Noticias médicas

/ Publicado el 10 de mayo de 2026

Saúde

Fluoxetina demonstrou potencial para modular resposta inflamatória em infecções virais

Além do efeito antidepressivo, fármaco demonstrou potencial em modular lipídios celulares e conter resposta inflamatória exacerbada.

Autor/a: Yasmin Constante

Fuente: Jornal da USP

Um estudo conduzido por pesquisadores da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP-USP) apontou que a fluoxetina, amplamente utilizada no tratamento de depressão e transtornos de ansiedade, pode exercer efeitos relevantes na modulação da resposta inflamatória, especialmente em contextos como a infecção pelo SARS-CoV-2. Apesar dos resultados promissores, os autores reforçaram que o uso do medicamento deve permanecer restrito à prescrição médica.

A investigação avaliou o comportamento de macrófagos, células fundamentais da imunidade inata, após exposição a partículas inativadas do vírus da covid-19. Os resultados indicaram que a fluoxetina não atua diretamente na eliminação viral, mas parece reduzir sua agressividade, contribuindo para a atenuação da resposta inflamatória e, potencialmente, da gravidade clínica da doença.

Tradicionalmente, a fluoxetina atua como inibidor seletivo da recaptação de serotonina (ISRS), aumentando a disponibilidade desse neurotransmissor no sistema nervoso central. No entanto, o estudo identificou um mecanismo adicional relevante: a modulação de enzimas intracelulares, particularmente as esfingomielinases ácidas, envolvidas no metabolismo dos esfingolipídios, componentes essenciais das membranas celulares e mediadores de sinalização inflamatória.

A pesquisa demonstrou que a fluoxetina pode inibir o eixo esfingomielinase ácida–ceramida (Asmase-Cer), reduzindo a produção de ceramidas, lipídios associados à inflamação, morte celular e aumento da permeabilidade vascular. Em contrapartida, observou-se aumento de outros esfingolipídios, como a esfingomielina e a esfingosina-1-fosfato (S1P), que estão relacionados à manutenção da estabilidade celular e à modulação da inflamação.

Nos quadros mais graves de covid-19, a resposta imune exacerbada, conhecida como tempestade de citocinas, está associada ao aumento de mediadores inflamatórios, como interleucinas IL-6 e IL-1β. Segundo os pesquisadores, a fluoxetina foi capaz de reduzir a expressão desses mediadores, sugerindo uma diminuição da ativação dos macrófagos.

Esse efeito pode ocorrer em estágios iniciais da interação vírus-célula. Ao alterar a composição lipídica das membranas, o fármaco potencialmente dificulta o reconhecimento e a fusão do vírus com a célula hospedeira, funcionando como um mecanismo de “blindagem celular”.

Outro achado relevante diz respeito às vesículas extracelulares (VEs), estruturas envolvidas na comunicação entre células. Durante infecções virais, essas vesículas podem amplificar sinais inflamatórios para células vizinhas. O estudo mostrou que a fluoxetina não reduz a quantidade de VEs produzidas, mas altera sua composição molecular, especialmente no perfil lipídico. Essa modificação resulta em menor capacidade de induzir respostas inflamatórias em células adjacentes, contribuindo para limitar a propagação da inflamação.

Os experimentos foram realizados in vitro, utilizando macrófagos isolados, o que permite um controle preciso das variáveis, mas impõe limitações quanto à extrapolação direta para a prática clínica. Ainda assim, os autores destacam que os achados ajudam a explicar observações anteriores em estudos clínicos, nos quais pacientes em uso de fluoxetina ou fluvoxamina apresentaram menor probabilidade de evolução para formas graves de covid-19.

De acordo com os pesquisadores, pacientes em uso desses antidepressivos apresentaram menor necessidade de internação em unidades de terapia intensiva e menor demanda por suporte respiratório avançado.

Em resumo, os resultados reforçaram o potencial de reposicionamento de fármacos já estabelecidos como estratégia terapêutica adjuvante em doenças inflamatórias e infecciosas. No entanto, os autores ressaltam a necessidade de ensaios clínicos robustos para validar a eficácia e segurança dessa abordagem em humanos. Até que novas evidências estejam disponíveis, a fluoxetina não deve ser utilizada com essa finalidade fora das indicações aprovadas e sem orientação médica.


Fonte: Remédio antidepressivo pode ajudar a tratar doenças inflamatórias – Jornal da USP