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/ Publicado el 18 de enero de 2026

Saúde

Fundação do Câncer divulgou nova versão do guia sobre prevenção e rastreamento do câncer de colo do útero

Transição do Papanicolau para o teste de DNA‑HPV no SUS orientou novas diretrizes de prevenção e diagnóstico precoce.

A Fundação do Câncer apresentou no dia 8 de janeiro a edição atualizada do Guia Prático de Prevenção do Câncer de Colo do Útero, lançada como parte das ações do Janeiro Verde, campanha dedicada à conscientização e ao combate da doença. O documento original, publicado em 2022, abordava estratégias de vacinação contra o HPV e o rastreamento baseado na citologia pelo exame Papanicolau, método padrão no país até então. 

Transição para o teste de DNA‑HPV

A principal atualização do guia está na orientação aos profissionais de saúde para a mudança gradual do método de rastreamento no Sistema Único de Saúde (SUS), que passará da citologia convencional para o teste molecular de DNA‑HPV. Segundo a consultora médica da Fundação do Câncer, Flávia Miranda Corrêa, tanto a vacinação quanto as estratégias de detecção precoce foram reformuladas nos últimos anos, especialmente em 2025, quando houve ampliação do público elegível à imunização. 

De acordo com ela, os testes moleculares foram incorporados ao SUS em 2024, e a implantação começou em setembro do mesmo ano, coordenada por um núcleo da Secretaria de Atenção Especializada em Saúde do Ministério da Saúde. Municípios de 12 estados iniciaram a adoção do novo modelo, cada um avançando em ritmos distintos. Outros 12 estados já participam das discussões para integrar a expansão. Até que a transição esteja concluída, unidades onde o novo método ainda não está disponível continuarão seguindo as normas baseadas no Papanicolau. 

Diretrizes e diferenças entre os exames

A nova edição do guia já incorpora as Diretrizes Brasileiras para o Rastreamento do Câncer do Colo do Útero, aprovadas pela Conitec, que estabelecem a substituição progressiva do Papanicolau pelo teste de DNA‑HPV. Conforme explicou Luiz Augusto Maltoni, diretor executivo da Fundação do Câncer, o exame molecular atua de forma preventiva ao identificar a presença do HPV de alto risco antes do aparecimento de alterações celulares, ampliando a capacidade de diagnóstico precoce. 

No Brasil, o público‑alvo para o rastreamento permanece o mesmo: mulheres entre 25 e 64 anos. Embora alguns países iniciem aos 30 anos, especialistas decidiram manter a faixa etária vigente para evitar a coexistência de dois métodos diferentes numa mesma unidade, o que poderia gerar confusão e duplicidade de exames. 

A periodicidade também muda. Na citologia, o rastreamento é anual no início e, após dois resultados negativos consecutivos, passa a ser realizado a cada três anos. Já o teste de DNA‑HPV, por ser mais sensível e identificar 99% das mulheres sem infecção ou lesões precursoras, permite a ampliação do intervalo para cinco anos. 

Condutas para resultados positivos

Quando o teste aponta infecção pelos tipos 16 ou 18 — responsáveis por cerca de 70% dos casos de câncer do colo do útero — a recomendação é encaminhar a paciente diretamente para colposcopia. Esse exame, que utiliza lentes de aumento e reagentes específicos, permite identificar áreas suspeitas e eventuais lesões precursoras. 

Para outros tipos oncogênicos, a conduta inclui citologia reflexa com o mesmo material coletado. Caso haja alterações, a mulher também é encaminhada à colposcopia. Se a citologia for normal, o retorno para novo teste de HPV deve ocorrer em um ano, devido ao risco intermediário. 

Estratégia global e prioridades nacionais

O Brasil aderiu à Estratégia Global para Eliminação do Câncer de Colo do Útero, proposta pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que estabelece metas até 2030: vacinar 90% das meninas até 15 anos, rastrear 70% das mulheres com exame molecular e garantir tratamento oportuno para 90% das diagnosticadas com lesões precursoras ou câncer. 

Flávia Corrêa destacou que a vacinação continua sendo o principal pilar da prevenção, já que impede a infecção pelo HPV. Após quedas na cobertura vacinal durante a pandemia e diante do avanço do movimento antivacina, o Programa Nacional de Imunizações intensificou as ações para recuperar adolescentes de 15 a 19 anos que não haviam sido imunizados. No SUS, a vacina quadrivalente é aplicada em dose única para meninas e meninos de 9 a 14 anos. Grupos prioritários — como pessoas vivendo com HIV/Aids, transplantados, pacientes oncológicos, vítimas de violência sexual e usuários de PrEP — também têm direito à imunização gratuita. 

Para mulheres entre 20 e 45 anos, a vacinação não está incluída no SUS e deve ser realizada na rede privada mediante avaliação conjunta com o profissional de saúde.

Rede de cuidado e tratamento oportuno

A médica lembrou que a estratégia de eliminação depende não apenas da mudança tecnológica, mas da organização de toda a rede de cuidados, desde a coleta adequada até o tratamento de lesões e câncer já diagnosticados. Interromper esse fluxo compromete a efetividade do rastreamento.