Com a expansão do uso de dispositivos e plataformas digitais, a influência da tecnologia sobre a saúde e o bem-estar passou a ocupar papel cada vez mais relevante na sociedade contemporânea. Nesse contexto, ganha relevância o conceito de determinantes digitais da saúde (DDS), definido como o conjunto de fatores mediados por tecnologias digitais que afetam o acesso a informações e serviços de saúde e influenciam comportamentos, estilos de vida, relações sociais e condições gerais de saúde.
A partir de uma perspectiva de saúde pública, Mechael e colaboradores (2026) discutiram como as tecnologias digitais podem impactar simultaneamente as dimensões social, mental e física da saúde, destacando tanto seus benefícios quanto seus riscos.
As tecnologias digitais vêm ampliando as possibilidades de conexão social, acesso à informação e participação comunitária. Plataformas como redes sociais, fóruns online e ambientes de jogos eletrônicos têm favorecido a manutenção de vínculos sociais, o compartilhamento de experiências e a criação de comunidades de apoio, especialmente entre grupos mais vulneráveis, como idosos e pessoas com doenças raras ou condições crônicas.
Para indivíduos que enfrentam desafios de saúde, comunidades digitais possibilitam acesso a apoio emocional, troca de informações baseadas em evidências e compartilhamento de experiências entre pares, contribuindo para a redução do isolamento e para o fortalecimento do engajamento social. Entre os idosos, ferramentas de comunicação digital também podem auxiliar na manutenção da autonomia e do bem-estar, reduzindo a solidão e facilitando o acesso a recursos de saúde.
Na área da saúde mental, a oferta de serviços digitais cresce rapidamente. Aplicativos e plataformas online disponibilizam recursos que incluem meditação, monitoramento do humor e intervenções psicológicas, como terapia cognitivo-comportamental, muitas vezes com menor custo e maior conveniência do que os atendimentos presenciais. O anonimato e a disponibilidade contínua desses recursos podem reduzir barreiras relacionadas ao estigma e ao acesso aos serviços.
Os benefícios também se estendem à saúde física. Dispositivos vestíveis, aplicativos móveis e plataformas de telemedicina permitem monitoramento contínuo, acompanhamento de indicadores de saúde e maior participação dos indivíduos no autocuidado. Essas ferramentas podem favorecer a prática de atividade física, a melhoria do sono, hábitos alimentares mais saudáveis e o manejo de doenças crônicas. Além disso, recursos como lembretes automáticos, programas de exercícios e planos nutricionais digitais ajudam a manter o engajamento em comportamentos promotores da saúde.
Apesar de seu potencial positivo, as tecnologias digitais também podem gerar efeitos adversos. No âmbito da saúde mental e social, o uso excessivo das redes sociais tem sido associado à percepção de isolamento social, especialmente entre jovens adultos. Fenômenos como comparação social constante, pressão por desempenho e exposição a padrões idealizados podem contribuir para sofrimento psicológico e redução do bem-estar.
Outro desafio relevante é a exposição a formas de violência digital, incluindo cyberbullying, assédio online e divulgação não autorizada de informações pessoais. Esses problemas afetam principalmente adolescentes, mulheres e grupos socialmente vulneráveis. Ambientes digitais também podem reproduzir ou amplificar discriminação, xenofobia, racismo e misoginia.
A crescente utilização da inteligência artificial (IA) para obtenção de informações, aconselhamento e suporte emocional cria novas oportunidades, mas também levanta preocupações éticas. Entre os principais riscos estão a geração de informações incorretas, respostas enviesadas e conteúdos produzidos sem sensibilidade ao contexto cultural ou emocional dos usuários.
No campo da saúde física, o uso prolongado de dispositivos digitais pode estar associado à fadiga ocular, dores musculoesqueléticas e lesões por esforço repetitivo. Além disso, comportamentos sedentários relacionados ao aumento do tempo de tela podem contribuir para distúrbios do sono, redução da atividade física e preocupações com a imagem corporal.
A desinformação em saúde representa outro problema crescente. Plataformas digitais e ferramentas de IA podem facilitar a disseminação rápida de conteúdos incorretos ou enganosos, com potencial impacto negativo sobre decisões individuais e coletivas em saúde.
O artigo destacou que os riscos não se limitam ao uso inadequado das tecnologias. A falta de acesso a dispositivos digitais, conectividade ou habilidades necessárias para utilização dessas ferramentas também pode prejudicar a saúde.
A exclusão digital pode reduzir oportunidades educacionais, profissionais e de participação social, além de limitar o acesso a informações e serviços de saúde cada vez mais digitalizados. Como consequência, indivíduos excluídos digitalmente podem experimentar sentimentos de isolamento, frustração e impotência, além de enfrentar barreiras adicionais para prevenção, diagnóstico e tratamento de doenças.
Esses desafios tendem a afetar de forma desproporcional populações em situação de vulnerabilidade social, comunidades rurais, idosos, pessoas com deficiência e grupos historicamente sub-representados. Além disso, desigualdades de gênero presentes no ecossistema digital podem influenciar a qualidade, o acesso e a adequação das soluções tecnológicas em saúde.
Os autores defenderam uma abordagem de saúde pública para os DDS, capaz de maximizar benefícios e reduzir riscos. Entre as ações prioritárias estão a ampliação do acesso digital, o fortalecimento da alfabetização digital, o desenvolvimento de tecnologias inclusivas, a regulação adequada de plataformas digitais e sistemas de inteligência artificial e o incentivo à pesquisa interdisciplinar. Também foi ressaltada a importância de garantir transparência no uso de dados, fortalecer a cibersegurança e envolver populações vulneráveis no desenvolvimento de tecnologias digitais.
Em conclusão, as tecnologias digitais vêm transformando profundamente a forma como as pessoas se relacionam, cuidam da saúde e acessam informações. Embora ofereçam oportunidades significativas para melhorar a saúde física, mental e social, também podem gerar riscos importantes e ampliar desigualdades quando seu acesso ou utilização não ocorre de forma segura e equitativa. Por isso, Mechael e colaboradores (2026) defenderam que a promoção da inclusão digital, aliada à proteção contra danos e à redução das desigualdades, deve ocupar posição central nas políticas públicas e estratégias voltadas à saúde na era digital.
Publicado el 30 de octubre de 2026
Inteligência artificial
Determinantes digitais da saúde: benefícios, riscos e desafios da transformação digital
Em artigo publicado no The Lancet Digital Health, Mechael e colaboradores (2026) analisaram o impacto das tecnologias digitais sobre a saúde e o bem-estar, abordando desde inclusão digital e inteligência artificial até desigualdades e desinformação.
Autor/a: Mechael, P. et al.
Fuente: The Lancet Digital Health, 2026; 0 Digital technology in everyday life: emerging associations with social, mental, and physical health and wellbeing
Com a expansão do uso de dispositivos e plataformas digitais, a influência da tecnologia sobre a saúde e o bem-estar passou a ocupar papel cada vez mais relevante na sociedade contemporânea. Nesse contexto, ganha relevância o conceito de determinantes digitais da saúde (DDS), definido como o conjunto de fatores mediados por tecnologias digitais que afetam o acesso a informações e serviços de saúde e influenciam comportamentos, estilos de vida, relações sociais e condições gerais de saúde.
A partir de uma perspectiva de saúde pública, Mechael e colaboradores (2026) discutiram como as tecnologias digitais podem impactar simultaneamente as dimensões social, mental e física da saúde, destacando tanto seus benefícios quanto seus riscos.
As tecnologias digitais vêm ampliando as possibilidades de conexão social, acesso à informação e participação comunitária. Plataformas como redes sociais, fóruns online e ambientes de jogos eletrônicos têm favorecido a manutenção de vínculos sociais, o compartilhamento de experiências e a criação de comunidades de apoio, especialmente entre grupos mais vulneráveis, como idosos e pessoas com doenças raras ou condições crônicas.
Para indivíduos que enfrentam desafios de saúde, comunidades digitais possibilitam acesso a apoio emocional, troca de informações baseadas em evidências e compartilhamento de experiências entre pares, contribuindo para a redução do isolamento e para o fortalecimento do engajamento social. Entre os idosos, ferramentas de comunicação digital também podem auxiliar na manutenção da autonomia e do bem-estar, reduzindo a solidão e facilitando o acesso a recursos de saúde.
Na área da saúde mental, a oferta de serviços digitais cresce rapidamente. Aplicativos e plataformas online disponibilizam recursos que incluem meditação, monitoramento do humor e intervenções psicológicas, como terapia cognitivo-comportamental, muitas vezes com menor custo e maior conveniência do que os atendimentos presenciais. O anonimato e a disponibilidade contínua desses recursos podem reduzir barreiras relacionadas ao estigma e ao acesso aos serviços.
Os benefícios também se estendem à saúde física. Dispositivos vestíveis, aplicativos móveis e plataformas de telemedicina permitem monitoramento contínuo, acompanhamento de indicadores de saúde e maior participação dos indivíduos no autocuidado. Essas ferramentas podem favorecer a prática de atividade física, a melhoria do sono, hábitos alimentares mais saudáveis e o manejo de doenças crônicas. Além disso, recursos como lembretes automáticos, programas de exercícios e planos nutricionais digitais ajudam a manter o engajamento em comportamentos promotores da saúde.
Apesar de seu potencial positivo, as tecnologias digitais também podem gerar efeitos adversos. No âmbito da saúde mental e social, o uso excessivo das redes sociais tem sido associado à percepção de isolamento social, especialmente entre jovens adultos. Fenômenos como comparação social constante, pressão por desempenho e exposição a padrões idealizados podem contribuir para sofrimento psicológico e redução do bem-estar.
Outro desafio relevante é a exposição a formas de violência digital, incluindo cyberbullying, assédio online e divulgação não autorizada de informações pessoais. Esses problemas afetam principalmente adolescentes, mulheres e grupos socialmente vulneráveis. Ambientes digitais também podem reproduzir ou amplificar discriminação, xenofobia, racismo e misoginia.
A crescente utilização da inteligência artificial (IA) para obtenção de informações, aconselhamento e suporte emocional cria novas oportunidades, mas também levanta preocupações éticas. Entre os principais riscos estão a geração de informações incorretas, respostas enviesadas e conteúdos produzidos sem sensibilidade ao contexto cultural ou emocional dos usuários.
No campo da saúde física, o uso prolongado de dispositivos digitais pode estar associado à fadiga ocular, dores musculoesqueléticas e lesões por esforço repetitivo. Além disso, comportamentos sedentários relacionados ao aumento do tempo de tela podem contribuir para distúrbios do sono, redução da atividade física e preocupações com a imagem corporal.
A desinformação em saúde representa outro problema crescente. Plataformas digitais e ferramentas de IA podem facilitar a disseminação rápida de conteúdos incorretos ou enganosos, com potencial impacto negativo sobre decisões individuais e coletivas em saúde.
O artigo destacou que os riscos não se limitam ao uso inadequado das tecnologias. A falta de acesso a dispositivos digitais, conectividade ou habilidades necessárias para utilização dessas ferramentas também pode prejudicar a saúde.
A exclusão digital pode reduzir oportunidades educacionais, profissionais e de participação social, além de limitar o acesso a informações e serviços de saúde cada vez mais digitalizados. Como consequência, indivíduos excluídos digitalmente podem experimentar sentimentos de isolamento, frustração e impotência, além de enfrentar barreiras adicionais para prevenção, diagnóstico e tratamento de doenças.
Esses desafios tendem a afetar de forma desproporcional populações em situação de vulnerabilidade social, comunidades rurais, idosos, pessoas com deficiência e grupos historicamente sub-representados. Além disso, desigualdades de gênero presentes no ecossistema digital podem influenciar a qualidade, o acesso e a adequação das soluções tecnológicas em saúde.
Os autores defenderam uma abordagem de saúde pública para os DDS, capaz de maximizar benefícios e reduzir riscos. Entre as ações prioritárias estão a ampliação do acesso digital, o fortalecimento da alfabetização digital, o desenvolvimento de tecnologias inclusivas, a regulação adequada de plataformas digitais e sistemas de inteligência artificial e o incentivo à pesquisa interdisciplinar. Também foi ressaltada a importância de garantir transparência no uso de dados, fortalecer a cibersegurança e envolver populações vulneráveis no desenvolvimento de tecnologias digitais.
Em conclusão, as tecnologias digitais vêm transformando profundamente a forma como as pessoas se relacionam, cuidam da saúde e acessam informações. Embora ofereçam oportunidades significativas para melhorar a saúde física, mental e social, também podem gerar riscos importantes e ampliar desigualdades quando seu acesso ou utilização não ocorre de forma segura e equitativa. Por isso, Mechael e colaboradores (2026) defenderam que a promoção da inclusão digital, aliada à proteção contra danos e à redução das desigualdades, deve ocupar posição central nas políticas públicas e estratégias voltadas à saúde na era digital.