Noticias médicas

/ Publicado el 7 de mayo de 2023

Transplante de órgãos

Estudo utiliza sangue de porco e veneno de cobra para aprimorar transplantes de pulmão

Ao conectar o sistema circulatório de um porco vivo aos pulmões doados, os pesquisadores conseguiram quadruplicar o tempo de preservação do órgão fora do corpo humano.

Em artigo publicado na revista Science Advances, pesquisadores da Vanderbilt University Medical Center, em Nashville, nos EUA, desenvolveram um novo método para aumentar a viabilidade do transplante de pulmão. Ao conectar o sistema circulatório de um porco vivo aos pulmões doados, com a ajuda de um imunossupressor encontrado no veneno da cobra naja, eles conseguiram quadruplicar o tempo de preservação do órgão fora do corpo humano.

De acordo com Flávio Galvão, cirurgião, pesquisador e professor associado ao Departamento de Gastroenterologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina (FM) da USP, o transplante de pulmão é um procedimento delicado. Existe uma janela de apenas seis horas desde a remoção do órgão até o transplante, o que exige agilidade dos profissionais de saúde. “Essa pesquisa fez um achado interessante. Depois de um dia, eles viram que esse pulmão ainda estava muito bem preservado”, destaca o professor.

Galvão, que não participou da pesquisa, explicou que o estudo internacional tentou criar um tipo de sistema de perfusão. Atualmente, esse trabalho é realizado por uma máquina que simula a circulação humana e pode auxiliar na preservação dos órgãos já removidos dos doadores. Porém, o cirurgião pontua que “ela [a máquina] tem um tamanho razoável, um peso razoável e encarece muito o transplante”, por isso, raramente é utilizada nesse processo.

Ao fazer uso do sistema circulatório de um suíno vivo no lugar da máquina, os pesquisadores conseguiram desenvolver um método potencialmente mais flexível e barato. Contudo, um dos maiores empecilhos dessa pesquisa é a rejeição hiperaguda, processo que leva a uma rápida degeneração dos órgãos e “acontece quando animais muito díspares são transplantados”, esclarece ele.

Para o especialista, o destaque do novo artigo foi o método pelo qual os pesquisadores contornaram esse problema. Foram utilizados diversos imunossupressores para evitar a degeneração do pulmão, incluindo uma substância encontrada no veneno da cobra naja. Segundo o professor, “esse veneno da cobra interfere justamente no sistema imunológico do corpo, evitando assim a rejeição hiperaguda”.

O estudo faz parte de um campo de pesquisa dedicado ao transplante de órgãos e tecidos de animais em seres humanos, o xenotransplante. Os procedimentos que envolvem essa técnica ainda se encontram em fase experimental e teoricamente podem agilizar consideravelmente o transplante de órgãos. Entretanto, Galvão informa que essa linha de pesquisa levanta uma série de problemas éticos e de segurança, incluindo “a possibilidade de o porco causar uma pandemia decorrente de viroses ligadas à sua própria genética”.

Em vista de tudo isso, o professor conclui que, embora esses procedimentos estejam em fase experimental, a doação de órgãos ainda é a única alternativa viável para salvar a vida dos pacientes que aguardam um transplante. “Um dos maiores gargalos do transplante é a carência de doadores de órgãos e isso, infelizmente, é um problema sério”, alerta.

Crea una cuentao iniciar sesión para continuar con la lectura