Uma das doenças mais antigas da humanidade, com relatos desde 600 a.C., a hanseníase é um grave problema de saúde pública, especialmente no Brasil. O país registra o segundo maior número de casos mundial. Além disso, entre as pessoas acometidas anualmente, mais de duas mil são diagnosticadas de forma tardia, com lesões neurológicas que provocam deformidades visíveis e prejudicam a visão ou o movimento das mãos e dos pés.
Com o objetivo de rastrear casos suspeitos de hanseníase e contribuir para o diagnóstico precoce da doença, pesquisadores da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP elaboraram um questionário aplicado por agentes comunitários de saúde em Jardinópolis, interior de São Paulo.
Os participantes responderam quatorze questões sobre os sinais e sintomas relacionados à doença. Por exemplo, o participante informou se sentia dormência nas mãos ou nos pés, formigamentos, câimbras, dor nos nervos, se tinha histórico na família com hanseníase, etc. O questionário pode ser encontrado de forma gratuita aqui.
Após a aplicação de 3.241 testes, os pesquisadores descobriram sinais de uma endemia, ou seja, quando a doença é comum em uma determinada região, no caso, Jardinópolis. Um ou mais sintomas da hanseníase foi relatado por 32,5% dos participantes. Os pesquisadores decidiram seguir com a avaliação de 479 dos entrevistados e diagnosticaram 64 moradores contaminados, ou seja, a taxa de detecção de novos casos foi de 13,4%.
Os resultados do estudo indicaram a endemia oculta em uma cidade de um estado que é uma região não endêmica. O desfecho serviu de alerta para a os formuladores de políticas públicas e para a comunidade científica: a cadeia de transmissão só será quebrada e controlada por meio de detecção de casos através de profissionais capazes de reconhecer todas as formas clínicas da doença, especialmente nas apresentações leves, em conjunto com adequado acompanhamento clínico e terapêutico.
A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) desenvolveu uma ferramenta que pode contribuir ao enfrentamento da Hanseníase. Baseado na metodologia de PCR, o Kit NAT Hanseníase obteve registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O exame consegue detectar o DNA do bacilo Mycobacterium leprae e pode facilitar a detecção precoce da doença.
Os pesquisadores ressaltaram a importância da aplicação de uma metodologia de ponta contra uma doença negligenciada. Com o Kit Nat Hanseníase, os pesquisadores foram capazes de trazer um teste nacional, com qualidade, que pode contribuir para a saúde da população.
Cerca de 70% das pessoas com hanseníase são diagnosticadas na atenção básica, pelo clínico geral, sem necessidade de exames complementares. Quando há incertezas, os pacientes são encaminhados ao dermatologista. Porém, existem casos que mesmo esses especialistas têm dificuldade de confirmar o diagnóstico. Nestas situações, o médico solicita a biópsia, que é a retirada de fragmentos da pele para análise.
Os exames atualmente disponíveis são a baciloscopia, que busca visualizar a bactéria, e a histopatologia, que analisa alterações do tecido. Em relação a essas técnicas, o teste molecular apresenta uma vantagem importante: o aumento da sensibilidade. O primeiro costuma ser negativo nos pacientes que apresentam pouca lesão na pele e o segundo apresenta uma sensibilidade de 35%, enquanto o PCR apresenta 57%. A combinação desses pode elevar a sensibilidade para 65%.
O novo teste da Fiocruz poderá otimizar a detecção, de forma a responder com mais sensibilidade e precisão em relação aos exames disponíveis, e será disponível gratuitamente pelo SUS à população brasileira.
Publicado el 29 de enero de 2022
Dia Mundial da Hanseníase
Endemia oculta da Hanseníase
O Brasil registra o segundo maior número de casos do mundo da doença
Autor/a: Filho, Bernado; Silva, Cláudia; Voltan, Glauber et al.
Fuente: Active search strategies, clinicoimmunobiological determinants and training for implementation research confirm hidden endemic leprosy in inner São Paulo, Brazil
Uma das doenças mais antigas da humanidade, com relatos desde 600 a.C., a hanseníase é um grave problema de saúde pública, especialmente no Brasil. O país registra o segundo maior número de casos mundial. Além disso, entre as pessoas acometidas anualmente, mais de duas mil são diagnosticadas de forma tardia, com lesões neurológicas que provocam deformidades visíveis e prejudicam a visão ou o movimento das mãos e dos pés.
Com o objetivo de rastrear casos suspeitos de hanseníase e contribuir para o diagnóstico precoce da doença, pesquisadores da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP elaboraram um questionário aplicado por agentes comunitários de saúde em Jardinópolis, interior de São Paulo.
Os participantes responderam quatorze questões sobre os sinais e sintomas relacionados à doença. Por exemplo, o participante informou se sentia dormência nas mãos ou nos pés, formigamentos, câimbras, dor nos nervos, se tinha histórico na família com hanseníase, etc. O questionário pode ser encontrado de forma gratuita aqui.
Após a aplicação de 3.241 testes, os pesquisadores descobriram sinais de uma endemia, ou seja, quando a doença é comum em uma determinada região, no caso, Jardinópolis. Um ou mais sintomas da hanseníase foi relatado por 32,5% dos participantes. Os pesquisadores decidiram seguir com a avaliação de 479 dos entrevistados e diagnosticaram 64 moradores contaminados, ou seja, a taxa de detecção de novos casos foi de 13,4%.
Os resultados do estudo indicaram a endemia oculta em uma cidade de um estado que é uma região não endêmica. O desfecho serviu de alerta para a os formuladores de políticas públicas e para a comunidade científica: a cadeia de transmissão só será quebrada e controlada por meio de detecção de casos através de profissionais capazes de reconhecer todas as formas clínicas da doença, especialmente nas apresentações leves, em conjunto com adequado acompanhamento clínico e terapêutico.
A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) desenvolveu uma ferramenta que pode contribuir ao enfrentamento da Hanseníase. Baseado na metodologia de PCR, o Kit NAT Hanseníase obteve registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O exame consegue detectar o DNA do bacilo Mycobacterium leprae e pode facilitar a detecção precoce da doença.
Os pesquisadores ressaltaram a importância da aplicação de uma metodologia de ponta contra uma doença negligenciada. Com o Kit Nat Hanseníase, os pesquisadores foram capazes de trazer um teste nacional, com qualidade, que pode contribuir para a saúde da população.
Cerca de 70% das pessoas com hanseníase são diagnosticadas na atenção básica, pelo clínico geral, sem necessidade de exames complementares. Quando há incertezas, os pacientes são encaminhados ao dermatologista. Porém, existem casos que mesmo esses especialistas têm dificuldade de confirmar o diagnóstico. Nestas situações, o médico solicita a biópsia, que é a retirada de fragmentos da pele para análise.
Os exames atualmente disponíveis são a baciloscopia, que busca visualizar a bactéria, e a histopatologia, que analisa alterações do tecido. Em relação a essas técnicas, o teste molecular apresenta uma vantagem importante: o aumento da sensibilidade. O primeiro costuma ser negativo nos pacientes que apresentam pouca lesão na pele e o segundo apresenta uma sensibilidade de 35%, enquanto o PCR apresenta 57%. A combinação desses pode elevar a sensibilidade para 65%.
O novo teste da Fiocruz poderá otimizar a detecção, de forma a responder com mais sensibilidade e precisão em relação aos exames disponíveis, e será disponível gratuitamente pelo SUS à população brasileira.