A demência é uma condição neurodegenerativa que afeta milhões de pessoas no mundo, e compreender seus fatores de risco é essencial para estratégias de prevenção eficazes. Evidências indicaram que fatores vasculares modificáveis, como hipertensão, diabetes e tabagismo, desempenham um papel significativo no desenvolvimento dessa doença, especialmente quando presentes na meia-idade e no início da idade avançada.
Diante disso, Smith e colaboradores (2025) investigaram a proporção de casos de demência atribuíveis a esses fatores, além de explorarem variações conforme o genótipo da apolipoproteína ε4, raça autodeclarada e sexo.
O estudo de coorte prospectivo utilizou dados do Atherosclerosis Risk in Communities (ARIC), de 1987 até 2020. Foram incluídos participantes negros e brancos com dados completos de exposição e covariáveis, divididos conforme a idade na medição dos fatores de risco: 45–54 anos, 55–64 anos e 65–74 anos. As exposições analisadas incluíram hipertensão (pressão arterial sistólica ≥130 mmHg, diastólica ≥80 mmHg ou uso de medicação), diabetes (glicemia de jejum ≥126 mg/dL, glicemia não em jejum ≥200 mg/dL, diagnóstico médico autorreferido ou uso de medicação) e tabagismo atual.
A análise dos dados revelou que a proporção de casos de demência atribuíveis a fatores de risco vasculares variou conforme a idade em que esses fatores foram medidos. Entre os participantes com idade entre 45 e 54 anos (n = 7731; 58% mulheres; 29% negros; 71% brancos), foram registrados 801 casos de demência até os 80 anos, com uma fração atribuível de 21,8%.
Na faixa etária de 55 a 64 anos (n = 12.274; 55% mulheres; 24% negros; 76% brancos), houve 995 casos, com fração atribuível de 26,4%.
Já entre os participantes de 65 a 74 anos (n = 6787; 56% mulheres; 20% negros; 80% brancos), foram identificados 422 casos, com uma fração atribuível significativamente maior, de 44,0%. Esses resultados indicaram que o impacto dos fatores vasculares sobre o risco de demência aumenta com a idade em que são avaliados.
Além disso, as frações atribuíveis foram mais elevadas em determinados subgrupos populacionais. Indivíduos não portadores do alelo apolipoproteína ε4 apresentaram frações entre 33,3% e 61,4% a partir dos 55 anos, sugerindo maior influência dos fatores vasculares na ausência de predisposição genética. Pessoas negras autodeclaradas mostraram frações entre 25,5% e 52,9% a partir dos 45 anos, enquanto mulheres apresentaram frações entre 29,2% e 51,3% a partir dos 55 anos, evidenciando desigualdades no risco atribuível. Por outro lado, após os 80 anos, apenas 2% a 8% dos casos de demência foram atribuíveis a esses fatores, indicando que sua influência é mais significativa antes dessa faixa etária.
Em resumo, o estudo sugeriu que entre 22% e 44% dos casos de demência até os 80 anos podem ser atribuídos à presença de fatores de risco vasculares na meia-idade e no início da idade avançada. Considerando uma relação causal, preservar a saúde vascular ao longo da vida pode reduzir significativamente o risco de demência antes dos 80 anos.