos efeitos nocivos da progerina. A equipe focou em um gene da longevidade encontrado em centenários, chamado LAV-BPIFB4. Pesquisas anteriores já haviam mostrado que esse gene ajuda a manter o coração e os vasos sanguíneos saudáveis durante o envelhecimento.
Usando modelos de camundongos geneticamente modificados para ter progeria, a equipe conseguiu demonstrar problemas cardíacos precoces semelhantes aos observados em crianças com a doença. Eles descobriram que uma única injeção do gene da longevidade ajudou a melhorar a função cardíaca, especialmente a capacidade do coração de relaxar e se encher de sangue — chamada função diastólica.
O tratamento reduziu os danos ao tecido cardíaco — chamados fibrose — e diminuiu o número de células “envelhecidas” no coração. O gene também estimulou o crescimento de novos vasos sanguíneos pequenos, o que pode ajudar a manter o tecido cardíaco saudável.
A equipe então testou o efeito do gene da longevidade em células humanas de pacientes com progeria. Os resultados mostraram que a adição do gene reduziu sinais de envelhecimento e fibrose, sem alterar diretamente os níveis de progerina. Isso sugere que o gene ajuda a proteger as células dos efeitos da progerina, em vez de eliminá-la. Importante: o tratamento não tenta remover a progerina, mas sim ajudar o corpo a lidar com seus efeitos tóxicos.
Dr. Yan Qiu, pesquisador honorário do Bristol Heart Institute da Universidade de Bristol, afirmou:
“Nossa pesquisa identificou um efeito protetor de um gene da longevidade de supercentenários contra a disfunção cardíaca causada pela progeria, tanto em modelos animais quanto celulares.
Os resultados oferecem esperança para um novo tipo de terapia para a progeria — baseada na biologia natural do envelhecimento saudável, em vez de bloquear a proteína defeituosa. Essa abordagem, com o tempo, também pode ajudar a combater doenças cardíacas relacionadas ao envelhecimento normal.
Nossa pesquisa traz nova esperança na luta contra a progeria e sugere que a genética dos supercentenários pode levar a novos tratamentos para o envelhecimento cardíaco prematuro ou acelerado, o que pode ajudar todos nós a viver vidas mais longas e saudáveis.”
Professor Annibale Puca, líder de grupo de pesquisa no IRCCS MultiMedica e reitor da Faculdade de Medicina da Universidade de Salerno, acrescentou:
“Este é o primeiro estudo a indicar que um gene associado à longevidade pode combater os danos cardiovasculares causados pela progeria.
Os resultados abrem caminho para novas estratégias de tratamento para essa doença rara, que exige urgentemente medicamentos cardiovasculares inovadores capazes de melhorar tanto a sobrevivência a longo prazo quanto a qualidade de vida dos pacientes.
Olhando para o futuro, a administração do gene LAV-BPIFB4 por meio de terapia genética poderá ser substituída e/ou complementada por novos métodos de entrega baseados em proteínas ou RNA.
Atualmente, estamos conduzindo diversos estudos para investigar o potencial do LAV-BPIFB4 em combater a deterioração dos sistemas cardiovascular e imunológico em várias condições patológicas, com o objetivo de traduzir essas descobertas experimentais em um novo medicamento biológico."