O papel da função tireoidiana na rinite alérgica (RA) e na asma permanece pouco explorado. No entanto, estudos recentes encontraram associações intrigantes entre hormônios tireoidianos e alergias em indivíduos com RA, sugerindo um potencial vínculo entre essas condições.
Os hormônios tireoidianos (HTs) parecem desempenhar um papel regulador na modulação da função das células imunes. Eles exercem sua influência ligando-se a receptores de hormônio tireoidiano (RHTs) presentes nessas células, orquestrando diversos processos, incluindo a sua proliferação, diferenciação e apoptose. Por exemplo, a triiodotironina (T3) promove a indução da maturação da medula óssea de células dendríticas, associada à estimulação de células T em camundongos. No entanto, os HTs também induzem o aumento da apoptose de células T em linhagens de células linfocitárias humanas, sugerindo um papel dual na imunidade T. O hormônio estimulador da tireoide (TSH), por sua vez, foi sugerido como um mediador humoral dentro do sistema imunológico, de forma semelhante às citocinas.
Perturbações na função tireoidiana, como no hiper e hipotireoidismo, foram implicadas em doenças alérgicas, enfatizando a relevância clínica da avaliação do status da tireoide em pacientes com RA. Esse rastreio geralmente envolve a medição dos níveis de T3 e T4 totais/livres, e concentrações do TSH. Pesquisas indicaram que concentrações de TSH acima de 2,5 mIU/L, mesmo dentro da faixa de referência, podem constituir um fator de risco para a carga da doença.
Evidências emergentes também sugeriram uma interação potencial entre hormônios tireoidianos, índice de massa corporal (IMC) e inflamação mediada por células Th2 na RA. Além disso, níveis elevados de IgE podem correlacionar-se com altos índices de HTs, destacando potenciais conexões entre o eixo tireoidiano e a inflamação alérgica.
Apesar destas descobertas, a compreensão da complexa comunicação cruzada entre HTs e o sistema imunológico permanece incompleta. Por isso, Lokaj-Berisha e Lumezi (2025) realizaram um estudo com objetivo explorar as associações entre os níveis de hormônios tireoidianos, IgE e o IMC em pacientes com RA, com ou sem comorbidade de asma.
O estudo incluiu 116 participantes, com idade média de 29,55 anos, abrangendo 66 indivíduos com RA, 20 com RA e asma concomitante (RA+A) e 30 controles saudáveis. A proporção entre homens e mulheres foi de 50:66, e a idade média de início dos sintomas alérgicos foi de 14,7 anos. Foi reportado um histórico familiar positivo de atopia por 66,4% dos participantes.
Em relação ao IMC, pacientes com alergias respiratórias exibiram faixas normais, com valores médios semelhantes observados entre homens e mulheres. Além disso, não houve diferenças significativas no IMC entre os grupos de doença e controle.
Os resultados do teste cutâneo de puntura (SPT) destacaram uma sensibilidade predominante a ácaros da poeira doméstica (55,2%), com prevalência superior em comparação com pólen (21%), pelos de animais (4,43%) e mofo (4,25%). Notavelmente, foi observada uma prevalência ligeiramente maior de respostas positivas ao SPT entre indivíduos do sexo masculino para a maioria dos aeroalérgenos.
Conforme esperado, os níveis séricos totais de IgE em pacientes com alergias respiratórias foram significativamente elevados em comparação com os controles saudáveis (p < 0.05), independentemente do sexo. Pacientes do grupo RA+A apresentaram os níveis de IgE mais elevados em comparação com aqueles que tinham apenas RA.
Quanto aos hormônios tireoidianos (T3, T4 e TSH), a maioria dos participantes tinha concentrações séricas totais de T4 e T3 dentro da faixa normal. No entanto, diferenças significativas nos níveis séricos de T4 foram observadas entre os gêneros nos grupos de estudo e controle. Essas foram mais notáveis em pacientes do sexo masculino com RA em comparação com aqueles com RA+A, e em homens com RA em comparação com controles. As mulheres em todos os grupos também mostraram diferenças significativas no T4.
Cerca de 20% dos homens diagnosticados com RA + A apresentaram níveis de TSH que excederam o limite superior do normal, colocando-os em risco de hipotireoidismo subclínico. Em contraste, apenas 10% das mulheres no mesmo grupo de doença apresentaram níveis de TSH abaixo do limite normal, sugerindo propensão ao hipertireoidismo subclínico.
A análise de correlação de Pearson revelou várias associações significativas. Uma correlação positiva significativa foi encontrada entre idade e IMC em ambos os sexos (p < 0.001). A idade também foi associada ao início dos sintomas de alergia em ambos os sexos. Curiosamente, no grupo masculino, foi encontrada uma correlação negativa entre T4 e IMC, uma associação não observada em mulheres.
Ao analisar as correlações dentro dos grupos de doenças, os padrões variaram:
• No grupo RA, foi observada uma correlação positiva significativa entre idade e IMC e entre T3 e TSH.
• No grupo RA+A, houve correlação positiva entre idade e IMC (p < 0.05), e entre T3 e T4.
• O grupo controle saudável exibiu apenas uma correlação negativa significativa entre T4 e TSH.
Finalmente, nenhuma correlação foi identificada entre os níveis de IgE e outras variáveis nos grupos de pacientes ou controle, com exceção de uma correlação negativa positiva estatisticamente significativa entre IgE e idade em todas as participantes do sexo feminino.
Em conclusão, os achados indicaram que os pacientes com alergias respiratórias demonstraram níveis séricos de IgE significativamente elevados e alterações na função tireoidiana, particularmente concentrações elevadas de T4, sugerindo vias potenciais para intervenções terapêuticas direcionadas.