| Introdução |
Nos últimos anos, os padrões alimentares com baixo teor de carboidratos e alto de gordura (LCHF) têm ganhado destaque, sendo amplamente adotados para o controle de obesidade e diabetes. Dados recentes indicaram que aproximadamente 20% dos adultos americanos seguiram algum tipo de dieta com baixo teor de carboidratos, como a cetogênica, no último ano. Esses regimes alimentares, que restringem a ingestão de carboidratos e aumentam o consumo de gorduras, têm sido recomendados nas diretrizes Americanas e Europeias para o controle glicêmico e perda de peso, além de apresentarem benefícios subjetivos, como aumento de energia e clareza mental.
Dietas LCHF limitam a ingestão de carboidratos para menos de 100g por dia e priorizam o consumo de gorduras, muitas vezes de origem animal. Apesar de alguns estudos sugerirem efeitos cardioprotetores, relacionados à produção de corpos cetônicos. No entanto, há preocupações sobre o impacto dessas dietas no aumento dos níveis de lipoproteínas aterogênicas, como o LDL-colesterol, o que pode elevar o risco de doença cardiovascular aterosclerótica (ASCVD, na sigla em inglês). Embora o impacto das dietas LCHF na saúde cardiovascular ainda esteja sendo investigado, Iatan e colaboradores (2024) realizaram um estudo para explorar a relação entre esse padrão alimentar e os níveis de lipídios séricos, bem como a ocorrência de eventos cardiovasculares adversos em uma coorte do UK Biobank.
| Métodos |
Este estudo de coorte, baseado no banco de dados do UK Biobank, incluiu participantes que completaram pelo menos um questionário alimentar de 24 horas. Definiu-se uma dieta LCHF como aquela com consumo de carboidratos inferior a 100 g/dia ou menos de 25% da energia diária total proveniente de carboidratos, enquanto mais de 45% era proveniente de gorduras. Os participantes que seguiram uma dieta padrão (DP) não atenderam a esses critérios. Para garantir comparabilidade, cada participante seguindo a dieta LCHF foi pareado em uma proporção de 1:4 com indivíduos da dieta padrão, levando em consideração idade e sexo.
| Resultados |
No total, 2.034 e 8.136 participantes que seguiram a dieta LCHF e a padrão foram incluídos no estudo, respectivamente. Desses, apenas 305 e 1.220, respectivamente, realizaram uma avaliação de lipídios simultaneamente à inscrição.
Os resultados mostraram que os níveis de lipoproteína de baixa densidade (LDL-C) e apolipoproteína B foram significativamente mais elevados no grupo LCHF em comparação com o grupo DP (P < 0,001). Hipercolesterolemia grave (LDL-C > 5 mmol/L) foi observada em 11,1% dos indivíduos LCHF, em contraste com 6,2% dos indivíduos DP (P < 0,001).
Após um período de acompanhamento de 11,8 anos, 9,8% dos participantes do grupo LCHF apresentaram um evento cardiovascular adverso maior (MACE), em comparação com 4,3% no grupo DP (P < 0,001). Essa diferença manteve-se significativa após o ajuste para outros fatores de risco cardiovascular (HR: 2,18; IC 95%: 1,39-3,43; P < 0,001). Além disso, indivíduos com pontuação de risco poligênico elevada para LDL-C apresentaram os maiores níveis de LDL-C ao seguir a dieta LCHF. Alterações significativas nos níveis lipídicos e a associação com MACE foram consistentes tanto na análise de toda a coorte quanto em indivíduos que completaram duas ou mais pesquisas dietéticas.
| Conclusão |
Sendo assim, o estudo de coorte revelou que o consumo autorrelatado de uma dieta LCHF esteve associada a um aumento significativo nos níveis de LDL-C e apolipoproteína B, além de um risco elevado de eventos cardiovasculares adversos maiores (MACE). Esses achados ressaltaram o potencial risco cardiovascular desse padrão alimentar e sugeriram que a hipercolesterolemia induzida por dietas LCHF não deve ser considerada inofensiva.