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/ Publicado el 13 de noviembre de 2024

Distúrbios pulmonares

Esclarecendo a face do pulmão da cannabis

Avaliação da função pulmonar de indivíduos usuários de cannabis

Autor/a: Bocchino, M. et al. (2024)

Fuente: JBP Clarifying the face of cannabis lung

Introdução

A cannabis, popularmente conhecida como maconha, é uma substância psicoativa, frequentemente associada ao consumo ilícito. Pode ser utilizada por meio de diferentes vias, como fumo, vaporização, ingestão em alimentos, infusões ou em forma de tintura. Estudos indicaram que a inalação da substância pode estar associada ao desenvolvimento de lesões pulmonares. Nesse contexto, Bocchino e colaboradores (2024) avaliaram a função pulmonar de seis jovens que fumavam a cannabis, todos do sexo masculino.

Métodos

O estudo incluiu seis participantes do sexo masculino, usuários de cannabis, que apresentaram comprometimento pulmonar no período entre setembro de 2022 e dezembro de 2023. A média de idade dos participantes foi de 31,6 anos, com um IMC médio de 21,3 kg/m². Coletivamente, os indivíduos faziam uso de cannabis de 5 até 20 anos, consumindo entre 1 e 10 cigarros de cannabis ("baseados") por dia. Nenhum dos participantes era fumante de tabaco, nem possuía diagnóstico prévio de doença pulmonar crônica.

Resultados

Todos os participantes foram submetidos a exames de sangue e tomografia computadorizada (TC) do tórax. Um dos pacientes, com 25 anos, relatou um histórico de dispneia aos esforços por seis meses; ele havia fumado de 4 a 5 cigarros de cannabis por dia durante cinco anos. Desses, quatro outros pacientes, com idades entre 23 e 45 anos, consumiam de 2 a 5 cigarros de cannabis diariamente, por um período de 5 a 20 anos, e procuraram o pronto-socorro com dor torácica aguda e dispneia, todos apresentando pneumotórax espontâneo, que exigiu drenagem. O último paciente era um usuário crônico de cannabis de 32 anos, com dispneia de esforço prolongada. Em dois dos pacientes sem pneumotórax, foi detectado um padrão ventilatório leve restritivo, juntamente com uma redução discreta na capacidade de difusão pulmonar (DLCO) de respiração única.

Tabela 1. Achados da TC de tórax relacionados à cannabis. Tabela adaptada de Bocchino et al. (2024).

Discussão

O dano pulmonar causado pelo uso de cannabis ainda é subdiagnosticado, em grande parte devido ao seu reconhecimento limitado. A apresentação clínica pode ser insidiosa, com casos de pneumotórax surgindo de forma espontânea e aparentemente idiopática. O termo 'pulmão de cannabis' é definido com base em achados de imagem, como a presença de grandes bolhas, predominantemente nas regiões apicais, em indivíduos com histórico de uso de cannabis.

Entretanto, essas características são inespecíficas, pois frequentemente foram associadas ao uso concomitante de tabaco em relatos de casos anedóticos. Ainda há uma escassez de estudos que caracterizem com precisão os achados radiológicos atribuíveis exclusivamente ao uso de cannabis. O mecanismo por trás da formação de bolhas parece envolver a toxicidade pulmonar, combinada com oscilações na pressão pleural e barotrauma das vias aéreas, sendo os dois últimos causados pelas elevadas pressões inspiratórias associadas ao fumo de cannabis.

Comparativamente aos fumantes de tabaco, os usuários de cannabis dão tragadas mais profundas, inalam com maior intensidade e retêm a respiração por mais tempo. Os danos pulmonares causados pela cannabis podem ir além da formação de bolhas. A exposição de curto prazo à cannabis pode induzir broncodilatação, devido à ação do delta-9-tetrahidrocanabinol (THC), seu principal componente psicoativo. No entanto, a exposição prolongada está associada a sintomas respiratórios, como tosse, produção de catarro e respiração ofegante, sem necessariamente causar obstrução brônquica.

Conclusão

Os aspectos clínicos desses pacientes não devem ser negligenciados, especialmente porque podem ajudar a diferenciar o 'pulmão de cannabis' de outros distúrbios pulmonares induzidos pelo tabaco, com os quais pode ser confundido. Além disso, merece destaque a consideração sobre o potencial de evolução da doença. Embora os dados atuais sejam inconclusivos, o risco de desenvolvimento de câncer de pulmão a longo prazo não pode ser descartado. Por fim, este é um tópico intrigante que requer maior investigação em estudos futuros.