Arte & Cultura

Publicado el 7 de noviembre de 2025

História da medicina

Fingir estar doente não é uma “desculpa” moderna

Desde a mitologia grega até os relatos médicos romanos, a simulação de enfermidades revela aspectos sociais e psicológicos da humanidade.

Autor/a: Konstantine Panegyres, The Conversation

Fuente: Medical Xpress A 2,000-year history of faking an illness

Um dos primeiros casos conhecidos de alguém fingindo estar doente para obter vantagem pessoal foi o de Odisseu.

Segundo uma versão da história, o herói da Odisseia de Homero, escrita por volta do século VIII a.C., fingiu estar mentalmente doente para evitar participar da guerra de Troia.

Para provar que não estava em condições para participar da guerra, Odisseu atrelou um boi e um burro a um arado e começou a semear sal na areia, entre outras ações alucinadas. No entanto, sua farsa foi desmascarada por Palamedes, que colocou o filho bebê de Odisseu na frente do arado. Odisseu parou para proteger o filho, revelando que não estava mentalmente debilitado.

Outro caso notário na história da medicina foi referente ao médico grego Galeno de Pérgamo (129–216 d.C.). Este conhecia bem o fenômeno de pessoas fingindo estarem doentes.

Em um de seus muitos livros, Galeno descreveu como um jovem escravo romano tentou escapar do trabalho alegando sentir dores intensas no joelho. Como parte da farsa, o escravo aplicava uma pomada venenosa no joelho para fazê-lo parecer inchado e machucado:

O escravo tinha um grande inchaço no joelho que assustaria pessoas sem conhecimento médico, mas alguém com experiência sabe claramente que foi causado pela droga chamada ‘thapsia’.”

Essa droga era a Thapsia garganica, uma planta venenosa que causa inflamação e inchaço.

Além disso, Galeno também percebeu a farsa através das descrições contraditórias da dor feitas pelo escravo. Ele dizia:

Sinto tensão em toda a articulação”, depois “sinto uma pulsação dentro dela”, ou “parece que há uma flecha cravada”, ou “parece que foi picado por agulhas”, ou “está pesado como uma pedra”, depois “sinto dor na perna inteira desse jeito” e então “o osso parece fraco.”

Na época, Galeno aplicou um “tratamento falso” para testar a reação do escravo:

“Disse a ele: ‘Vou aplicar um remédio no seu joelho, e a dor vai parar imediatamente.’ Então apliquei um fármaco que não aliviaria a sua dor, mas apenas resfriaria o calor gerado pela thapsia. O escravo confirmou, pouco depois, que a dor havia desaparecido completamente. Se a dor fosse causada por um inchaço quente de origem interna, esse medicamento teria intensificado a dor, e certamente não a aliviado.”

Como identificar uma farsa?

Galeno aconselhava aos médicos sobre como descobrir se um paciente estava fingindo estar doente. Isso incluía dizer ao paciente o que ele teria que abrir de algo que gosta mão para se curar:

Algumas pessoas gostam de beber vinho, outras gostam de comida, […] algumas gostam de tomar banho nas termas e outras gostam de sexo.”

Claramente, Galeno acreditava que as pessoas não fingiriam estar doentes se tivessem que renunciar a seus prazeres durante o tratamento.

Fingir estar doente é justificável?

Na Antiguidade, há registros de pessoas fingindo todo tipo de doença para obter vantagens pessoais, principalmente para evitar trabalho, serviço militar ou esconder um caso amoroso.

No entanto, em casos extremos, a mentira pode ter sido justificada.

No romance História Efésia de Xenofonte de Éfeso (séculos II–III d.C.), a heroína Anthia evita ser vendida como prostituta fingindo uma crise epiléptica.

Ela então mente dizendo que sempre sofreu de epilepsia, e é libertada.

Desculpas modernas

Nos tempos modernos, “dar uma desculpa de doença” se tornou um fenômeno bem conhecido.

Todos já viram histórias de pessoas que ligam dizendo estar doentes e depois aparecem na TV ou nas redes sociais bebendo em jogos de críquete ou futebol.

Esse fenômeno revela que a doença costuma despertar empatia, e essa permite que os enfermos se afastem de suas obrigações,embora possa ser explorada para obtenção de vantagens pessoais.

Galeno sabia disso muito bem, há cerca de 2.000 anos.