Art & Culture

/ Published on July 22, 2022

Uma história e várias reflexões

Discriminação sexual no ambiente médico

Uma história que mostra como a passagem do tempo mudou atitudes

Author: Dr. Carlos Spector

Em um dos programas da minha faculdade de medicina, tive a oportunidade de analisar o capítulo intitulado "Habilidades Interpessoais e de Comunicação" incluído no "Guia Bates", e dentro dele, exista uma seção referente a "Relação de Adultos LGBTQA+”. O tema é apresentado em forma de vídeo com locução em inglês e legendas em espanhol. Fiquei muito favoravelmente impressionado.

Ouvir atentamente aquele áudio e ler o texto me fez refletir sobre como o tema evoluiu ao longo da minha carreira profissional, desde o tempo não tão distante em que homossexuais, transgêneros e binários eram qualificados com epítetos, até hoje em que são geralmente tratados com respeito e até mesmo os alunos são instruídos por meio de textos, sobre a forma como convém estabelecer uma relação inclusiva, ou seja, não discriminatória.

É interessante referir-se ao filme francês "El Placard" ou "Saindo do armário" interpretado, entre outros, por Daniel Auteil e Gerard Dépardieu. Na época, produziu uma comoção social ao expor de forma magistral e com certa veia humorística o encobrimento e depois a revelação da condição homossexual de um dos protagonistas. Tamanho foi o impacto, que a frase “sair do armário” tornou-se uma expressão genérica para descrever a atitude de revelar uma condição sexual até então mantida em segredo por vergonha.

Àquela altura em que o filme estava nos cinemas, os da minha geração já não se admiravam se um filho ou filha saísse de férias com seus respectivos parceiros ou convidassem seus namorados/as para dormir no quarto ao lado dos pais. A sexualidade em geral tornou-se progressivamente menos proibida, desde que exercida dentro dos limites da intimidade e sem atitudes escandalosas. A fecundação assistida, a barriga de aluguel e o casamento entre pessoas do mesmo sexo, bem como a descriminalização do aborto foram fatores que mudaram o cenário e nos fizeram pensar diferente, com acordos e desacordos, mas de forma explícita e séria. Ainda há um longo caminho a percorrer, especialmente a hierarquização convicta da valiosa condição feminina até que ela seja equiparada aos atributos sociais e laborais dos homens, e a atribuição de significados inequívocos aos termos sexo e gênero.

Essa reflexão é um o preâmbulo para relatar uma de minhas primeiras experiências como residente de cirurgia, no início dos anos 60, logo após a formatura. Fiz parte da primeira coorte de residentes do município implementada com muita resistência por parte dos médicos da equipe e dos concorrentes, por motivos que agora parecem implausíveis e que não é o momento de analisar, mas a verdade é que havia pouca consciência da necessidade de ensinar de forma sistemática a arte de praticar a medicina às novas gerações. Os recém-chegados, ávidos para aprender, muitas vezes tinham que buscar os casos cirúrgicos para "fazer as mãos", assistidos por especialistas.

Em um dia de inverno, depois do almoço, enquanto conversávamos com um grupo de colegas ao sol sentados nos degraus do pavilhão, um jovem de cerca de 25 anos se aproximou para perguntar sobre o consultório de proctologia porque disse que tinha hemorroidas. Ficamos impressionados com suas roupas elegantes, maneiras refinadas e linguagem elaborada, qualidades não comuns em pacientes que frequentavam um hospital público. Na época eu estava fazendo rodízio para a proctologia, então ofereci para atendê-lo no dia seguinte, pois os serviços não funcionavam à tarde.

Pela manhã ele me procurou no local combinado. Escrevi seus dados pessoais no cartão, registrei as informações da anamnese e convidei-o a se posicionar para o exame proctológico. Nem o toque nem a colocação de um anoscópio produziram qualquer dor, apesar de observar uma fissura anal de tamanho e profundidade incomuns. Pelo que eu sabia lendo os textos, essa ausência de dor sugere que a fissura se deve a uma causa específica, presumivelmente sexualmente transmissível, possivelmente sifilítica. Imediatamente procurei um médico da equipe do serviço. Encontrei um médico que estava próximo de se aposentar e era conhecido, na época, por suas maneiras rudes. Não direi mais nada sobre ele para que ninguém da minha geração possa reconhecê-lo. Expliquei-lhe a situação e ele imediatamente me acompanhou ao escritório. Sem se apresentar ao paciente, realizou o exame físico. Ele imediatamente piscou para mim, o que achei que significasse que ele concordava com minha suspeita diagnóstica. A partir de então, ele estava no comando da situação. Ele disse ao paciente para se sentar e se vestir. Concluído o procedimento, o médico colocou a mão em seu ombro e lhe contou com um discurso paternalista e folclórico, em tom de voz condescendente.

- Rapaz, hoje em dia muitas vezes você tem que se contentar com os homens. Diga-me, você é p... o?

Os olhos do paciente se encheram de lágrimas e com a voz trêmula ele disse:

- Sou estudante de direito avançado, educado, grande leitor e me dedico a lidar com antiguidades. Na verdade, sou homossexual e não é por isso, doutor, que você tem que me denegrir dessa maneira.

Fiquei com o espírito no chão. Acompanhei o paciente até a porta da enfermaria e pedi desculpas em nome do médico.

Já contei essa anedota muitas vezes, tanto para colegas, estudantes e amigos que não estão ligados à profissão médica. Nas primeiras vezes, anos atrás, gerou piadas, zombarias e muitas risadas. Com o passar do tempo, só contei como um exemplo de falta de profissionalismo. No entanto, para a atual geração, desperta indignação e muita tristeza. Como sociedade, mudamos para melhor a partir das expectativas de tratamento médico. Acredito que como educador, é um aspecto decisivo na formação de graduação. Como disciplina, integra nosso novo currículo.


O autor

  • Professor Dr. Carlos Spectos
  • Cirurgião toráxico
  • Diretor da Faculdade de Ciências da Saúde da UCES
  • Professor Associado da UBA
  • Emérito da Academia Argentina de Cirurgia