O XIX Congresso da Associação Latino-Americana de Diabetes foi realizado em Cusco, Peru, de 19 a 21 de novembro de 2025. Após um hiato de seis anos, desde o congresso anterior na República Dominicana, pesquisadores, clínicos e educadores em diabetes, em sua maioria da América Latina, tiveram a oportunidade de participar do maior evento científico latino-americano sobre diabetes. A seguir, um resumo de algumas das apresentações mais empolgantes.
O Dr. Guillermo Umpierrez (Geórgia, EUA) enfatizou a necessidade do uso disseminado de sistemas de monitorização contínua da glicose (CGMS) em hospitais, à luz das evidências crescentes de que esses sistemas ajudam a prevenir episódios de hipoglicemia em pacientes com diabetes tipo 1. No entanto, os CGMS não são ideais para diabetes tipo 2, pois ainda têm custo muito elevado.
O Dr. Rafael Violante (Tamaulipas, México) discutiu as novas diretrizes propostas pela Comissão Lancet para o diagnóstico de obesidade pré-clínica e clínica. Ele destacou que os conceitos emergentes de obesidade metabolicamente saudável ou não saudável não são relevantes para o diagnóstico de obesidade pré-clínica ou clínica. Por exemplo, obesidade clínica não significa necessariamente obesidade metabolicamente não saudável. Também não está claro qual é o significado da presença de alterações emocionais para definir obesidade pré-clínica ou clínica. A Dra. Emma Chávez (Cidade do México, México) argumentou que o sistema de estadiamento da obesidade de Edmonton oferece uma abordagem mais holística para classificar a obesidade, pois inclui sintomas físicos, psicológicos e limitações funcionais.
O Dr. Jaakko Tuomilehto (Helsinque, Finlândia) destacou a importância da prevenção do diabetes por meio de um estilo de vida saudável. Ele discutiu vários estudos que demonstraram a eficácia clínica de intervenções intensivas no estilo de vida, mostrando remissão do diabetes em 30–40% dos participantes do Reino Unido após um programa de dois anos. Outro estudo, com participantes finlandeses, mostrou uma redução de quase 60% no risco de diabetes após a intervenção no estilo de vida. Perda de peso, redução da obesidade central, alimentação saudável e atividade física foram os principais fatores associados à remissão do diabetes.
O Dr. Antonio Pérez (Barcelona, Espanha) abordou a esteato-hepatite associada à disfunção metabólica (MASH) e as doenças hepáticas. A gordura no fígado está associada ao dobro do risco de diabetes tipo 2, enquanto a fibrose hepática está associada a um risco cinco vezes maior de desenvolver diabetes tipo 2. Outro ponto mencionado foi que a pioglitazona e os agonistas duais dos receptores do peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1 (GLP‑1) e polipeptídeo insulinotrópico dependente de glicose (GIP) apresentam efeitos benéficos na doença hepática gordurosa, incluindo estágios avançados. Já os inibidores do cotransportador de sódio-glicose tipo 2 (SGLT2) melhoram quadros leves de doença hepática gordurosa, mas sua eficácia nos estágios avançados ainda não está clara.
O Dr. Rafael Gabriel (Madri, Espanha) discutiu a importância de medir a glicose no sangue 1 hora após o teste oral de tolerância à glicose, pois esse parâmetro parece ser um melhor preditor de diabetes do que a glicemia de jejum ou a glicose medida 2 horas após a sobrecarga de glicose.
O Dr. Jesus Rocca (Lima, Peru), o Dr. Miguel Pinto (Lima, Peru) e o Dr. Yulino Castillo (Santo Domingo, República Dominicana) apresentaram uma visão geral das complicações cardiorrenais e microvasculares iniciais do pré-diabetes. A mensagem conjunta foi que o pré-diabetes deve ser tratado com mudanças no estilo de vida e que, dependendo dos achados clínicos precoces, o tratamento com medicamentos também pode ser necessário para prevenir complicações futuras.
O Dr. Abdias Hurtado (Lima, Peru) enfatizou a importância do diagnóstico precoce da doença renal. A microalbuminúria já está presente em 40% dos indivíduos com diabetes tipo 2, em 25% daqueles com hipertensão e em 8% da população geral. O Dr. Jorge Rico (Barranquilla, Colômbia) apontou que, para prevenir complicações adicionais, o manejo adequado da doença renal deve incluir mudanças no estilo de vida e tratamento com novos medicamentos, como inibidores de SGLT2, inibidores do Sistema Renina-Angiotensina-Aldosterona (SRAA) e agonistas dos receptores de GLP‑1.
Outro tema importante foi a educação em diabetes. A Sra. Ana Fernanda Sánchez (Equador), psicóloga clínica e ex-vice-presidente da Federação Internacional de Diabetes, apresentou evidências de que a educação em diabetes melhora os desfechos da doença: redução da hemoglobina glicada e melhora da adesão ao tratamento. Ela fez um apelo pela padronização regional da educação em diabetes.
O Dr. Luis Castaño (Madri, Espanha) apresentou uma visão geral sobre a detecção precoce do diabetes tipo 1. Anticorpos monoclonais anti‑CD3 mostram resultados promissores para retardar o início da doença. Outro ponto destacado foi a importância da testagem de autoanticorpos contra insulina, como o descarboxilase do ácido glutâmico (GAD), antígeno associado ao insulinoma 2 (IA2) e transportador de zinco 8 (ZNT8) para detecção precoce do diabetes tipo 1, já que esses biomarcadores podem ser identificados mesmo antes do surgimento da hiperglicemia. Isso está alinhado aos quatro estágios do diabetes tipo 1. O rastreamento de autoanticorpos nos estágios iniciais parece reduzir a cetoacidose e pode levar a um melhor manejo da doença. O Dr. Castaño sugeriu priorizar o rastreamento entre parentes de primeiro grau de indivíduos com diabetes tipo 1.
O Dr. Chih Hao Chen Ku (San José, Costa Rica) apresentou uma visão geral das alternativas farmacológicas mais recentes para o tratamento da obesidade. Mazdutida é um agonista duplo dos receptores de glucagon e GLP‑1, administrado uma vez por semana por via injetável, já aprovado na China. Retatrutida é um agonista triplo que atua nos receptores de GLP‑1, GIP e glucagon. O Dr. Andrés Jaramillo (Bogotá, Colômbia) discutiu dois novos análogos de insulina de ação prolongada para o tratamento do diabetes tipo 2: efsítora e icodec, administrados uma vez por semana. Esses novos medicamentos foram associados a eventos hipoglicêmicos moderados a graves em indivíduos com diabetes tipo 1.
A Dra. Silvia Lapertosa (Corrientes, Argentina) apresentou um panorama sobre o diagnóstico de diabetes gestacional. Aproximadamente 14% de todas as gestações são complicadas pela condição, e um grande desafio é a falta de consenso sobre os critérios diagnósticos. Estudos preliminares mostraram que reduzir o ponto de corte para diagnóstico, levando ao sobrediagnóstico, não melhora os desfechos clínicos.
O Dr. Segundo Seclén (Lima, Peru) destacou a necessidade de diretrizes para o manejo do diabetes tipo 2 e das doenças cardio‑renal‑metabólicas na região. Atualmente, uma comissão da Associação Latino-Americana de Diabetes está trabalhando nessa tarefa, levando em consideração as necessidades e os recursos disponíveis na América Latina para o tratamento do diabetes tipo 2.
O Dr. Guillermo Umpierrez (Geórgia, EUA) comparou os benefícios do uso de inibidores de SGLT2 e agonistas duplos dos receptores GLP‑1/GIP para o tratamento do diabetes tipo 2. Ele afirmou que a escolha entre esses medicamentos deve ser baseada na avaliação clínica do paciente. Inibidores de SGLT2 reduzem eventos cardiovasculares adversos maiores em 14%, de forma semelhante aos agonistas do receptor GLP‑1. No entanto, os inibidores de SGLT2 são superiores aos agonistas de GLP‑1 na melhora da insuficiência cardíaca. Eles também devem ser a opção preferencial para redução de eventos renais, enfatizou. Entretanto, a semaglutida e os agonistas do receptor GLP‑1 são superiores aos inibidores de SGLT2 para o tratamento da doença hepática gordurosa devido ao efeito na perda de peso. Embora ambos os tipos de medicamentos tenham efeitos semelhantes na mortalidade cardiovascular, os inibidores de SGLT2 são menos caros do que os agonistas de GLP‑1. Outro ponto importante foi que dois terços dos pacientes tratados com tirzepatida, um agonista duplo dos receptores GLP‑1/GIP, recuperam peso corporal; 60% abandonam o tratamento após um ano; e 80% o interrompem após dois anos. Apesar disso, ele reforçou que um estilo de vida saudável é fundamental para o tratamento da doença.