Conhecidos por sua função no controle da pressão arterial, os barorreceptores aórticos podem desempenhar um papel muito mais amplo do que se imaginava. Um estudo publicado na revista Basic Research in Cardiology, conduzido por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade de Auckland, na Nova Zelândia, demonstrou que esses sensores também são capazes de detectar processos inflamatórios no organismo.
A pesquisa foi liderada pela fisiologista Fernanda Brognara e investigou os barorreceptores localizados no arco aórtico, bem como o nervo depressor aórtico, responsável por transmitir informações desses sensores ao tronco cerebral. Utilizando modelos experimentais em ratos, os cientistas avaliaram como essas estruturas respondem à inflamação sistêmica.
Os resultados mostraram que o nervo depressor aórtico possui componentes típicos do sistema imune inato, incluindo receptores capazes de reconhecer sinais inflamatórios. Além disso, durante estados inflamatórios, observou-se aumento da expressão de mediadores inflamatórios diretamente nesse nervo, sugerindo que ele atua em constante vigilância imunológica.
Outro achado importante foi a alteração da atividade elétrica do nervo durante a inflamação. Mesmo com a queda da pressão arterial observada nos animais, a atividade neural aumentou, indicando que o estímulo não estava relacionado apenas às alterações mecânicas dos vasos sanguíneos, mas também à presença de mediadores inflamatórios circulantes.
Segundo os autores, a descoberta desafia um conceito estabelecido há mais de um século, no qual os barorreceptores eram considerados exclusivamente sensores mecânicos. Os resultados sugerem que essas estruturas também funcionam como sensores imunológicos, atuando como um elo importante entre o sistema nervoso e o sistema imune.
Os pesquisadores acreditam que o entendimento desse novo circuito neuroimune poderá contribuir para o desenvolvimento de futuras estratégias terapêuticas em doenças cardiovasculares e inflamatórias. No futuro, técnicas de estimulação dos barorreceptores, já estudadas no tratamento da hipertensão arterial, poderão ser avaliadas também como ferramentas para modular respostas inflamatórias.