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/ Publicado el 20 de febrero de 2023

Saúde ocular

Falta de acesso a serviços de saúde ocular compromete a agenda 2030 da ONU

Países da América Latina, Ásia e África precisam aumentar a cobertura e a qualidade da cirurgia de catarata e do acesso aos óculos para correção de erros refrativos

Encontrar um oftalmologista para tratar catarata ou corrigir uma miopia, por exemplo, não é tarefa fácil para parcela importante da população mundial. Apenas 10% das pessoas acima de 50 anos de idade na América Latina, Ásia e África têm suas necessidades de uso de óculos contempladas; em países ricos esse número chega a 80%. Já a cobertura efetiva da cirurgia de catarata, que deveria ser de 70%, conforme recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS), não passa dos 40% no Brasil. Os dados são do estudo Effective refractive error coverage in adults aged 50 years and older: estimates from population-based surveys in 61 countries publicado em outubro de 2022 na The Lancet Global Health.

Esses resultados mostraram, em números, as desigualdades no acesso aos serviços de saúde ocular entre regiões ricas e pobres do planeta. A questão, que relaciona boa visão com redução de pobreza e desigualdades sociais, já havia sido levantada em um outro estudo publicado na The Lancet Planetary Health, em fevereiro de 2022, trazendo evidências de que a melhoria da visão pode contribuir para o avanço dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) – Agenda 2030 -da Organização das Nações Unidas (ONU). São 17 objetivos interconectados – entre eles, erradicação da pobreza, fome zero, saúde e bem-estar, educação de qualidade, igualdade de gênero, água potável e saneamento, e energia limpa e acessível – que abordam os principais desafios de desenvolvimento enfrentados por pessoas no Brasil e no mundo.

Ainda que ambiciosas, considerando a realidade de países mais pobres, as metas para serem atingidas até 2030 devem incluir diminuição das desigualdades no acesso aos serviços e tratamento adequado aos problemas dos olhos. Considerando as enormes diferenças entre o ideal, preconizado pela OMS, e a realidade encontrada em locais mais pobres, como fechar a equação para o pretendido e melhorar em 40% a cobertura efetiva dos erros refrativos e em 30% a cobertura da cirurgia de catarata em todo o mundo? O caminho não será fácil e mudanças precisam ser feitas, em especial, nos países que têm menos acesso a recursos de saúde e profissionais despreparados para atender com qualidade a população.

Óculos para quem precisa

O estudo avaliou a cobertura da necessidade de correção de erros refrativos – miopia, astigmatismo e hipermetropia – e contou com 169 pesquisas oftalmológicas realizadas, a partir do ano 2000, em mais de meio milhão de pessoas em todo mundo. E mostrou que, enquanto a cobertura em países ricos chega a quase 80% da população acima dos 50 anos, em países da América Latina, Ásia e África apenas 10% das necessidades de uso de óculos são atendidas.

De acordo com João Marcello Fortes Furtado, professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, é necessário melhorar a cobertura para gerar maior qualidade de visão para as pessoas. “O indivíduo poderia enxergar melhor, render mais no trabalho e gerar mais renda se estivesse usando óculos”, diz. Apesar de considerar que ao longo do tempo tenha havido melhora significativa no acesso a esse serviço, ele pontua que ainda não é o suficiente e muito precisa ser melhorado.

Ele argumentou ainda que diagnosticar problemas de erros refrativos não é uma tarefa complexa, mas que nem todas as pessoas têm acesso a um profissional qualificado para receber o diagnóstico. Além desse obstáculo, muitas vezes a pessoa não consegue arcar com os custos de um óculos, o que impossibilita o tratamento. Segundo Furtado, essas são as principais barreiras que precisam ser quebradas para que haja uma melhora significativa da cobertura dos erros refrativos em nível mundial.

A pesquisa contou com um estudo brasileiro, feito na cidade de Parintins, interior do Estado do Amazonas, onde o resultado foi ruim. Furtado argumenta que o Brasil é um país heterogêneo, com regiões mais ricas e com mais acesso a recursos de saúde e regiões mais desfavorecidas, e que o resultado de uma cidade não necessariamente reflete o de todas as outras. Contudo, as dificuldades que o País enfrenta ainda são grandes, com “um amplo caminho que pode ser melhorado”. E, segundo o professor, “já sabemos como fazer e o que a gente precisa: aumentar o acesso e fazer com que os óculos cheguem ao rosto das pessoas que precisam”.