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Published on April 22, 2026

Força muscular

Força muscular como preditor de longevidade em mulheres idosas

Uma análise prospectiva com 5.472 mulheres revelou que a força de preensão manual e o desempenho em membros inferiores são preditores robustos de mortalidade por todas as causas.

Author: LaMonte MJ, Hyde ET, Nguyen S, et al.

Fuente: JAMA Netw Open., V. 9, N. 2, 202. doi:10.1001/jamanetworkopen.2025.59367 Muscular Strength and Mortality in Women Aged 63 to 99 Years

As diretrizes atuais, como o Physical Activity Guidelines for Americans e posicionamentos recentes da American Heart Association, recomendaram formalmente a prática de atividades de fortalecimento muscular pelo menos duas vezes por semana para a obtenção de benefícios funcionais e sistêmicos. Estudos observacionais em adultos de meia-idade e idosos apontaram uma associação inversa entre a força muscular e a mortalidade, com metanálises indicando que o risco de morte por todas as causas é 15% menor em indivíduos que realizam fortalecimento muscular em comparação aos sedentários. Entretanto, a literatura científica enfrenta desafios metodológicos, pois a associação entre força e mortalidade pode sofrer influência dos níveis de atividade física aeróbica e do comportamento sedentário. A maioria dos estudos anteriores baseou-se em autorrelatos, que frequentemente não capturam com precisão o movimento diário total nem o tempo sedentário, especialmente em populações de mulheres idosas. Além disso, a aptidão cardiorrespiratória é um forte preditor de mortalidade, mas poucos estudos sobre força muscular conseguiram controlar adequadamente esse fator.

Do ponto de vista fisiopatológico, o processo de "inflammageing" (inflamação relacionada ao envelhecimento) resulta em disfunção mitocondrial e compromete o acoplamento excitação-contração do músculo esquelético. Embora a força muscular decline de forma acentuada ao longo da vida adulta, sua preservação é considerada um marcador crítico de resiliência, sendo fundamental para a manutenção da independência funcional, a prevenção de hospitalizações e a promoção da qualidade de vida.

Diante dessas lacunas, LaMonte e colaboradores (2026) investogaram a associação entre duas medidas clínicas comuns de força muscular e a mortalidade por todas as causas em uma coorte de mulheres ambulatoriais idosas (63 a 99 anos). O diferencial da pesquisa residiu no controle rigoroso de variáveis, utilizando acelerometria para medir objetivamente a atividade física e o comportamento sedentário, além de incluir a velocidade de caminhada como um indicador de aptidão cardiorrespiratória e o monitoramento da inflamação sistêmica.

A avaliação foi composta por 5.472 mulheres ambulatoriais, com idades entre 63 e 99 anos. Para garantir a precisão dos dados de movimentação diária, as participantes utilizaram acelerômetros triaxiais no quadril durante sete dias consecutivos, 24 horas por dia. Esse monitoramento permitiu que os pesquisadores categorizassem objetivamente o tempo gasto em comportamento sedentário, atividades leves e atividade física de moderada a vigorosa (MVPA), superando as limitações comuns de dados autorrelatados.

A avaliação da força muscular foi dividida em dois eixos principais. Primeiro, a força de preensão manual da mão dominante foi medida com um dinamômetro, realizando-se duas tentativas de esforço máximo em posição sentada, sendo o maior valor utilizado para a análise e classificado em quartis (1: <14 kg; 2: 14-19 kg; 3: 20-24 kg; e 4: >24 kg). Segundo, a força de membros inferiores foi estimada pelo tempo necessário para completar cinco repetições do teste de sentar e levantar da cadeira sem auxílio dos braços. Os resultados foram estratificados segundo os critérios do estudo Established Populations for the Epidemiologic Study of the Elderly (EPESE), variando de desempenhos superiores (≤11,1 segundos) a inferiores (≥16,7 segundos). Adicionalmente, foi realizado um teste de caminhada de 2,5 metros em ritmo habitual para servir como um proxy (indicador indireto) da aptidão cardiorrespiratória.

O desfecho principal analisado foi a mortalidade por todas as causas, com um acompanhamento médio de 8,4 anos e vigilância realizada por meio de questionários anuais e consultas ao Índice Nacional de Óbitos. Para o tratamento estatístico, foram aplicados modelos de regressão de riscos proporcionais de Cox com ajustes multivariados progressivos. Os modelos controlaram variáveis críticas como idade, raça/etnia, escolaridade, tabagismo, consumo de álcool, pressão arterial, índice de massa corporal (IMC), massa magra estimada e um escore de comorbidade que abrangia onze condições clínicas, incluindo doenças cardiovasculares, câncer e diabetes. Também foi considerada a influência da proteína C-reativa (PCR) em uma subamostra para avaliar o papel da inflamação sistêmica. Por fim, análises de sensibilidade foram conduzidas para mitigar o viés de causalidade reversa, excluindo óbitos ocorridos nos primeiros três e cinco anos de seguimento.

Os resultados revelaram que, durante um acompanhamento médio de 8,4 anos, ocorreram 1.964 óbitos (35,8% da amostra) entre as 5.472 participantes. As análises demonstraram uma associação inversa e progressiva entre os níveis de força muscular e a mortalidade por todas as causas. Para a força de preensão manual, as mulheres no quartil de maior desempenho apresentaram um risco de morte significativamente menor em comparação àquelas no quartil inferior. Mesmo após o ajuste multivariado completo para fatores sociodemográficos, estilo de vida e comorbidades clínicas, o quartil superior de preensão manual manteve uma redução de risco robusta e uma tendência linear significativa. m termos de medidas contínuas, cada aumento de um desvio-padrão na força de preensão manual (equivalente a 7 kg) foi associado a uma redução de 12% no risco de mortalidade no modelo multivariado.

O desempenho no teste de sentar e levantar da cadeira seguiu um padrão semelhante de proteção. Participantes que completaram as cinco repetições no tempo mais rápido apresentaram uma razão de risco (RR) de 0,49 no modelo inicial e de 0,63 no modelo multivariado completo, quando comparadas ao grupo com desempenho inferior (≥16,7 segundos). E

Um diferencial importante dos resultados foi a manutenção da significância estatística após o controle rigoroso por variáveis de movimento medidas por acelerometria. Quando o tempo sedentário e a atividade física de moderada a vigorosa (MVPA) foram adicionados simultaneamente aos modelos, as associações permaneceram inversas e significativas, com RRs de 0,70 para a preensão manual e 0,69 para o teste de sentar e levantar nos grupos de maior força. Da mesma forma, os benefícios da força muscular mantiveram-se independentes mesmo após o ajuste pela velocidade de caminhada e pelos níveis de proteína C-reativa.

As análises de subgrupos reforçaram a consistência desses achados em diferentes estratos de idade, raça, índice de massa corporal e níveis de atividade física. Um dado de grande relevância clínica foi que a maior força muscular associou-se a uma menor mortalidade inclusive em mulheres que não atingiam as metas recomendadas de atividade aeróbica (<150 min/semana) e naquelas que utilizavam auxílio para caminhar. Finalmente, a robustez dos dados foi confirmada por análises de sensibilidade que excluíram óbitos ocorridos nos primeiros três e cinco anos de seguimento, reduzindo a probabilidade de viés por causalidade reversa.

Em conclusão, a maior força muscular esquelética foi associada a uma mortalidade por todas as causas significativamente menor. Essa relação permaneceu evidente após o controle de diversos fortes fatores de risco para mortalidade e também entre mulheres que não atendiam às diretrizes de atividade aeróbica. Os achados reforçaram as recomendações que promovem a participação em atividades de fortalecimento muscular para um envelhecimento e uma longevidade ideais.