A prevalência global da dor é alarmante, superando a soma dos casos de câncer, diabetes e doenças cardíacas combinados. Como a condição pode ser desencadeada por diversos motivos, ela não deve ser considerada uma consequência inevitável do envelhecimento, uma vez que possui potencial para ser prevenida e tratada.
Apesar da sua relevância clínica e social, ainda há pouca pesquisa sobre as tendências internacionais e as disparidades sociais na dor entre adultos de meia-idade e idosos (50 anos ou mais). No entanto, a vigilância global é dificultada pelo fato de a condição não ser avaliada rotineiramente em inquéritos nacionais de saúde. Documentar essas tendências é importante para compreender como mudanças populacionais e políticas moldam os resultados de saúde, transformando a visão da dor de um problema puramente individual para uma questão de saúde pública populacional.
Diante dessa lacuna, Calvo e colaboradores (2026) apresentaram a primeira análise longitudinal transnacional a utilizar medidas repetidas de nível individual para avaliar "qualquer dor" em adultos acima de 50 anos em três continentes, buscando comparar como disparidades de sexo, nível educacional e idade variam entre os países ao longo do tempo.
O estudo baseou-se em uma análise longitudinal de dados de 212.904 adultos com 50 anos ou mais, provenientes de 22 países em três continentes (Europa, Ásia e Américas). Esses foram extraídos de seis estudos de coorte nacionalmente representativos. Para definir o desfecho de dor, os pesquisadores harmonizaram dois tipos de abordagens de questionário em uma variável dicotômica indicando "qualquer dor". Foram conciliadas perguntas gerais (ex: "Você é frequentemente incomodado por dor?") e específicas por local (ex: "Em que parte do corpo você sente dor?"). As principais variáveis independentes incluíram o país e o ano da pesquisa, além de covariáveis demográficas e sociais: sexo, nível educacional e idade.
Com base nos dados analisados entre 1998 e 2018, os resultados revelaram um cenário preocupante para a saúde pública global. A prevalência bruta de dor, considerando todos os países e anos agrupados, foi de 43,21%, apresentando uma continuidade de 74% entre as ondas das pesquisas, o que reforça o caráter crônico da condição na população acima de 50 anos. Quando ajustada pelos instrumentos de coleta, a prevalência variou significativamente entre as nações, com os menores índices registrados na Holanda em 2006 (26,70%) e os maiores na França em 2016 (59,20%).
No período de uma década (2006–2016), a prevalência de dor aumentou substancialmente em 15 dos 22 países estudados, com um crescimento médio anual de 1,21 ponto percentual, totalizando um aumento de 12,1 pontos percentuais no período. Em contrapartida, a China apresentou um declínio anual significativo, enquanto seis países (Áustria, Dinamarca, Alemanha, México, Suécia e Suíça) mantiveram taxas estáveis. Os autores ressaltaram que essas tendências não podem ser explicadas apenas por mudanças demográficas, como o envelhecimento populacional ou níveis educacionais, sugerindo a influência de fatores políticos e sociais específicos de cada país. No caso da China, essa queda pode ser atribuída à automação industrial, melhorias nos padrões de vida e avanços na saúde.
As disparidades sociais foram marcantes em quase todos os recortes. As mulheres e os indivíduos com menor nível de instrução relataram consistentemente mais dor do que seus pares. Em 2016, a Coreia do Sul, Portugal e Espanha apresentaram as maiores disparidades de sexo e educação. Curiosamente, as disparidades educacionais permaneceram estáveis em 16 países, mas as de sexo aumentaram em 11 nações, incluindo os Estados Unidos e países do sul da Europa. Na Holanda, as disparidades educacionais e de idade não foram significativamente estatísticas, podendo ser um caso exemplo sobre o impacto da educação igualitária e proteções sociais e trabalhistas robustas. Por outro lado, o aumento da dor na Espanha foi associado a medidas de austeridade pós-crise financeira de 2008, que reduziram o acesso a serviços de saúde para os mais velhos.
Em relação à idade, os resultados foram heterogêneos. Embora, na maioria dos casos, o grupo mais idoso (acima de 60 anos) tenha relatado mais dor do que o grupo de 50 a 60 anos, especialmente na Coreia do Sul, Espanha e Itália, essa tendência não foi universal. Em países como Dinamarca, Holanda e Suécia, os mais velhos chegaram a relatar menos dor do que os mais jovens. Ao consolidar esses dados em um índice de disparidade social para 2016, o estudo identificou que a Dinamarca possuía o menor índice de disparidade, enquanto a Coreia do Sul apresentava o maior, evidenciando como o contexto nacional molda a distribuição da dor na população.
Em suma, Calvo e colaboradores (2026) concluíram que a dor é um desafio de saúde pública massivo e crescente, afetando quase metade dos adultos com 50 anos ou mais nas nações analisadas. Os dados revelaram que a prevalência da dor aumentou substancialmente na maioria dos países em uma década, mas reforçaram que essa condição não é uma consequência inevitável do envelhecimento, sendo passível de prevenção e tratamento por meio de políticas adequadas. Além disso, a pesquisa demonstrou que as disparidades de sexo, educação e idade variam significativamente de acordo com o país, sugerindo que o contexto político e social desempenha um papel fundamental na forma como a dor é distribuída na população.
Para o futuro, os pesquisadores recomendaram a integração do manejo da dor nas estratégias globais de envelhecimento saudável, com foco em intervenções orientadas pela equidade. No entanto, essas iniciativas devem ser implementadas com cautela para evitar a repetição de erros históricos, como o marketing agressivo de opioides, priorizando soluções estruturais e seguras para a longevidade saudável.
Published on March 16, 2026
Saúde pública
Como o sexo, a educação e o contexto nacional impactam na dor
Calvo e colaboradores (2026) demonstraram que a dor não é uma consequência inevitável do envelhecimento, mas um desfecho moldado por políticas públicas e sistemas de saúde, exigindo intervenções focadas na equidade.
Author: Calvo, Esteban et al.
Fuente: The Lancet Healthy Longevity, V. 7,N. 1, 2026 International trends and social disparities in pain of adults aged 50 years and older in 22 countries across Europe, Asia, and the Americas: a longitudinal population-based study
A prevalência global da dor é alarmante, superando a soma dos casos de câncer, diabetes e doenças cardíacas combinados. Como a condição pode ser desencadeada por diversos motivos, ela não deve ser considerada uma consequência inevitável do envelhecimento, uma vez que possui potencial para ser prevenida e tratada.
Apesar da sua relevância clínica e social, ainda há pouca pesquisa sobre as tendências internacionais e as disparidades sociais na dor entre adultos de meia-idade e idosos (50 anos ou mais). No entanto, a vigilância global é dificultada pelo fato de a condição não ser avaliada rotineiramente em inquéritos nacionais de saúde. Documentar essas tendências é importante para compreender como mudanças populacionais e políticas moldam os resultados de saúde, transformando a visão da dor de um problema puramente individual para uma questão de saúde pública populacional.
Diante dessa lacuna, Calvo e colaboradores (2026) apresentaram a primeira análise longitudinal transnacional a utilizar medidas repetidas de nível individual para avaliar "qualquer dor" em adultos acima de 50 anos em três continentes, buscando comparar como disparidades de sexo, nível educacional e idade variam entre os países ao longo do tempo.
O estudo baseou-se em uma análise longitudinal de dados de 212.904 adultos com 50 anos ou mais, provenientes de 22 países em três continentes (Europa, Ásia e Américas). Esses foram extraídos de seis estudos de coorte nacionalmente representativos. Para definir o desfecho de dor, os pesquisadores harmonizaram dois tipos de abordagens de questionário em uma variável dicotômica indicando "qualquer dor". Foram conciliadas perguntas gerais (ex: "Você é frequentemente incomodado por dor?") e específicas por local (ex: "Em que parte do corpo você sente dor?"). As principais variáveis independentes incluíram o país e o ano da pesquisa, além de covariáveis demográficas e sociais: sexo, nível educacional e idade.
Com base nos dados analisados entre 1998 e 2018, os resultados revelaram um cenário preocupante para a saúde pública global. A prevalência bruta de dor, considerando todos os países e anos agrupados, foi de 43,21%, apresentando uma continuidade de 74% entre as ondas das pesquisas, o que reforça o caráter crônico da condição na população acima de 50 anos. Quando ajustada pelos instrumentos de coleta, a prevalência variou significativamente entre as nações, com os menores índices registrados na Holanda em 2006 (26,70%) e os maiores na França em 2016 (59,20%).
No período de uma década (2006–2016), a prevalência de dor aumentou substancialmente em 15 dos 22 países estudados, com um crescimento médio anual de 1,21 ponto percentual, totalizando um aumento de 12,1 pontos percentuais no período. Em contrapartida, a China apresentou um declínio anual significativo, enquanto seis países (Áustria, Dinamarca, Alemanha, México, Suécia e Suíça) mantiveram taxas estáveis. Os autores ressaltaram que essas tendências não podem ser explicadas apenas por mudanças demográficas, como o envelhecimento populacional ou níveis educacionais, sugerindo a influência de fatores políticos e sociais específicos de cada país. No caso da China, essa queda pode ser atribuída à automação industrial, melhorias nos padrões de vida e avanços na saúde.
As disparidades sociais foram marcantes em quase todos os recortes. As mulheres e os indivíduos com menor nível de instrução relataram consistentemente mais dor do que seus pares. Em 2016, a Coreia do Sul, Portugal e Espanha apresentaram as maiores disparidades de sexo e educação. Curiosamente, as disparidades educacionais permaneceram estáveis em 16 países, mas as de sexo aumentaram em 11 nações, incluindo os Estados Unidos e países do sul da Europa. Na Holanda, as disparidades educacionais e de idade não foram significativamente estatísticas, podendo ser um caso exemplo sobre o impacto da educação igualitária e proteções sociais e trabalhistas robustas. Por outro lado, o aumento da dor na Espanha foi associado a medidas de austeridade pós-crise financeira de 2008, que reduziram o acesso a serviços de saúde para os mais velhos.
Em relação à idade, os resultados foram heterogêneos. Embora, na maioria dos casos, o grupo mais idoso (acima de 60 anos) tenha relatado mais dor do que o grupo de 50 a 60 anos, especialmente na Coreia do Sul, Espanha e Itália, essa tendência não foi universal. Em países como Dinamarca, Holanda e Suécia, os mais velhos chegaram a relatar menos dor do que os mais jovens. Ao consolidar esses dados em um índice de disparidade social para 2016, o estudo identificou que a Dinamarca possuía o menor índice de disparidade, enquanto a Coreia do Sul apresentava o maior, evidenciando como o contexto nacional molda a distribuição da dor na população.
Em suma, Calvo e colaboradores (2026) concluíram que a dor é um desafio de saúde pública massivo e crescente, afetando quase metade dos adultos com 50 anos ou mais nas nações analisadas. Os dados revelaram que a prevalência da dor aumentou substancialmente na maioria dos países em uma década, mas reforçaram que essa condição não é uma consequência inevitável do envelhecimento, sendo passível de prevenção e tratamento por meio de políticas adequadas. Além disso, a pesquisa demonstrou que as disparidades de sexo, educação e idade variam significativamente de acordo com o país, sugerindo que o contexto político e social desempenha um papel fundamental na forma como a dor é distribuída na população.
Para o futuro, os pesquisadores recomendaram a integração do manejo da dor nas estratégias globais de envelhecimento saudável, com foco em intervenções orientadas pela equidade. No entanto, essas iniciativas devem ser implementadas com cautela para evitar a repetição de erros históricos, como o marketing agressivo de opioides, priorizando soluções estruturais e seguras para a longevidade saudável.