Profissionais de saúde apresentam risco aumentado para suicídio, especialmente em contextos de crise, como a pandemia da COVID-19. No entanto, ainda são escassos estudos longitudinais que avaliem fatores associados a tentativas de suicídio e hospitalizações psiquiátricas nessa população. Por isso, Damiano e colaboradores (2026) investigaram preditores desses desfechos em profissionais de saúde brasileiros que buscaram apoio emocional durante a pandemia.
Para isso, eles realizaram um estudo prospectivo que avaliou 3.087 profissionais de saúde brasileiros participantes de um ensaio clínico digital em saúde mental, recrutados em todo o país entre maio de 2020 e dezembro de 2021. A amostra de intenção de tratar (ITT) incluiu 2.815 participantes com dados basais completos.
Os desfechos avaliados foram tentativas de suicídio e hospitalizações psiquiátricas, acompanhados em 4, 12 e 24 semanas. As variáveis preditoras basais incluíram dados sociodemográficos, ideação suicida (item 9 do Patiente Health Questionnaire-9 [PHQ-9]), escores do PROMIS (depressão, ansiedade, irritabilidade e sono), satisfação com a vida e burnout.
Na amostra total, 53 participantes relataram tentativa de suicídio. Na amostra ITT (86% mulheres; idade média de 36,5 anos), 46 indivíduos realizaram ao menos uma tentativa de suicídio, totalizando 64 eventos, e 60 necessitaram de hospitalização psiquiátrica.
Os principais fatores associados de forma independente às tentativas de suicídio foram:
· Ideação suicida quase diária
· Distúrbios graves do sono
· Sexo masculino
A probabilidade de tentativa de suicídio em 24 semanas foi de 57,1% entre indivíduos com ideação suicida frequente associada a distúrbios do sono, em comparação a 1,2% entre aqueles sem esses fatores. Aproximadamente 40% do risco combinado foi atribuído à interação sinérgica entre ideação suicida e alterações do sono.
Um achado relevante foi que 28,3% das tentativas ocorreram em participantes que negavam ideação suicida no baseline, reforçando limitações da avaliação baseada apenas nesse critério.
Em relação às hospitalizações psiquiátricas, apenas a ideação suicida quase diária permaneceu como preditor significativo. Os resultados mantiveram-se consistentes após os ajustes estatísticos.
Em suma, a presença de ideação suicida frequente e distúrbios graves do sono apresentaram efeito sinérgico importante no aumento do risco de tentativas de suicídio entre profissionais de saúde brasileiros. Os achados reforçaram a necessidade de avaliações clínicas abrangentes, que incluam sistematicamente a investigação do sono, bem como o desenvolvimento de intervenções multicomponentes que abordem simultaneamente ideação suicida e alterações do sono nessa população.