Desde dezembro de 2019, inúmeros casos de pacientes admitidos no hospital com uma nova doença caracterizada por pneumonia e insuficiente respiratória causada por um novo coronavírus (SARS-CoV-2) foram relatados. Posteriormente, mesmo após a adoção de extensas medidas de contenção, a doença continuou a se espalhar, afetando o resto dos países asiáticos, o meio Oriente e Europa. Em 11 de março, a COVID-19 foi declarada uma pandemia em uma conferência de imprensa mundial realizada por Tedros Adhanom Ghebreyesus, Diretor Geral da OMS.
Sociedades de Cuidados Intensivos do mundo todo adotaram medidas com o objetivo de reduzir o impacto da pandemia nas Unidades de Cuidados Intensivos (UTIs) e sistema de saúde. O plano de contingência foi útil para projetar o aumento carga de saúde que as UTIs enfrentariam e como ajustar-se a situação de uma maneira planejada e organizada.
“Espere pelo melhor, mas prepare-se para o pior.”
As recomendações éticas sobre a tomada de decisão foi a base dos e Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) na maioria dos hospitais. Os PCDT são os documentos oficiais do SUS que estabelecem critérios para o diagnóstico de uma doença ou agravo à saúde; tratamento preconizado, com os medicamentos e demais produtos apropriados, quando couber; posologias recomendadas; mecanismos de controle clínico; e acompanhamento e verificação dos resultados terapêuticos a serem seguidos pelos gestores do SUS.1 No Brasil, o Ministério da Saúde disponibilizou “As Diretrizes Brasileiras para Tratamento Hospitalar do Paciente com COVID-19” com objetivo de contribuir para sistematizar e padronizar os procedimentos terapêuticos destinados aos pacientes com COVID-19, entendendo que a sua disponibilização e implementação, podem favorecer a redução da morbimortalidade.1
O tratamento de pacientes críticos com pneumonia durante a pandemia foi o maior desafio enfrentada pela Medicina Intensiva em toda a sua história. Os intensivistas, em colaboração com muitos outros profissionais, habilitaram até 300% mais leitos de pacientes críticos em hospitais - isso representando um desafio no atendimento e na logística sem precedentes. No entanto, também houveram muitas outras dificuldades. As evidências sobre a gestão da pneumonia causada pela COVID-19 eram muito limitadas, visto que se tratava de uma doença nova, exigindo atualização permanente dos protocolos de atendimento. Da mesma forma, o aumento mundial no consumo de muitos medicamentos comumente usados em Medicina Intensiva tornou necessário recorrer a alternativas menos ótimas. A atribuição de recursos em situação de escassez resultou em sofrimento moral somado à sobrecarga de trabalho existente. Embora o equipamento de proteção (EPI) seja essencial para a segurança da equipe médica, a grande demanda por esses equipamentos tornou necessária uma grande racionalização do seu uso. Por outro lado, a aquisição de equipamentos médicos, fundamentalmente respiradores, foi limitada devido à grande demanda mundial e a escassa produção de tais equipamentos.
Foi nessa situação de extrema necessidade que surgiram os profissionais - no sentido máximo da palavra. As equipes médica e de enfermagem das Unidades de Terapia Intensiva trabalharam até a exaustão nos dias mais difíceis, em um ato de sacrifício, até que praticamente não sobrou nada. Eles aprenderam na correria com experiencias anteriores de colegas e até mesmo de médicos de outras áreas do mundo que foram afetados primeiro e que combatiam o efeito de “bola de neve” no qual eram testemunhos do aumento exponencial dos casos. As redes sociais mostraram-se essenciais no processo de compartilhamento de informação entre os profissionais, e como tal, constituíram uma forma de comunicação inédita.2
A Medicina Intensiva tem participado da crise exercendo uma liderança silenciosa evidenciada no ponto de atendimento e na geração de documentos de enorme valor, não só pelo momento em que foram publicados, mas também devido à prudência e rigor dos seus conteúdos.2
Em suma, os intensivistas mostraram que, apesar das circunstâncias adversas, eles foram capazes de organizar, colaborar com outros especialistas e se adaptar com resiliência para gerenciar todos os pacientes críticos com pneumonia. É necessário que eles se preparem para o retorno da normalidade dos hospitais. processo não será fácil nem rápido, mas deve contemplar a necessidade de proteger equipamentos suficientes para lidar com outras catástrofes no futuro.