A acne vulgar é uma das condições dermatológicas mais prevalentes no mundo, afetando até 95% dos adolescentes e persistindo como um problema crônico em muitos adultos — especialmente mulheres, nas quais há forte influência hormonal e associação com distúrbios endócrinos — podendo gerar impactos físicas, emocionais e sociais significativos.
O tratamento deve ser iniciado precocemente para prevenir cicatrizes e melhorar a qualidade de vida. Para casos leves, indicam-se retinoides tópicos, peróxido de benzoíla, antibióticos tópicos, ácido salicílico e azelaico; já para formas moderadas a graves, utilizam-se isotretinoína, antibióticos sistêmicos e agentes hormonais.
A isotretinoína, derivado da vitamina A, é considerada tratamento de primeira linha para acne grave, com taxa de remissão de até 80% como monoterapia. Apesar de relatos antigos sugerirem cicatrização anormal após procedimentos estéticos, estudos recentes não confirmaram essa associação, e diretrizes atuais já consideraram seguro realizar procedimentos minimamente invasivos, como peelings superficiais, durante o tratamento.
Entre as terapias adjuvantes, os peelings químicos se destacam por serem acessíveis, eficazes e aplicáveis tanto na fase ativa da acne quanto na fase de cicatrização, auxiliando na redução de lesões, hipercromias e irregularidades. Atualmente, o peeling de Jessner tem sido amplamente utilizado, mas requer cautela em fototipos altos devido ao risco de hiperpigmentação pós-inflamatória. Estudos sugeriram resultados estéticos superiores quando peelings são associados à isotretinoína, e consensos internacionais já incluem essa prática como opção segura, embora ainda faltem pesquisas específicas na população brasileira.
Diante disso, Silverio e colaboradores (2025) avaliaram a segurança e a eficácia dessa combinação no tratamento de cicatrizes de acne.
O ensaio clínico controlado, aberto e com avaliadores cegos foi realizado em 2024 no Complexo de Saúde Dr. Wladimir de Arruda, em São Paulo, e incluiu pacientes com acne grau 2 ou 3, entre 15 e 24 anos, já em uso de isotretinoína oral. Os participantes foram randomizados em dois grupos: o grupo 1 realizou três peelings de Jessner durante o tratamento com isotretinoína, nos 4º, 5º e 6º meses; enquanto o grupo 2 realizou três peelings após a suspensão da isotretinoína, nos 3º, 4º e 5º meses após o término do tratamento.
Todos os participantes receberam orientação para uso diário de protetor solar (FPS ≥ 50). Os peelings seguiram protocolo padronizado: limpeza com álcool, aplicação de três camadas da solução de Jessner (14% ácido salicílico, 14% resorcinol, 14% ácido láctico em etanol 95%) com intervalos de três minutos, seguida de remoção com água.
A avaliação da melhora das cicatrizes foi feita por dois dermatologistas, utilizando as escalas Quantitative Global Scarring Grading System for Post-acne Scarring (QGSGS) e Investigator Global Assessment (IGA), com base em fotografias padronizadas antes e após as intervenções. A análise estatística empregou os testes de Mann–Whitney e Wilcoxon para comparar os grupos e os períodos pré e pós-tratamento.
Dos 46 pacientes recrutados, 21 completaram todas as etapas do estudo: 12 no grupo 1 (peelings durante isotretinoína) e 9 no grupo 2 (peelings após isotretinoína). Não houve necessidade de interromper o tratamento por eventos adversos graves relacionados aos peelings ou à isotretinoína, reforçando a segurança da associação. As principais causas de exclusão foram abandono do tratamento, faltas às consultas e realização de outros procedimentos estéticos.
A análise estatística mostrou melhora significativa na qualidade da pele em ambos os grupos, com redução de lesões (IGA) e cicatrizes (QGSGS) após o tratamento. O teste de Wilcoxon confirmou essa melhora para quase todos os parâmetros, exceto para QGSGS no grupo controle segundo um avaliador. O teste de Mann-Whitney não identificou diferenças significativas entre os grupos, sugerindo que realizar peelings de Jessner durante o uso de isotretinoína não aumentou riscos nem trouxe benefícios estatisticamente superiores em relação à realização após o término do tratamento.
Em resumo, os resultados do estudo indicaram que a realização de peelings químicos de Jessner como adjuvante à terapia com isotretinoína é segura, tanto quando realizados durante quanto após o tratamento, sem evidências de efeitos prejudiciais. Ambos os grupos apresentaram melhora significativa na redução da acne e das cicatrizes, e os peelings podem ter efeito neutro ou até benéfico. Assim, não há justificativa para contraindicar peelings durante o uso de isotretinoína. Contudo, não foi possível definir o momento ideal para sua aplicação, já que não houve diferença estatística entre os grupos. Estudos com amostras maiores são necessários para confirmar se a combinação pode oferecer vantagens adicionais na prevenção ou redução de cicatrizes.