O peptídeo-1 semelhante ao glucagon (GLP-1) e polipeptídeo insulinotrópico dependente de glicose (GIP) são hormônios produzidos naturalmente pelo organismo que ajudam a regular os níveis de glicose no sangue após a alimentação. Agonistas do receptor de GLP-1 (GLP-1 RAs) são amplamente prescritos nos Estados Unidos para o tratamento do diabetes mellitus tipo 2 (DM2) e suas complicações. Apesar de sua eficácia, esses medicamentos apresentam diversos efeitos colaterais gastrointestinais negativos, incluindo náuseas, vômitos, diarreia, pancreatite, obstrução intestinal e, notavelmente, gastroparesia, que está associada ao supercrescimento bacteriano do intestino delgado (SIBO). Recentemente, foi relatado um caso em que a semaglutida causou intolerância à lactulose e ao glúten em uma paciente. Seis meses após a descontinuação do medicamento, a mesma foi diagnosticada com SIBO.
Sendo assim, Sun e colaboradores (2025) realizaram um estudo com o objetivo de avaliar a conexão entre o uso de GLP-1 RAs e a incidência de SIBO, quantificada por meio das taxas de casos clinicamente confirmados. Os objetivos secundários incluíram determinar a frequência de testes respiratórios de hidrogênio usados para diagnóstico, a duração média do acompanhamento e a proporção de pacientes que iniciaram tratamento direcionado dentro de uma semana após o diagnóstico de SIBO.
Para isso, eles realizaram um estudo de coorte retrospectivo utilizando banco de dados global TriNetX, identificando pacientes adultos com DM2 que iniciaram terapia com agonistas do receptor de GLP-1 ou agonistas duplos GLP-1/GIP, em comparação a outros agentes de segunda linha para DM2 (OSLT2DM), no período de 1º de janeiro de 2006 a 2 de dezembro de 2024. Pacientes com cirurgias abdominais importantes, distúrbios do tecido conjuntivo, gastroparesia ou outras condições de alto risco para SIBO foram excluídos. Os riscos de curto prazo (<1 ano) e longo prazo (até 5 anos) foram avaliados por meio de curvas de Kaplan–Meier e modelos de Cox univariados.
Foram identificados 9.159.059 pacientes adultos diagnosticados com DM2. Entre esses, 1.281.479 iniciaram terapia com GLP‑1 RA, agonistas duplos GLP/GIP (GLP‑1 RA/GIP) ou OSLT2DM entre o período do estudo. Após a aplicação dos critérios de exclusão, cada coorte ficou composta por 216.173 pacientes.
Foi observada uma associação significativa entre o início dessas terapias e o risco de SIBO no primeiro ano. Especificamente, na análise de 12 meses, os pacientes tratados com GLP-1/GIP apresentaram uma incidência de SIBO de 0,177 por 1000 pacientes-ano, comparado a 0,083 no grupo de controle.
Na análise de longo prazo (3 a 60 meses), as curvas de sobrevivência mostraram uma divergência sustentada entre os grupos (p = 0,017), embora o modelo de risco proporcional de Cox tenha indicado uma tendência de aumento de risco que não atingiu significância estatística total.
Sun e colaboradores (2025) acreditam que esses fármacos podem predispor ao SIBO ao reduzir a motilidade gastrointestinal e retardar o esvaziamento gástrico. Essas condições favorecem a proliferação bacteriana.
Em conclusão, os pesquisadores identificaram uma associação entre GLP-1 RA/GIP e um aumento na incidência de SIBO em comparação com outros medicamentos de segunda linha para diabetes. Dada a aplicação clínica generalizada e a eficácia comprovada de GLP-1 RAs, os profissionais de saúde devem permanecer cientes dos potenciais efeitos colaterais gastrointestinais. A triagem precoce para condição guiada pelos sintomas, com um teste respiratório de hidrogênio, pode ser justificada em pacientes que iniciam esses agentes. Finalmente, estudos prospectivos com protocolos diagnósticos padronizados são necessários. Pesquisas futuras devem se concentrar nos mecanismos que ligam a mudança na motilidade gastrointestinal, a microbiota intestinal e o SIBO, para melhorar a estratificação de risco e os cuidados preventivos.