Um estudo realizado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) trouxe novos insights sobre o impacto do efeito sanfona na saúde metabólica de mulheres jovens. A pesquisa mostrou que sucessivos ciclos de perda de peso intencional seguidos de reganho não planejado estão associados a piores indicadores cardiometabólicos e a uma menor atividade da gordura marrom — tecido especializado no gasto energético. Os achados sugerem que o principal problema não é apenas oscilar de peso, mas sim o aumento progressivo da adiposidade corporal ao longo do tempo.
Diferentemente do tecido adiposo branco, que armazena energia, a gordura marrom (BAT – brown adipose tissue) tem função termogênica: utiliza glicose e lipídios para gerar calor, contribuindo diretamente para o gasto energético. Essa característica se deve à alta concentração de mitocôndrias, responsáveis pelo tom acastanhado e pela grande atividade metabólica do tecido.
Embora anteriormente se acreditasse que esse tipo de gordura estivesse presente apenas em recém-nascidos, desde 2009 sabe-se que adultos também possuem BAT, especialmente na região supraclavicular. Desde então, seu papel no manejo da obesidade, diabetes e dislipidemias tem sido amplamente investigado.
A pesquisa avaliou 121 mulheres entre 20 e 41 anos, com diferentes faixas de índice de massa corporal (IMC). Elas foram divididas em dois grupos:
- Sem histórico de efeito sanfona
- “Cicladoras”, ou seja, mulheres que relataram pelo menos três ciclos de emagrecimento intencional e reganho involuntário de 4,5 kg ou mais nos últimos quatro anos — padrão frequentemente relacionado a dietas restritivas.
Para medir a atividade do BAT, as participantes passaram por um protocolo de exposição ao frio controlado (18 ºC). A mudança de temperatura foi monitorada por termografia infravermelha na região supraclavicular, área onde o BAT é mais ativo. Também foram analisados parâmetros como percentuais de gordura total e visceral, glicemia, perfil lipídico e pressão arterial.
O frio moderado foi utilizado porque ativa a gordura marrom sem induzir tremores, o que poderia interferir no gasto energético medido.
As mulheres classificadas como “cicladoras” apresentaram maior gordura corporal total, maior acúmulo de gordura visceral, piores indicadores metabólicos e menor ativação da gordura marrom durante a exposição ao frio.
Inicialmente, os dados sugeriam que o efeito sanfona por si só reduziria a atividade do BAT. Porém, análises estatísticas mais detalhadas mostraram que essa associação é indireta: o que realmente diminui a atividade da gordura marrom é o aumento da adiposidade, que tende a se agravar com repetidos ciclos de perda e recuperação de peso.
Segundo a equipe, cada dieta restritiva ativa mecanismos compensatórios do organismo — redução do gasto energético basal, alterações hormonais na fome e na saciedade e maior eficiência no armazenamento de energia. Quando o peso é recuperado, quase sempre retorna na forma de gordura, e não de massa magra. Esse processo favorece o aumento gradual da gordura corporal e da gordura visceral, que está diretamente relacionada à menor atividade do BAT.
Apesar de a atividade da gordura marrom não ser mensurável em exames clínicos de rotina, os achados reforçaram que tratar a obesidade não pode se limitar a reduzir números na balança. Estratégias eficazes devem priorizar redução sustentada do percentual de gordura, preservação de massa muscular, intervenção multiprofissional e mudanças comportamentais duradouras.
A pesquisadora também destacou que, embora a gordura marrom possa ser estimulada por atividade física, diminuição da gordura corporal e até exposição ao frio, ela não deve ser encarada como solução única para o emagrecimento. Seu papel mais importante está relacionado à melhora do metabolismo da glicose e dos lipídios, oferecendo proteção adicional contra diabetes e doenças cardiovasculares.
Publicado el 1 de febrero de 2026
Saúde
Efeito sanfona reduz atividade da gordura marrom e piora perfil metabólico em mulheres
Pesquisa da Unicamp envolveu 121 mulheres entre 20 e 41 anos, com diferentes faixas de IMC.
Autor/a: Fernanda Bassette
Fuente: Agência FAPESP https://agencia.fapesp.br/efeito-sanfona-prejudica-o-metabolismo-e-reduz-a-atividade-da-gordura-marrom-em-mulheres/57058
Um estudo realizado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) trouxe novos insights sobre o impacto do efeito sanfona na saúde metabólica de mulheres jovens. A pesquisa mostrou que sucessivos ciclos de perda de peso intencional seguidos de reganho não planejado estão associados a piores indicadores cardiometabólicos e a uma menor atividade da gordura marrom — tecido especializado no gasto energético. Os achados sugerem que o principal problema não é apenas oscilar de peso, mas sim o aumento progressivo da adiposidade corporal ao longo do tempo.
Diferentemente do tecido adiposo branco, que armazena energia, a gordura marrom (BAT – brown adipose tissue) tem função termogênica: utiliza glicose e lipídios para gerar calor, contribuindo diretamente para o gasto energético. Essa característica se deve à alta concentração de mitocôndrias, responsáveis pelo tom acastanhado e pela grande atividade metabólica do tecido.
Embora anteriormente se acreditasse que esse tipo de gordura estivesse presente apenas em recém-nascidos, desde 2009 sabe-se que adultos também possuem BAT, especialmente na região supraclavicular. Desde então, seu papel no manejo da obesidade, diabetes e dislipidemias tem sido amplamente investigado.
A pesquisa avaliou 121 mulheres entre 20 e 41 anos, com diferentes faixas de índice de massa corporal (IMC). Elas foram divididas em dois grupos:
Para medir a atividade do BAT, as participantes passaram por um protocolo de exposição ao frio controlado (18 ºC). A mudança de temperatura foi monitorada por termografia infravermelha na região supraclavicular, área onde o BAT é mais ativo. Também foram analisados parâmetros como percentuais de gordura total e visceral, glicemia, perfil lipídico e pressão arterial.
O frio moderado foi utilizado porque ativa a gordura marrom sem induzir tremores, o que poderia interferir no gasto energético medido.
As mulheres classificadas como “cicladoras” apresentaram maior gordura corporal total, maior acúmulo de gordura visceral, piores indicadores metabólicos e menor ativação da gordura marrom durante a exposição ao frio.
Inicialmente, os dados sugeriam que o efeito sanfona por si só reduziria a atividade do BAT. Porém, análises estatísticas mais detalhadas mostraram que essa associação é indireta: o que realmente diminui a atividade da gordura marrom é o aumento da adiposidade, que tende a se agravar com repetidos ciclos de perda e recuperação de peso.
Segundo a equipe, cada dieta restritiva ativa mecanismos compensatórios do organismo — redução do gasto energético basal, alterações hormonais na fome e na saciedade e maior eficiência no armazenamento de energia. Quando o peso é recuperado, quase sempre retorna na forma de gordura, e não de massa magra. Esse processo favorece o aumento gradual da gordura corporal e da gordura visceral, que está diretamente relacionada à menor atividade do BAT.
Apesar de a atividade da gordura marrom não ser mensurável em exames clínicos de rotina, os achados reforçaram que tratar a obesidade não pode se limitar a reduzir números na balança. Estratégias eficazes devem priorizar redução sustentada do percentual de gordura, preservação de massa muscular, intervenção multiprofissional e mudanças comportamentais duradouras.
A pesquisadora também destacou que, embora a gordura marrom possa ser estimulada por atividade física, diminuição da gordura corporal e até exposição ao frio, ela não deve ser encarada como solução única para o emagrecimento. Seu papel mais importante está relacionado à melhora do metabolismo da glicose e dos lipídios, oferecendo proteção adicional contra diabetes e doenças cardiovasculares.