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/ Published on November 3, 2025

Conteúdo patrocinado por FQM S.A.

Consenso Brasileiro de diagnóstico e tratamento da insônia em adultos

Conteúdo exclusivo produzido pelo Prof. Dr. Luciano F. Drager

Author: Prof. Dr. Luciano F. Drager

O transtorno de insônia crônica é uma condição clínica cada vez mais comum, sendo uma queixa frequente na nossa sociedade.1 Esse cenário vem sendo acompanhado, não somente de significativa evolução no tratamento, mas também de desafios para uma correta abordagem do paciente. Neste highlight do último Consenso Brasileiro de Insônia2 serão discutidos de forma objetiva alguns pontos centrais para seu correto diagnóstico e tratamento. Para este último, daremos especial ênfase ao uso do zolpidem e os cuidados para evitar e tentar manejar o uso abusivo desse importante tratamento farmacológico.

Diagnóstico da insônia

Um dos pontos centrais do Consenso foi relacionado ao diagnóstico apropriado deste relevante distúrbio de sono. Embora o diagnóstico da insônia não seja difícil, é necessário padronização e correta caracterização das queixas do paciente. O diagnóstico da insônia é essencialmente clínico; e exames adicionais, como a polissonografia, podem ser indicados quando existe a suspeita de algum outro distúrbio do sono associado a ela.2

Importantes princípios devem ser considerados, como a frequência; o tipo de insônia (inicial, de manutenção, despertar precoce); o momento dos eventos de insônia; os hábitos de vida e a rotina do sono; os tratamentos prévios; os fatores/as comorbidades que podem precipitar ou perpetuar o quadro.2

Quando as queixas de insônia ocorrem, pelo menos, 3 vezes por semana por ao menos 3 meses, trata-se de um quadro de insônia crônica (Fluxograma 1).É importante entender o tipo de insônia, pois ajuda a definir qual o tratamento a ser iniciado.2


Fluxograma 1. Diagnóstico diferencial da insônia. Adaptado de: Drager LF, et al., 2023; Ferré-Masó A, et al., 2020.2,3. 

Legenda: SPI: síndrome das pernas inquietas; TSRC: transtorno do ritmo circadiano; TOC: transtorno obsessivo-compulsivo; MPM: movimento periódico de membros; AOS: apneia obstrutiva do sono.

Tratamento não farmacológico

A não observação de que a insônia, frequentemente, requer tratamento multifacetado, gera respostas insuficientes ou estimula o uso crônico de medicamentos. Partindo desse princípio, o tratamento não farmacológico é um dos pilares no manejo da insônia. Adotar boa higiene do sono na orientação geral do paciente e, sempre que possível, indicar a terapia cognitivo-comportamental aplicada à insônia (TCC-I), habitualmente feita por um psicólogo qualificado, deve fazer parte da rotina. Além da higiene do sono, a TCC-I engloba psicoeducação, controle de estímulos e técnicas de restrição de sono, de reestruturação cognitiva e de relaxamento.2 Diversos estudos randomizados e metanálises demonstraram diminuição da gravidade da insônia, melhora da qualidade do sono e de marcadores de fragmentação do sono com a TCC-I.4

Tratamento farmacológico

Pacientes com insônia, com grande frequência, vão necessitar de tratamento farmacológico. Temos, hoje, uma quantidade relativamente grande de classes aprovadas para uso, sendo ainda muito comum a utilização off-label de alguns tratamentos, sem comprovação científica evidente.2 Nesse sentido, alguns princípios se fazem necessários:

- Não colocar todo o sucesso do tratamento na medicação escolhida e reforçar sempre as práticas não farmacológicas: a incorporação destas medidas pode facilitar a retirada da medicação;

- Avaliar o tipo de insônia na seleção do tratamento: enquanto existem opções para a insônia inicial somente, outras podem ser usadas para todos os tipos de insônia;

- Para o sucesso do tratamento da insônia, é fundamental tratar condições muito comumente associadas a ela (ansiedade, depressão etc.);

- Respeitar a dose máxima preconizada da medicação;

- Embora tenhamos pacientes com dificuldades de retirada da medicação, a recomendação usual é para um tratamento de curta duração (a maioria das bulas das diferentes classes recomenda tratamento de 1 a 3 meses). Este período é justificado pela falta de estudos avaliando segurança e eficácia a longo prazo;

- Não deixe de referenciar casos mais difíceis para médicos com especialização em sono: um erro comum é a mera repetição de receita sem qualquer reavaliação.

A importância dos fármacos Z

No mundo, a classe dos agonistas seletivos de receptores benzodiazepínicos – os chamados fármacos Z – constitui-se como a mais prescrita para o tratamento farmacológico da insônia, justificada pela existência de diversos estudos respaldando o seu uso.2 Dentre as opções terapêuticas deste grupo está o zolpidem, um agente hipnótico da classe das imidazopiridinas que age na subunidade α1 dos receptores do ácido gama-aminobutírico tipo A (GABA A).2

Existem diversas apresentações desta molécula, permitindo o seu uso nos diferentes tipos de insônia.

Variados estudos e metanálises sugerem a eficácia da medicação na melhora dos sintomas da insônia e na qualidade do sono, no aumento no tempo total de sono e na redução da latência de sono (tempo que a pessoa leva para dormir após deitar).5 No geral (com dose adequada e planejamento terapêutico), o zolpidem é bem tolerado.2

Os efeitos colaterais mais comuns incluem: sonolência (5%), tontura (5%), cefaleia (3%), sintomas gastrointestinais (4%), sonambulismo (1%), pesadelos (1%-2%) e confusão mental (1%-2%).2 Atenção especial deve ser dada para seu uso em pacientes da terceira idade, pela possibilidade de quedas. Alterações comportamentais (desinibição, agressividade, impulsividade, alucinações visuais e auditivas e condução de veículos) são efeitos menos comuns, mas mais prevalentes em associação com álcool (hábito que observamos recentemente em diversos relatos de uso abusivo).2

Devido à ampla literatura que embasa o uso desta classe, temos observado crescente uso indiscriminado, contribuindo não só para a dependência, mas também para efeitos colaterais significantes, sendo a recente determinação da necessidade de receita azul para este grupo motivada como medida de maior controle para evitar os abusos. O uso racional, bem como a correta avaliação e reavaliação dos pacientes durante o uso da medicação, devem ser prioridade para garantir o tratamento adequado.2

Considerações finais

Os chamados fármacos Z (entre eles o zolpidem) são, há décadas, as medicações mais usadas no mundo para o tratamento da insônia. Este cenário foi determinado por evidências científicas respaldando o seu uso, sendo o zolpidem opção farmacológica eficaz e bem tolerada.2,5 No entanto, é importante entender que o tratamento da insônia requer mudança comportamental e abordagem de comorbidades associadas. A falta frequente da abordagem não medicamentosa, aliada à inércia terapêutica do tratamento da insônia (como destacado anteriormente com a mera repetição terapêutica), contribui para o aumento de casos de respostas insuficientes, uso abusivo e efeitos colaterais indesejados. Melhorar a abordagem da insônia no dia a dia do consultório pode trazer grandes benefícios para os pacientes.

Referências bibliográficas

1. Morin CM, Buysse DJ. Management of Insomnia. N Engl J Med. 2024;391(3):247-58.

2. Drager LF, Assis M, Bacelar AFR, Poyares DLR, Conway SG, Pires GN, et al. 2023 Guidelines on the Diagnosis and Treatment of Insomnia in Adults - Brazilian Sleep Association. Sleep Sci. 2023;16(Suppl 2):507-49.

3. Ferré-Masó A, Rodriguez-Ulecia I, García-Gurtubay I. Differential diagnosis of insomnia from other comorbid primary sleep disorders. Aten Primaria. 2020;52(5):345-54.

4. van der Zweerde T, Bisdounis L, Kyle SD, Lancee J, van Straten A. Cognitive behavioral therapy for insomnia: A meta-analysis of long-term effects in controlled studies. Sleep Med Rev. 2019;48:101208.

5. Xiang T, Cai Y, Hong Z, Pan J. Efficacy and safety of Zolpidem in the treatment of insomnia disorder for one month: a meta-analysis of a randomized controlled trial. Sleep Med. 2021;87:250-6.



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