| Introdução |
A doença celíaca é uma enfermidade autoimune caracterizada por atrofia das vilosidades do intestino delgado e inflamação após a exposição ao glúten. Apresenta uma ampla gama de manifestações, como diarreia, fadiga e osteoporose, e pode ser grave, com complicações potencialmente substanciais, sintomas perturbadores e efeitos adversos na qualidade de vida geral.
Com objetivo de orientar aos profissionais de saúde sobre o gerenciamento da doença celíaca, Ludvigsson e colaboradores (2025) realizaram uma revisão sobre as principais complicações e comorbidades da enfermidade.
| Incidência e prevalência |
Atualmente, estima-se que aproximadamente 3 milhões de americanos têm doença celíaca diagnosticada ou não diagnosticada. Tradicionalmente, era uma enfermidade que afetava pessoas mais jovens, mas atualmente é frequentemente diagnosticada durante a meia-idade ou na idade mais avançada. Essa mudança no diagnóstico e um aumento geral na prevalência têm implicações importantes para o fardo de complicações e comorbidades associadas à doença celíaca.
| Complicações e comorbidades |
> Desenvolvimento e peso
O atraso no crescimento é particularmente comum entre crianças com doença celíaca. Até meados da década de 1970, a enfermidade pediátrica se apresentava com sintomas abdominais e perda de peso, mas após esse período, as crianças apresentam com mais frequência baixa estatura e sintomas que não estão relacionados à má absorção. Essa mudança pode ser devido à elevada incidência de doença celíaca em relação ao aumento na prevalência real, bem como ao aumento das taxas de diagnóstico facilitado por testes sorológicos precisos e uma maior conscientização de que a patologia pode se apresentar com uma variedade de sintomas e sinais.
Características de má absorção ainda ocorrem na doença celíaca de início recente e são frequentemente usadas para classificar o quadro clínico da doença. Essa má absorção geralmente significa que indivíduos diagnosticados subsequentemente ganham peso ao estabelecer uma dieta livre de glúten (DLG).
> Reprodução
A doença celíaca foi associada a distúrbios reprodutivos, entretanto, diversos estudos não encontraram tais correlações. O único período em que mulheres com a enfermidade podem ter uma taxa de gravidez mais baixa é por volta da época do diagnóstico, potencialmente porque podem se abster de engravidar devido a investigações em andamento para suspeita da doença ou adiar a gravidez devido a preocupações nutricionais.
Mesmo com fertilidade normal, a doença celíaca ainda pode afetar a vida reprodutiva das mulheres, como por exemplo, aumentando a taxa de aborto espontâneo. Ademais, pode afetar a gestação e os resultados da gravidez. Diversos estudos correlacionaram a doença celíaca não diagnosticada com menor peso placentário, menor peso ao nascer em filhos de mães com a enfermidade, maior chance de parto prematuro e crescimento intrauterino deficiente.
> Manifestações oculares
Indivíduos com doença celíaca têm um risco aumentado de catarata e uveíte. Uma associação positiva também foi observada para a síndrome de Sjögren, que resulta em olhos e boca secos.
> Manifestações orais
Indivíduos com doença celíaca têm um risco aumentado de úlceras aftosas recorrentes e defeitos no esmalte dentário.
> Associações hematológicas
Anemia e deficiências de micronutrientes são comuns em indivíduos recém-diagnosticados com doença celíaca. Entre esses indivíduos, a deficiência de ferro, folato e B12 em particular também são observadas, bem como anemia de doenças crônicas. Valores elevados de ferritina devem alertar os médicos para hemocromatose hereditária, que está associada à doença celíaca. Da mesma forma, a trombocitose pode ser um sinal para a enfermidade.
> Doença renal e hepatobiliar
Embora os dados sobre o risco de cálculos biliares na doença celíaca sejam conflitantes, os dados sugeriram um risco moderadamente elevado de cálculos renais nesses pacientes. Além disso, indivíduos com a enfermidade têm um risco aumentado de glomerulonefrite e nefropatia por IgA, embora os riscos excessivos dessas doenças possam depender do fenótipo da doença celíaca.
A hepatopatia é frequentemente observada em indivíduos com doença celíaca. Além disso, as incidências de esteatohepatite não alcoólica e carcinoma hepatocelular são aumentadas nos pacientes com essa doença gástrica. Ademais, a hepatite crônica não específica, a hepatite autoimune e a cirrose também foram relacionadas.
> Doença respiratória
A doença celíaca tem sido associada à asma, pneumonia bacteriana (e infecções pneumocócicas em geral), doença pulmonar obstrutiva crônica e tuberculose. Além disso, vários estudos sugeriram uma ligação entre a gastropatia e a morte por doença respiratória.
> Sistema musculoesquelético e articulações
Queixas reumatológicas são comuns em crianças e adultos com doença celíaca, e artrite - tanto doença reumática periférica quanto axial - parece ser mais comum nesses pacientes. Crianças têm um risco aumentado de artrite idiopática juvenil, enquanto adultos artrite reumatoide. Indivíduos com doença celíaca também apresentam maior risco de síndrome de Ehlers-Danlos e hipermobilidade articular.
Ademais, a doença óssea metabólica, que é comum na doença celíaca, está associada a um risco aumentado de fraturas nesses pacientes.
> Autoimunidade
A associação entre a doença celíaca e outras condições autoimunes está bem estabelecida. Essa provavelmente decorre de fatores genéticos e ambientais. Aproximadamente 25% dos indivíduos com doença celíaca apresentam pelo menos um outro distúrbio autoimune, mais comumente diabetes mellitus tipo 1 (DM1) ou doença autoimune da tireoide. Além da DM1, a doença celíaca também pode ocorrer em conjunto com o diabetes mellitus tipo 2 (DM2). Outras enfermidades autoimunes associadas são a doença inflamatória intestinal (DII) e a colite microscópica.
A doença da tireoide é a comorbidade autoimune concorrente mais comum em indivíduos com doença celíaca. O risco de hiperparatireoidismo primário é aumentado nesses pacientes.
> Câncer
A doença celíaca está significativamente associada ao aumento dos riscos de tumores intestinais e extraintestinais, mas os riscos absolutos e relativos são baixos. Como na maioria dos distúrbios autoimunes, o risco de câncer é maior nos órgãos relacionados à doença (ou seja, o sistema imunológico e o intestino delgado) em comparação com os sistemas de órgãos mais distantes.
Entretanto, como o risco absoluto de câncer é baixo na maioria dos indivíduos com doença celíaca, não há recomendações específicas a esses pacientes no rastreamento de câncer além daquelas da população geral.
> Nutrição
A doença celíaca pode interagir com o estado nutricional devido à capacidade reduzida de absorção do intestino delgado por causa de lesões na mucosa, ou por meio da qualidade nutricional diferencial de uma DLG. A doença celíaca ativa pode levar a deficiências de ferro, folato, vitamina D e zinco, bem como outros micronutrientes, incluindo vitaminas B12 e B6, vitaminas A e K, cobre e magnésio. Em particular, a DLG pode ser baixa em fibras e vitaminas do complexo B, mas rica em gorduras e açúcares refinados, levando à constipação, deficiências de vitaminas, ganho de peso e níveis elevados de colesterol. Por esses motivos, a consulta contínua com um nutricionista experiente é necessária para os pacientes e os exames laboratoriais de acompanhamento devem considerar os fatores de risco, incluindo deficiências no momento do diagnóstico e hábitos alimentares.
> Doença cardiovascular
Vários estudos apoiaram um modesto aumento do risco de doença cardiovascular (DCV) em indivíduos com doença celíaca, como, por exemplo, o de infarto do miocárdio ou angina e derrame.
> Condições genéticas
A síndrome de Down e a de Turner acarretam um risco aumentado de doença celíaca.
> Doenças psiquiátricas
Diversos estudos detectaram associações entre a doença celíaca e várias morbidades psiquiátricas. Por exemplo, a prescrição de uma DLG pode piorar a tendência latente a distúrbios alimentares. Ademais, outra análise relatou o aumento do risco de distúrbios psiquiátricos (como o de humor, ansiedade, déficit de atenção e hiperatividade e do espectro autista) em indivíduos diagnosticados com doença celíaca na infância.
> Distúrbios neurológicos
A neuropatia e a ataxia por glúten representam 19–30% e 19–40%, respectivamente, das condições neurológicas em indivíduos com doença celíaca. Ambas as condições afetam principalmente populações mais velhas, e estudos sugeriram um efeito atenuante de uma DLG.
Além dessas manifestações neurológicas, há evidências de profundas alterações orgânicas no cérebro de indivíduos com doença celíaca, indicadas por anormalidades da substância branca e hipoperfusão cerebral. Ademais, estudos revelaram que indivíduos com essa gastropatia tem mais chance de terem dor de cabeça. Associações positivas também foram observadas entre a doença celíaca e outros distúrbios neurológicos, como epilepsia e demência vascular. No entanto, os achados sobre a sua associação com o derrame são inconsistentes.
> Distúrbios da pele
A dermatite herpetiforme é uma doença cutânea com uma fisiopatologia parcialmente compartilhada com a doença celíaca. Além dessa, pesquisadores encontraram uma associação positiva para outras dermatoses, como eczema, psoríase, urticária, vitiligo, acne, dermatite atópica e alopecia areata.
| Doença celíaca refratária |
Refere-se à presença de sintomas persistentes relacionados à má absorção e atrofia das vilosidades, apesar da adesão à DLG por >12 meses. A condição é rara, afetando <2% dos indivíduos dos pacientes. A maioria dos indivíduos apresenta sorologias normais ou quase normais, pois esses valores diminuem após a adoção da DLG.
| Tratamento |
Atualmente, o único tratamento para a doença celíaca é uma DLG vitalícia, mas muitas vezes ela é ineficaz para alcançar o controle dos sintomas e a cura da mucosa. Sintomas persistentes e recorrentes são comumente relatados. As causas desses são heterogêneas e incluem distúrbios funcionais comuns concomitantes (como a síndrome do intestino irritável), mas a exposição contínua ao glúten é frequentemente identificada como culpada.
Para a maioria dos indivíduos com doença celíaca, a adoção de uma DLG leva à melhora clínica e à resolução histológica da atrofia das vilosidades, entretanto, não é confiável que ocorra a cura da mucosa. Por isso, é importante a realização de uma biópsia de acompanhamento para avaliar esse resultado histológico.
Pacientes com atrofia resistente das vilosidades tendem a ser mais velhos, tinham uma duração menos curta da doença celíaca e um nível de educação mais baixo em comparação com aqueles que tiveram a cura da mucosa. Além disso, eram mais suscetíveis a linfoma não-Hodgkin e possivelmente linfoma de células T, bem como adenocarcinoma do intestino delgado. Além do escopo das malignidades, a cura da mucosa foi associada a um risco aumentado de ansiedade. Essa associação pode estar relacionada à hipervigilância.
Dadas as limitações substanciais e as dificuldades práticas da DLG, tem havido grandes esforços para desenvolver terapias não dietéticas adjuvantes à dieta. As categorias amplas de terapêuticas em desenvolvimento incluem:
· medicamentos que atuam no glúten por meio da atividade peptidase/protease;
· fármacos que promovem a tolerância por meio de uma apresentação parenteral de glúten para suprimir a cascata inflamatória; bloqueadores de citocinas consideradas centrais na resposta imune ao glúten; e
· bloqueadores do processamento a jusante de fragmentos de glúten pela transglutaminase tecidual e sua apresentação por células apresentadoras de antígeno.
Em conclusão, a doença celíaca é uma enfermidade autoimune comum e grave com potencial para complicações substanciais, sinais e sintomas onerosos e uma qualidade de vida diminuída. Além disso, está associada a muitos distúrbios intestinais e extraintestinais. O diagnóstico e acompanhamento adequados são cruciais para mitigar essas complicações e melhorar a qualidade de vida dos pacientes. Embora a DLG seja o tratamento padrão, ela apresenta limitações e dificuldades práticas, impulsionando o desenvolvimento de terapias adjuvantes.