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Publicado el 3 de noviembre de 2025

Doenças negligenciadas

Exame de imagem acessível pode prever complicações cardíacas em pacientes com doença de Chagas

Pesquisa liderada pela USP, com colaboração internacional, revelou que exame simples de imagem cardíaca pode prever risco de morte em pacientes com doença de Chagas crônica, destacando o índice GLS como marcador sensível e independente para complicações da cardiomiopatia chagásica

A cardiomiopatia chagásica crônica é uma das manifestações mais graves da doença de Chagas em sua fase tardia. Provocada pelo parasita Trypanosoma cruzi, essa condição afeta progressivamente o músculo cardíaco, gerando inflamação, fibrose e insuficiência cardíaca. Mesmo após a fase aguda, a infecção pode permanecer silenciosa por décadas, até desencadear eventos como arritmias, embolias e morte súbita.

Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto, em colaboração com especialistas das universidades Duke e Yale, nos Estados Unidos, investigaram o uso de uma técnica avançada de ecocardiografia — chamada Strain — para avaliar o risco de complicações cardíacas em pacientes com Chagas. O método permite medir o índice de deformação longitudinal global (GLS), que indica como o miocárdio se contrai durante a sístole.

Segundo os autores, o GLS pode detectar alterações no tecido cardíaco antes mesmo da formação de cicatrizes visíveis. “Quando o músculo cardíaco não se deforma adequadamente, isso pode indicar a presença de fibrose entre os miócitos, o que está associado a maior risco de eventos adversos”, explicou Minna Moreira Dias Romano, professora da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto.

O estudo, financiado pela FAPESP, acompanhou 77 pacientes com cardiopatia chagásica crônica por cerca de três anos. Os participantes foram agrupados conforme os valores de GLS, e os pesquisadores observaram desfechos como morte, internações, taquicardia ventricular sustentada, novos casos de insuficiência cardíaca e eventos tromboembólicos.

Os resultados mostraram que pacientes com GLS igual ou superior a -13,8% apresentaram maior risco de complicações e óbito. Mesmo após ajustes estatísticos por idade, sexo e fração de ejeção do ventrículo esquerdo, o GLS manteve-se como um indicador independente de risco.

A técnica já é aplicada em outras cardiopatias, como no acompanhamento de pacientes oncológicos submetidos à quimioterapia. Os pesquisadores sugeriram que o mesmo método pode ser útil para monitorar a evolução da doença de Chagas, especialmente em regiões onde o diagnóstico ainda é pouco realizado.

Embora o exame seja mais acessível que a ressonância magnética com contraste — considerada padrão-ouro para detectar fibrose —, sua aplicação em larga escala ainda enfrenta desafios, como a necessidade de treinamento especializado para interpretação dos resultados. “Apesar disso, o GLS representa um avanço importante na estratificação de risco e pode auxiliar os profissionais de saúde na tomada de decisões clínicas mais precisas”, concluiu Romano.

O artigo Global longitudinal strain as a predictor of outcomes in chronic Chagas’ cardiomyopathy pode ser lido em: journals.plos.org/plosntds/article?id=10.1371/journal.pntd.0012941.