| Introdução |
Com o aumento da exposição e acesso de crianças e adolescentes a dispositivos eletrônicos e a crescente popularidade das mídias sociais, o cyberbullying se tornou uma crescente preocupação de saúde pública que afeta crianças e adolescentes globalmente. O cyberbullying pode ser mais insidioso e malicioso do que o bullying tradicional, porque pode ser perpetrado anonimamente, ocorrer fora do horário escolar, atingir um público online mais amplo e permanecer preservado de forma mais permanente. Essas distinções o tornam especialmente difícil para cuidadores, educadores e outras figuras adultas agirem contra ele de forma eficaz.
Embora o cyberbullying tenha sido associado a resultados adversos à saúde, a maioria dos estudos anteriores são transversais e existem poucas análises prospectivas em larga escala que examinam o cyberbullying e a saúde mental e os resultados do uso de substâncias em adolescentes. Portanto, Nagata e colaboradores (2025) realizaram um estudo com o objetivo de determinar as associações prospectivas entre cyberbullying, saúde mental e experimentação com uso de substâncias um ano depois, em uma coorte nacional dos EUA de adolescentes (11–12 anos).
| Métodos |
Os pesquisadores analisaram dados prospectivos de coorte do Estudo do Desenvolvimento Cognitivo do Cérebro Adolescente (ABCD) (Ano 2, N = 9799). Análises de regressão linear e logística foram usadas para determinar associações entre a vitimização por cyberbullying (variável de exposição, Ano 2) e saúde mental (depressão, ansiedade, atenção, somáticos, oposição desafiadora, problemas de conduta e comportamentos suicidas) e resultados de experimentação com uso de substâncias (álcool, nicotina, cannabis) (Ano 3), ajustando para variáveis sociodemográficas e resultados de saúde mental, comportamentos suicidas ou experimentação relatada com uso de substâncias no Ano 2.
| Resultados |
No total, foram incluídos 9.799 adolescentes no estudo. Quase metade (48,4%) eram do sexo feminino e 45,1% se autodeclararam não brancos. A maioria dos participantes (87,6%) era heterossexual. Quase um décimo (9,4%) dos adolescentes relataram já ter sido vítima de cyberbullying e 1,0% relataram ter praticado cyberbullying.
Nos modelos de regressão linear, ajustando para covariáveis, a vitimização por cyberbullying foi prospectivamente associada ao aumento de problemas depressivos, somáticos e de atenção um ano depois, com pequenos tamanhos de efeito. Nos modelos de regressão logística ajustando para covariáveis, a vitimização por cyberbullying foi moderadamente associada ao álcool e qualquer experimentação com uso de substâncias um ano depois. Adicionalmente, a vitimização por cyberbullying foi fortemente associada à experimentação com nicotina e cannabis, bem como a comportamentos suicidas, um ano depois.
Várias análises de sensibilidade foram realizadas para as associações entre vitimização por cyberbullying e saúde mental e experimentação com uso de substâncias. Quando estratificadas por sexo, as associações prospectivas entre vitimização por cyberbullying e problemas somáticos e de atenção/déficit foram significativas apenas em adolescentes do sexo masculino, enquanto problemas depressivos e comportamentos suicidas foram significativos apenas no feminino. Após o ajuste para o tempo total de tela no Ano 2, além de outras covariáveis, os resultados foram semelhantes, embora a associação com problemas depressivos tenha sido atenuada e não mais estatisticamente significativa. No modelo que excluiu participantes com qualquer experimentação com uso de substâncias no Ano 2 (representando nova experimentação com uso de substâncias), a vitimização por cyberbullying permaneceu prospectivamente associada a novos resultados de experimentação com uso de substâncias, e as razões de chances foram relativamente semelhantes nos modelos 2 e 3.
Não houve associações significativas entre a prática de cyberbullying e os resultados de saúde mental nos modelos ajustados. No entanto, essa prática foi associada a maiores chances de comportamentos suicidas e experimentação com uso de substâncias um ano depois.
| Conclusão |
Os resultados sobre as associações entre vitimização por cyberbullying e problemas de saúde mental e uso de substâncias em adolescentes têm implicações importantes para a adaptação e implementação de orientações sobre tecnologia digital para adolescentes e seus pais. Os pediatras e profissionais de saúde mental podem considerar avaliar o cyberbullying e fornecer apoio e orientação para adolescentes que relatam vitimização. Os currículos de literacia digital nas escolas podem ensinar estratégias de proteção para prevenir a vitimização por cyberbullying e desencorajar o envolvimento na prática de bullying.
Pesquisas futuras podem fornecer mais orientações para mitigar os potenciais consequências para a saúde mental associadas ao cyberbullying, bem como orientações para preveni-lo entre adolescentes, como a identificação de padrões problemáticos de uso de telas.