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/ Publicado el 9 de abril de 2026

Autismo

Estudo revelou dificuldades no acesso ao diagnóstico e às terapias para pessoas com autismo no Brasil

Apenas 15,5% dos entrevistados fazem terapias na rede pública de saúde

Autor/a: Paula Laboissière

Fuente: Agência Brasil

Um levantamento inédito sobre o transtorno do espectro autista (TEA) no Brasil apontou que o acesso ao diagnóstico e às terapias especializadas ainda é restrito, especialmente na rede pública de saúde. Os dados são do Mapa Autismo Brasil (MAB), estudo lançado pelo Instituto Autismos que traça o primeiro perfil sociodemográfico nacional de pessoas autistas e de seus cuidadores.

A pesquisa foi realizada entre março e julho de 2025 e reuniu 23.632 respostas online, abrangendo participantes de todos os estados brasileiros. Do total, 16.807 entrevistas foram respondidas por responsáveis por pessoas autistas, 4.604 por adultos autistas e 2.221 por pessoas que se identificam simultaneamente como autistas e cuidadores.


Diagnóstico ainda concentrado fora do SUS

Apesar de o Sistema Único de Saúde (SUS) ser responsável por grande parte da assistência médica no país, apenas 20,4% dos entrevistados relataram ter recebido o diagnóstico de TEA pela rede pública. Em contrapartida, 55,2% informaram diagnóstico na rede privada e 23% por meio de planos de saúde.

O estudo chamou atenção para desigualdades regionais: nas regiões Norte e Nordeste, a dependência do SUS para confirmação diagnóstica é maior. Segundo o Instituto Autismos, a necessidade de acesso a especialistas, como neurologistas, neuropediatras e psiquiatras, responsáveis por quase 90% dos diagnósticos, contribui para a limitação da oferta, sobretudo em localidades com menor cobertura assistencial.

Em relação à idade, pouco mais da metade dos diagnósticos ocorre até os 4 anos de vida, mas a média geral permanece elevada, em torno de 11 anos, indicando que uma parcela relevante das pessoas ainda recebe o diagnóstico tardiamente, o que pode comprometer intervenções precoces.


Baixa cobertura de terapias pelo sistema público

O acesso às terapias também se mostra limitado. Apenas 15,5% dos entrevistados realizam acompanhamento terapêutico pelo SUS, enquanto mais de 60% recorrem a planos de saúde ou ao pagamento direto para garantir o atendimento.

As terapias mais citadas foram psicoterapia, terapia ocupacional, fonoaudiologia, psicopedagogia e análise do comportamento aplicada (ABA). Ainda assim, 16,4% declararam não realizar nenhum tipo de terapia.

Mesmo entre aqueles que recebem acompanhamento, a carga horária semanal é considerada insuficiente. A maioria informou realizar até duas horas de terapia por semana, valor abaixo do recomendado por diretrizes internacionais, que preconizam intervenções multidisciplinares mais intensivas, especialmente nos casos com maior necessidade de suporte.


Perfil da população autista entrevistada

 A maioria dos participantes é composta por crianças e adolescentes, com 72,1% dos respondentes com até 17 anos, e 65,3% do sexo masculino. Em relação ao nível de suporte, 53,7% foram classificados no nível 1, enquanto 12,6% necessitam de suporte elevado (nível 3).

Entre as comorbidades associadas ao TEA, destacam-se TDAH, transtornos de ansiedade, distúrbios do sono, alterações gastrointestinais e transtornos de linguagem. O estudo também identificou diversidade nos aspectos de comunicação, incluindo pessoas não verbais e usuárias de comunicação alternativa.

A pesquisa evidenciou impactos significativos na vida das famílias. Entre os cuidadores, 96% são pais ou mães, sendo a maioria mulheres. Cerca de 30% relataram estar desempregados ou sem renda, indicando que as demandas de cuidado influenciam diretamente a inserção no mercado de trabalho.

No campo educacional, embora mais de 80% das pessoas autistas frequentem a escola, quase 40% não recebem qualquer tipo de apoio educacional especializado, como mediador escolar ou adaptações pedagógicas, o que aponta falhas na efetivação das políticas de educação inclusiva.

Entre adultos autistas, aproximadamente 30% estão desempregados ou sem renda, reforçando os desafios de inclusão social e profissional ao longo da vida.


Segundo o Instituto Autismos, os resultados do Mapa Autismo Brasil ampliaram a compreensão do cenário nacional ao integrar dados sobre acesso a serviços, condições socioeconômicas e necessidades de suporte, complementando informações recentes do Censo Demográfico do IBGE, que estimou 2,4 milhões de pessoas com TEA no país.

Para a entidade, os achados reforçaram a urgência de expandir o acesso ao diagnóstico precoce, qualificar a oferta de terapias no SUS e fortalecer políticas intersetoriais nas áreas da saúde, educação e assistência social, de forma a garantir cuidado adequado e redução das desigualdades enfrentadas pela população autista no Brasil.


Fonte: Autismo: pesquisa aponta baixo acesso a diagnóstico e terapias | Agência Brasil