A hanseníase segue como um importante problema de saúde pública. O Brasil ocupa a segunda posição mundial em número de casos, atrás apenas da Índia, concentrando a maior parte das notificações nas Américas. O diagnóstico precoce é fundamental para interromper a transmissão, evitar incapacidades permanentes e melhorar o prognóstico dos pacientes. Diante disso, um novo método diagnóstico que associa exame de sangue, questionário clínico estruturado e inteligência artificial, desenvolvida por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), mostrou potencial para reduzir os atrasos diagnósticos da doença no Brasil.
O estudo foi conduzido por equipes da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP), envolvendo áreas de clínica médica, imunologia, bioquímica e medicina social, com apoio da FAPESP. Os resultados foram publicados na revista BMC Infectious Diseases e indicaram que a combinação de ferramentas aumenta significativamente a sensibilidade da triagem em comparação aos métodos laboratoriais tradicionais.
Apesar de ser conhecida há séculos, a hanseníase continua sendo diagnosticada tardiamente em muitos casos, especialmente nas fases iniciais, quando os sinais clínicos são discretos. A ausência de testes laboratoriais suficientemente sensíveis e a baixa suspeição clínica contribuem para esse cenário, aumentando o risco de sequelas neurológicas e transmissão contínua.
Atualmente, o principal marcador sorológico utilizado é o anticorpo anti-PGL-I, que tende a positivar apenas em formas mais avançadas da doença, quando a carga bacilar já é elevada. Isso limita sua utilidade como ferramenta de rastreamento precoce.
Novo biomarcador amplia a sensibilidade da triagem
No novo estudo, os pesquisadores avaliaram a resposta imunológica contra o antígeno Mce1A, uma proteína do Mycobacterium leprae associada à invasão e sobrevivência da bactéria nas células humanas. Diferentemente do teste tradicional, o exame analisa três classes de anticorpos, IgA, IgM e IgG, o que permite uma leitura mais ampla do contato com o bacilo, da infecção ativa e de exposições prévias.
Segundo os autores, o anticorpo IgM anti-Mce1A apresentou o melhor desempenho individual, sendo capaz de identificar aproximadamente dois terços dos casos confirmados no estudo.
Além do exame sorológico, a estratégia de triagem incluiu um questionário clínico de suspeição de hanseníase (QSH), composto por 14 perguntas com foco em sintomas neurológicos e alterações sensoriais precoces. Esse instrumento foi integrado a um sistema de inteligência artificial denominado MaLeSQs, desenvolvido para identificar padrões de risco e priorizar encaminhamentos.
A combinação do questionário com o exame de sangue elevou a sensibilidade do método a 100%, ou seja, todos os casos posteriormente confirmados na avaliação clínica especializada foram previamente sinalizados pela triagem.
Estudo populacional e novos diagnósticos
A pesquisa utilizou amostras de sangue coletadas durante um inquérito sorológico de COVID-19 realizado em Ribeirão Preto, durante a pandemia. A partir desse banco de dados, cerca de 700 pessoas foram convidadas a participar do estudo sobre hanseníase. Dentre os participantes que responderam ao questionário, realizaram exames laboratoriais e compareceram à avaliação clínica presencial, 12 novos casos da doença foram diagnosticados, muitos deles em indivíduos que não apresentavam sinais evidentes nem suspeitavam da infecção.
Do ponto de vista operacional, o novo exame apresenta baixo custo e fácil execução, utilizando técnicas já rotineiras em laboratórios de análises clínicas. A principal diferença em relação aos testes atuais está no antígeno analisado, o que facilita sua eventual incorporação à rede pública de saúde.
Os pesquisadores defenderam que a estratégia pode fortalecer a triagem na atenção básica, direcionando de forma mais eficiente os pacientes que realmente necessitam de avaliação especializada, otimizando recursos e reduzindo atrasos no diagnóstico.