| A investigação linguística na batalha contra a neurodegeneração |
Um dos maiores desafios para a saúde púbica de nossa era é o aumento dos transtornos neurodegenerativos. Ao longo do planeta, doenças como Alzheimer, Parkinson e a demência frontotemporal implicam altas taxas de incapacidade e mortalidade. Tais quadros afetam hoje em torno de 55 milhões de pessoas, quantidade que irá se triplicar até 2050. Este crescimento será particularmente marcado em países de médio e baixo ingresso, onde os fatores de risco possuem um maior impacto e as abordagens clínicas convencionais são menos acessíveis.
Diante deste cenário, múltiplos grupos de investigação estão desenvolvendo inovações digitais econômicas e escaláveis para facilitar o diagnóstico e a avaliação clínica. Entre elas se destaca as avaliações da fala e da linguagem, que permitem detectar, caracterizar e seguir a evolução das doenças. Por exemplo, pessoas com Alzheimer somente possuem dificuldades para encontrar palavras, construir orações gramaticalmente complexas e compreender ou expressar enunciados figurativos. Estes déficits linguísticos, que aparecem nas fases precoces e pré-clínicas da doença, permitem diferenciar o Alzheimer de outras demências, prevendo a aparição de sintomas principais e identificando anomalias cerebrais características do transtorno.
Na atualidade, a abordagem se vê potenciada graças a inteligência artificial. As novas tecnologias digitais permitem captar alterações em amostras de linguagem gravado ou escrito, em um ambiente não invasivo, acessível e escalável. Estes tios de soluções são essenciais para diminuir as disparidades clínicas entre países de ingresso baixo, médio e alto. De fato, foram incorporados a iniciativas de pesquisa multicêntricas, programas de financiamento internacional e vários empreendimentos científicos. No entanto, há que salientar um desafio crítico: a baixa diversidade linguística neste domínio ameaça a sua capacidade de expansão e limita o seu potencial para favorecer avaliações mais equitativas a nível global.
| Estudar a língua ou estudas as línguas? |
O campo mostra desigualdade notáveis
Das 7.000 línguas do mundo, menos de 0,5% tem sido estudada em pessoas com neurodegeneração. Além disso, embora apenas 17% da população mundial fale inglês, esta língua representa quase 70% de todos os estudos publicados. Ainda, são muitos poucos os idiomas que contam com modelos de linguagem grandes e ferramentas de extração de características. Claro, nada disto seria um problema se os laços entre as alterações linguísticas e as disfunções cerebrais fossem universais, isto é, idêntico nas diferentes línguas. No entanto, a realidade é muito mais complexa.
Na verdade, os sintomas de fala e linguagem dependem profundamente da língua em questão, o que põe em causa a universalidade dos critérios diagnósticos e dos possíveis marcadores verbais de cada doença. Por exemplo, estudos sobre produção de frases na doença de Alzheimer mostraram que os falantes de italiano são caracterizados pela tendência a omitir assuntos gramaticais, algo que não é observado em falantes de inglês. Essa diferença se deve à estrutura de cada idioma. Ao contrário do inglês, o italiano permite que os sujeitos das frases sejam inferidos a partir de conjugações verbais (o verbo italiano 'camminiamo' implica inerentemente um sujeito na primeira pessoa do plural, enquanto o verbo inglês 'walk' requer um precedente 'nós' para transmitir o mesmo significado). Além disso, certas anomalias linguísticas podem ser diametralmente opostas entre as línguas. Pesquisas sobre a doença de Alzheimer mostram que diferentes pronomes (palavras como 'eu', 'seu', 'nosso') tendem a ser usados em excesso entre pacientes que falam inglês e subutilizados naqueles que falam bengali. Isto também provavelmente reflete diferenças entre as duas línguas, uma vez que o bengali inclui muito mais pronomes (e morfologicamente mais complexos) do que o inglês. Em resumo, os marcadores linguísticos que caracterizam uma doença em falantes de uma língua podem não ser relevantes para falantes de outra.
| Ações em andamento |
É fundamental, então, considerar a diversidade linguística ao examinar o impacto linguístico da neurodegeneração. É o que propomos em nosso recente artigo na revista Brain (García et al., 2023). Defendemos a expansão da representação linguística e a incorporação de comunidades linguísticas múltiplas para identificar marcadores comuns e distintos entre línguas. É necessário estabelecer colaborações multicêntricas, protocolos harmonizados e ferramentas interlinguísticas para alcançar uma compreensão mais inclusiva e abrangente destes fenómenos a nível global. Isto envolve superar desafios fundamentais, como o desenvolvimento de sistemas robustos para comparar resultados entre línguas, diferenciar entre fontes de variabilidade linguísticas e não linguísticas e obter financiamento para investigação em línguas menos representadas. Idealmente, as ligações entre o local e o global deveriam ser priorizadas, para integrar as necessidades e recursos específicos de cada país com as principais tendências globais.
Esforços estratégicos já estão sendo feitos nessa direção. Por exemplo, a Rede Internacional de Investigação Interlinguística sobre a Saúde do Cérebro (Incluir), apoiada pelo Global Brain Health Institute, pela Alzheimer's Association e pela Alzheimer's Society, procura promover abordagens equitativas e transregionais à questão. A rede tem crescido continuamente desde o seu lançamento em Novembro de 2022 e conta agora com mais de 140 membros em 80 centros em 30 países. Estão a ser implementados cinco projetos entre os centros da rede, dedicados a fenómenos diversos em vários idiomas e em grandes coortes de pessoas com doença de Alzheimer, Parkinson e variantes da demência frontotemporal. Incluir também lidera ações de sensibilização, como a série de webinars sobre Diversidade Linguística e Saúde do Cérebro, organizada em colaboração com a Associação de Alzheimer. Iniciativas como estas procuram promover a equidade na investigação linguística sobre disfunções cerebrais.
| Como um fechamento |
Avaliações de fala e linguagem são vitais para detectar marcadores robustos de doenças neurodegenerativas. No entanto, para concretizar plenamente o seu potencial, é fundamental colmatar a lacuna linguística, adoptando amostras mais diversificadas e práticas mais inclusivas. Estas ações são essenciais para evitar que essas ferramentas valiosas e potencialmente equitativas se tornem uma nova fonte de desigualdade global.