Disponíveis no mercado há 60 anos, ainda há incertezas ao redor dos efeitos do uso a longo prazo de contraceptivos orais. A sugestão de que o uso desses medicamentos aumentasse o risco de cânceres de mama, ovário e endométrio é uma crença que foi inicialmente suportada por análises clínicas, mas hoje, apresenta evidências conflitantes.
De modo geral, a evidência atual até então apontavam para um risco de câncer de mama levemente maior em pacientes que fizeram uso de contraceptivos orais nos 10 anos anteriores quando comparadas a pacientes que não os utilizaram (1), resultado que foi observado em outros estudos (2). Por outro lado, há estudos que apontam para a falta de uma correlação entre os dois fatos – isso é, não observou associação entre uso atual ou prévio de contraceptivos e aumento no risco de câncer de mama (3, 4). Em relação ao câncer de ovário e endométrio, a literatura parece concordar em maioria que o uso de anticoncepcionais aponta para menores riscos de desenvolvimento destes cânceres (5, 6).
Apesar dos diversos estudos pontuais citando risco reduzido de cânceres de ovário e mama, não há evidências sobre os efeitos resultantes do uso a longo prazo, sendo assim necessários estudos que detalhem o risco oncológico para essas pacientes.
Com isso em mente, Karlsson e colaboradores realizaram um estudo observacional de longo prazo com 256.661 mulheres nascidas entre 1939 e 1970 cadastradas no Biobanco Britânico para coletar informações sobre o desenvolvimento de cânceres nas pacientes. Como objetivo primário, os pesquisadores desejavam determinar a relação entre o tempo de uso da terapia contraceptiva oral e a variação do risco de câncer em pacientes.
Das mais de 250 mil mulheres incluídas no estudo, 82% (210,443) estavam fazendo ou já tinham feito uso de contraceptivos orais e foram classificadas como “usuárias”, enquanto 18% (46,218) nunca haviam os consumido e foram classificadas como “não usuárias”. Em comparação ao grupo não-usuário, as pacientes em uso de anticoncepcionais orais eram mais novas, com menor IMC, de melhor status socioeconômico e com maior frequência de fumantes.
A incidência de câncer no grupo estudado foi similar ao encontrado na população feminina britânica.
No total, 17.739 casos de câncer de mama foram identificados ao longo do estudo (ocorrência em 6,9% das envolvidas), 1.966 casos de câncer de ovário (0,76% das envolvidas) e 2.462 casos de câncer endometrial (0,96% das envolvidas). O número de casos foi maior no grupo que nunca fez uso de contraceptivos orais quando comparado com a usuárias frequentes – o que acredita-se ser explicado pela maior idade média do grupo de não-usuárias. Diversas covariáveis influenciaram as estatísticas de ocorrências de cânceres, para quais as análises foram ajustadas.
Ao final das análises, os pesquisadores determinaram que a probabilidade do desenvolvimento de neoplasias ovarianas e endometriais foi menor nas pacientes usuárias de contraceptivos orais quando comparados ao grupo de não-usuárias (OR = 0.72; 95% CI, 0.65–0.81 e OR = 0.68; 95% CI, 0.62–0.75; respectivamente).
Por outro lado, os autores afirmam não terem encontrado associações entre o uso de contraceptivos orais e a ocorrência de câncer de mama (OR = 1.02; 95% CI, 0.98–1.06). Na análise de sensibilidade, os pesquisadores corroboram o dado estatístico encontrado: os resultados realmente foram extremamente similares aos obtidos nas análises de risco. O mesmo ocorreu quando diferentes períodos de acompanhamento foram considerados – com exceção do câncer de mama, o qual teve aumento do risco em algumas variações do período de follow-up.
Em se tratando da duração da terapia contraceptiva oral, as participantes do estudo geraram uma média de uso de 10,7 anos. A probabilidade de desenvolvimento de câncer ovariano e endometrial nas pacientes que utilizaram contraceptivos orais por ao menos 20 anos foi menor do que o risco geral do estudo, com ORs de 0,60 (95% CI, 0.48– 0.75) e 0.36 (95% CI, 0.28–0.45), respectivamente.
Também foi observada uma tendência relacionando o tempo de duração de uso da terapia contraceptiva com a probabilidade de desenvolimento de câncer endometrial e ovariano, o que não pode ser observado para o câncer de mama (Figura 1).
Figura 1. Estimativa de risco e 95% IC para a duração do uso de contraceptivos orais quando comparados a pacientes que nunca os utilizaram. Conforme o período de utilização aumentou, a probabilidade de desenvolver cânceres de ovário e endométrio reduziram. Não foi observada tal relação para o câncer de mama.
Em mulheres que tiveram filhos, a interrupção do uso de anticoncepcionais é comum. Os pesquisadores estimaram que, para esse grupo de pacientes, o risco de câncer de endométrio e ovário é levemente aumentado (OR = 0.967; 0.951-0.982 e OR = 0,961; 0,945-0,977, respectivamente) para cada ano de utilização de contraceptivos orais, mas se manteve similar para câncer de mama.
Os autores, então, determinam que foi encontrado um risco aumentado para câncer de mama nas pacientes usuárias de contraceptivos orais. Entretanto, quando o acompanhamento das pacientes foi realizado até os 50 anos de idade, foi obtido um OR de 1,09. Dessa forma, sugere-se que o risco de desenvolvimento de câncer de mama é similar ao longo da vida entre pacientes usuárias e não-usuárias de contraceptivos orais.
Por fim, os autores concluem informando que foi notada redução da probabilidade geral de desenvolvimento de câncer de ovário e do endométrio, com capacidades protetoras que perduram mesmo por décadas após a interrupção do uso, especialmente no câncer endometrial. Por outro lado, notou-se o maior aumento no risco oncológico de câncer de mama quando há a interrupção repentina do contraceptivo.
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