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/ Publicado el 21 de abril de 2026

Microbiota intestinal

Disbiose microbiana do intestino delgado (DMID)

Mecanismos fisiopatológicos, fatores predisponentes e implicações clínicas.

Autor/a: Damianos, J. et l.

Fuente: The Lancet Gastroenterology & Hepatology, 2026; 11, 256-266

 O conceito tradicional de supercrescimento bacteriano do intestino delgado (SIBO) vem sendo expandido a partir de evidências que demonstraram que, além das bactérias, arqueias e fungos também podem contribuir para a desregulação da microbiota intestinal. Com isso, o quadro passa a ser melhor definido como disbiose microbiana do intestino delgado (DMID), uma vez que o tipo de microrganismo envolvido influencia as manifestações clínicas mais do que sua quantidade absoluta.

A DMID produz metabólitos e toxinas que danificam a mucosa intestinal, resultando em alterações estruturais que podem causar enteropatia perdedora de proteínas, má absorção de carboidratos e comprometimento da digestão e absorção de gorduras e vitaminas lipossolúveis. O excesso microbiano também compete por nutrientes, como vitamina B12, e interfere na motilidade e secreção intestinal, contribuindo para sintomas como distensão, dor abdominal e diarreia.

Diante disso, a revisão de Damianos e colaboradores (2026) analisou de forma abrangente como diferentes mecanismos fisiopatológicos e efeitos de medicamentos podem perturbar essa homeostase e levar ao desenvolvimento de DMID em diversos cenários clínicos.

Testes para DMID

O diagnóstico padrão‑ouro é a cultura de aspirado duodenal ou jejunal, mas seu uso é limitado por ser invasivo, caro, sujeito a contaminação e incapaz de identificar arqueias. Por isso, testes respiratórios de hidrogênio e metano são os mais utilizados, embora sua precisão varie conforme trânsito intestinal, dieta, uso de medicamentos e qualidade do equipamento. O hidrogênio sulfeto é um biomarcador emergente, mas ainda controverso.

Como a DMID é secundária a distúrbios estruturais ou de homeostase microbiana, a recorrência é frequente quando a causa não é corrigida. Estudos mostraram retorno progressivo após rifaximina, especialmente em pacientes mais velhos, com apendicectomia prévia ou uso crônico de inibidores da bomba de prótons (IBP).

Fatores fisiopatológicos que levam ao supercrescimento microbiano e à doença

A DMID pode surgir a partir de falhas em diferentes mecanismos envolvidos na proteção do intestino delgado. A redução do ácido gástrico, seja por IBPs, gastrite atrófica, infecção por H. pylori ou cirurgias gástricas, diminui a capacidade antimicrobiana do estômago e permite que microrganismos ingeridos alcancem e se estabeleçam no intestino delgado.

Na pancreatite crônica, a insuficiência exócrina, o pH inadequado no duodeno, a redução da motilidade, a inflamação local e o uso de opioides contribuem conjuntamente para um ambiente favorável ao supercrescimento microbiano.

Além disso, diabetes e cirurgias abdominais prévias também aumentam o risco.

Alterações no metabolismo dos ácidos biliares, com desconjugação excessiva pela microbiota, prejudicam a formação de micelas e levam à má absorção de gorduras e vitaminas lipossolúveis, além de contribuírem para diarreia por má absorção biliar.

Já nos distúrbios de motilidade, condições como esclerose sistêmica, pseudo‑obstrução intestinal, estenoses, diverticulose e alças cegas cirúrgicas criam zonas de estase luminal que facilitam a proliferação microbiana e aumentam o risco de deficiências nutricionais, como B12 e vitaminas lipossolúveis.

Motilidade colônica e válvula ileocecal


Constipação e trânsito lento favorecem o supercrescimento de arqueias produtoras de metano (M. smithii), contribuindo para supercrescimento metanogênico. A incompetência ou ressecção da válvula ileocecal permite refluxo de microbiota colônica para o intestino delgado, aumentando o risco de DMID.

Cirurgias intestinais, especialmente ileocecal, apresentam alta prevalência de DMID. Na síndrome do intestino irritável (SII), há associação entre metano em SII‑C, hidrogênio/H₂S em SII‑D, maior resposta a antibióticos em testes positivos e presença de bactérias disruptoras, indicando que a DMID representa um subgrupo específico da síndrome.

Imunidade da mucosa


Alterações da barreira e da resposta imune, como na doença inflamatória intestinal, doença celíaca, imunodeficiências e HIV, aumentam o risco de DMID por maior permeabilidade, inflamação e perda de defesa local. Ademais, cirurgias intestinais e deficiência de IgA agravam esse risco.

Medicamentosque afetam as funções gastrointestinais


Opioides, anticolinérgicos, agonistas de GLP‑1 e IBPs reduzem o trânsito ou acidez e aumentam o risco de DMID.

Procinéticos são alternativa eficaz para reduzir testes positivos e melhorar sintomas, com evidências em condições como IBP crônico, esclerose sistêmica, cirrose, SII e HIV.

Doenças neurodegenerativas e extraintestinais

Várias doenças inflamatórias imunomediadas e neurodegenerativas, como esclerose múltipla, artrite reumatoide, lúpus, rosácea, espondiloartrites, colangite biliar primária, doença de Behçet, endometriose, autismo e fibromialgia, têm sido associadas à DMID, muitas vezes com maior gravidade clínica.

Na doença de Parkinson, a presença da disbiose relaciona-se a piora dos sintomas gastrointestinais e motores, maior flutuação da resposta à levodopa e escores motores mais elevados.

Produção endógena de etanol


A síndrome da autofermentação é um subtipo raro de DMID, no qual microrganismos fermentam carboidratos e produzem etanol, levando a sinais de intoxicação alcoólica mesmo sem ingestão de álcool. O diagnóstico baseia‑se em etanol sanguíneo persistentemente elevado e confirmação por teste com carboidratos ou cultura intestinal mostrando espécies produtoras de etanol, como Candida, Saccharomyces e Klebsiella.

A condição ocorre em cenários como síndrome do intestino curto, diabetes, cirrose, doença de Crohn e após uso repetido de antibióticos, que favorecem supercrescimento fúngico. Outros fatores de risco incluem hipocloridria, alterações anatômicas, dieta rica em açúcares e estresse. O tratamento envolve restrição de carboidratos e antimicrobianos, e novas abordagens, como probióticos engenheirados e terapias com fagos, estão sendo estudadas.

Conclusão

A DMID é uma causa relevante de sintomas gastrointestinais em diversas condições, surgindo quando mecanismos protetores contra o supercrescimento microbiano, como acidez gástrica, secreções bilipancreáticas, motilidade e integridade da barreira, são comprometidos. Pacientes com fatores de risco e sintomas sugestivos devem ser testados, e tanto o supercrescimento quanto o fator predisponente precisam ser tratados. Pesquisas futuras devem utilizar cápsulas diagnósticas para caracterização microbiana e metabólica, avaliando pacientes antes e após intervenções terapêuticas.


Fonte: Mechanisms and pathophysiology leading to development of small intestinal microbial dysbiosis - The Lancet Gastroenterology & Hepatology

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